Residência Médica

Jornadas: A residência médica

Tempo de leitura: 4 min.

Após a graduação, boa parte dos profissionais da equipe multiprofissional de saúde opta por ingressar em uma especialização. Esse caminho pode ser uma pós-graduação ou um programa de residência. Na faculdade, somos apresentados a diferentes áreas de forma superficial e ampla, com o objetivo de formar médicos generalistas. A residência médica é um período fundamental na formação do profissional, onde ele será forçado a adentrar uma jornada de autoconhecimento, assumir responsabilidades, e desvendar suas inseguranças.

Saiba mais: Prova de residência: dicas de estudo e temas de cirurgia geral

A escolha das especialidades médicas 

As grandes áreas da medicina apresentadas ao estudante no internato agora estão disponíveis para ele escolher uma especialidade. Existem diversos programas para acesso direto como cirurgia, clínica médica, ginecologia e obstetrícia, pediatria, medicina de família e comunidade, entre muitas outras áreas. No entanto, a concorrência para adentrar nos melhores hospitais é ferrenha. Assim, o aluno acaba se dividindo entre as obrigações do internato e as horas intermináveis de estudo para as provas de residência.  

Muitas vezes, o recém-formado não se identifica com a especialidade escolhida quando a residência começa, e não existe problema nenhum com isso. Nesse momento conhecemos a vivência real do trabalho nas diferentes especialidades, as expectativas confrontam a realidade, e podem ocorrer diversas idas e vindas até se identificar com a área que mais se adequa a você.  

Choque de realidade 

O primeiro dia como residente é um choque de realidade. Ainda que você esteja no mesmo hospital onde fez o internato, a responsabilidade e nível de supervisão são muito diferentes. Cada vez mais, o aluno deixa de ter um papel passivo no seu aprendizado, passando a precisar buscar ativamente as informações, conforme os desafios que aparecem pela sua frente. Agora os pacientes e suas famílias estão sob sua responsabilidade, você deve tomar as decisões, e isso é ao mesmo tempo assustador e enriquecedor.  

Na residência, quando você assume uma carga maior de responsabilidades, com uma supervisão menor do que no internato, o peso da situação é sentido em um nível visceral. Os acertos liberam uma descarga de dopamina, porém os erros são sentidos na alma. Existirão erros, não se engane, e eles fazem parte do caminho. Eles não serão só seus, uma vez que existe alguém supervisionando seu trabalho, mas você os levará consigo para sempre.  

Cada paciente que passar por você deixará uma marca, um pouco de si, o que moldará você como médico. Vamos mudando, mas devemos tomar cuidado para não esquecer a pessoa que somos, não podemos perder nossa humanidade. Vamos sentir diversas emoções, boas e ruins, as quais devem ser autopercebidas, nomeadas e validadas. Não podemos negligenciar ou esconder o que sentimos, e acima de tudo não devemos deixar de nos emocionar com aquilo que vivemos na profissão.   

Nesse processo, é fundamental que o residente possua uma forte rede social de apoio, seja por cônjuges, familiares, ou colegas de residência. Também é fundamental a construção de uma relação de confiança com os chefes, que te guiarão durante o caminho.  Os laços de relacionamentos se fortalecem imensamente nesse período, e serão formadas amizades inabaláveis para a vida inteira. Se você sentir que seu apoio está insuficiente, procure ajuda e não tente atravessar as adversidades na base da força.  

A relação confiança x conhecimento 

Precisamos levar duas coisas sempre conosco: desconfiar de quem não tem dúvidas e aprender a conviver com suas incertezas. Ao longo da residência passamos por uma situação desconcertante, pois parece que quanto mais estudamos, mais surgem dúvidas, e a sensação é de que desaprendemos ao longo do tempo.  

O ser humano é um sistema complexo, talvez o mais complexo de todos. Pensamos em um caso clínico conforme os diferentes “scripts de doenças” que possuímos na cabeça. Inicialmente, sabemos apenas as apresentações mais comuns de doenças comuns. Assim, possuímos um script simples das doenças (ex: “febre = infecção”), e chegamos a conclusões rápidas e erradas. Conforme a experiência e o estudo contínuo, aprendemos apresentações mais raras de doenças comuns (ex: “febre = infecção ou neoplasia ou etc”), assim como as apresentações mais comuns de doenças raras. Os grandes mestres também sabem as apresentações incomuns de doenças raras. Dessa forma, elaboramos scripts mais complexos das doenças na nossa cabeça, e adquirimos maior acurácia diagnóstica.  

No entanto, esse processo envolve um ciclo, onde quanto maior o nível de conhecimento, menor será a autoconfiança. Posteriormente conseguimos uma reconquista árdua da confiança, somente para perdê-la novamente. Passamos por isso durante a residência inteira, e esse fenômeno é chamado de efeito Dunning-Kruger (figura 1).  

Figura 1: O efeito Dunning-Kruger explica o que passamos durante a residência médica. Percorremos ciclos, onde quanto mais aprendemos, mais tomamos ciência de nossa ignorância.

 

Leia também: Valores de bolsas de residência médica terão reajuste de 23,29% a partir de 2022

Conclusão 

A residência médica é um período crucial da formação, onde passamos por desafios inéditos que colocam à prova tudo que nos foi apresentado na faculdade. As dificuldades impostas nos obrigam a crescer como profissional e como pessoa, e os laços interpessoais se fortalecem nas intempéries. Cada paciente irá deixar uma parte dele consigo, o que irá moldar você como médico. Você irá construir uma relação íntima com as suas incertezas e aprenderá a conviver com elas, o que será importante para manter a sua humildade. 

 

 

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Publicado por
Vinícius Zofoli de Oliveira

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