Cardiologia

Índice glicêmico e doença cardiovascular

Tempo de leitura: 3 min.

Diversos estudos resultaram na orientação de dietas com baixo índice glicêmico para prevenção e tratamento de diabetes. Porém, estudos que avaliaram se esse tipo de dieta tem benefício também na redução de risco cardiovascular tiveram resultados conflitantes. Além disso, a maioria deles foi realizada em países de alta renda.

Recentemente foi publicado um estudo que avaliou a relação do índice glicêmico com doença cardiovascular e mortalidade por todas as causas em pessoas com diferentes padrões de dieta em diferentes países.

Leia também: Doença cardiovascular e doença renal crônica

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Características do estudo e população envolvida

Esse estudo teve 137.851 participantes com idade entre 35 e 70 anos, que viviam em 20 países, sendo 4 de alta renda, 11 de média e 5 de baixa renda (baseado na renda per capita de 2006, ano de início). Os dados foram coletados a partir de questionários padronizados e formulários específicos foram feitos para a notificação da ocorrência de eventos cardiovasculares ou óbito.

Foram obtidos dados sobre a alimentação habitual dos participantes no início do estudo. O questionário continha 3.200 itens, incluindo alimentos específicos de alguns países, e para cada alimento era especificado o tamanho de uma porção ou unidade. O participante indicava o consumo médio anual, que ia desde “nunca” até “seis ou mais vezes ao dia”.

O desfecho primário era composto de eventos cardiovasculares maiores (morte cardiovascular, infarto agudo do miocárdio, acidente vascular cerebral (AVC) ou insuficiência cardíaca) ou mortalidade por todas as causas e o desfecho secundário era mortalidade por causa não cardiovascular e os componentes do desfecho primário individualmente.

Os valores do índice glicêmico dos alimentos (uma medida de o quanto 50 gramas de carboidrato de um alimento faz a glicemia aumentar) foram calculados para os diferentes grupos de alimentos, a partir do valor para cada alimento isoladamente. A carga glicêmica foi calculada a partir da multiplicação da média da ingestão de carboidratos (em gramas por dia) pelo índice glicêmico e dividindo-se o resultado por 100.

Resultados

O consumo de alimentos com índices glicêmicos mais altos foi maior na China, África e sudeste asiático e as dietas com maior carga glicêmica foram encontradas no sul da Ásia, África e China. 119.575 pessoas foram seguidas até o fim do estudo, por tempo médio de 9,5 anos e o desfecho primário ocorreu em 14.075 participantes (11%), sendo destes 8.780 óbitos. 8.252 participantes tiveram pelo menos um evento cardiovascular no período.

Ao avaliar a relação do índice glicêmico ao desfecho primário, houve associação entre maiores índices glicêmicos e doença cardiovascular, tanto para quem tinha doença cardiovascular prévia quanto para quem não tinha (HR 1,25; IC 95% 1,15 – 1,37). Também houve associação do índice glicêmico com morte cardiovascular, eventos cardiovasculares maiores e AVC. O mesmo padrão foi encontrado quando avaliada a carga glicêmica, exceto para eventos cardiovasculares maiores e mortalidade por qualquer causa, que teve associação positiva apenas quando o participante já tinha doença cardiovascular prévia.

Saiba mais: Whitebook: abordagem dietética da obesidade e tipos de dieta

A associação de carga glicêmica e desfecho primário foi maior ainda quando o IMC era maior que 25 kg/m2 quando comparado a menor que 25 kg/m2 (p < 0,01). Não houve diferença quando avaliados em relação a tabagismo, atividade física, uso de anti-hipertensivos ou estatina. Além disso houve pouca variação em relação às regiões geográficas e, quando os participantes foram avaliados em relação a poder econômico, houve uma gradação para o índice glicêmico, com as economias mais ricas tendo associação mais forte do índice glicêmico com desfecho primário (HR 1,93; IC 95% 1,05 – 3,53).

Conclusão

Neste estudo, dieta com maior índice glicêmico foi associado a maior risco de doença cardiovascular e mortalidade comparado a dieta com menor índice glicêmico. Essa associação foi mais forte para os com sobrepeso ou obesidade, provavelmente porque esses pacientes têm maior chance de ter outras comorbidades, como hipertensão, diabetes, doenças cardiovasculares no geral e alguns tipos de câncer.

Este estudo tem algumas limitações como os alimentos serem agrupados em categorias, o que pode resultar em cálculos menos precisos do índice glicêmico, e o fato de a avaliação alimentar ter sido feita no início do estudo, com possibilidade de mudança do tipo de dieta ao longo do tempo. Porém tem pontos muito positivos, como o grande número de participantes, incluiu diferentes economias e populações bastante diferentes entre si, o que faz com as conclusões encontradas sejam mais reprodutíveis na população em geral.

Autor(a):

Referências bibliográficas:

  • Jenkins DJA, et al. Glycemic Index, Glycemic Load, and Cardiovascular Disease and Mortality. N Engl J Med 2021; 384:1312-1322 doi: 1056/NEJMoa2007123
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Publicado por
Isabela Abud Manta

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