Lavagem peritoneal intraoperatória extensiva (LPIE) em gastrectomia curativa: fazer ou não? 

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Gastrectomia para tratamento de câncer gástrico localmente avançado pode cursar frequentemente com recorrência da doença, principalmente a nível peritoneal, o que constitui um importante fator preditor de mau prognóstico, com sobrevida média de 6,4 meses após diagnóstico de implantes. Acredita-se que essa recorrência pode estar relacionada à disseminação de células neoplásicas durante a manipulação do tumor gástrico ou na dissecção linfonodal. Assim, a realização de lavagem peritoneal intraoperatória extensiva (LPIE) mostrou-se, principalmente em estudos prévios como o trial de Kuramoto et al. (2009), uma potencial medida profilática para recidiva peritoneal do câncer gástrico. 

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Lavagem peritoneal intraoperatória extensiva (LPIE) em gastrectomia curativa fazer ou não 

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Análise sobre a lavagem peritoneal intraoperatória extensiva

A LPIE consiste na lavagem da cavidade peritoneal com 1 litro de solução salina aquecida (42º) seguida por aspiração do conteúdo por, pelo menos, dez vezes consecutivas no intraoperatório. Foi objetivando avaliar a efetividade deste procedimento na prevenção de recidiva peritoneal do câncer gástrico localmente avançado que pesquisadores de 22 hospitais asiáticos conduziram um estudo prospectivo, randomizado, de fase III. Os pacientes alocados nesse estudo tinham entre 21 e 80 anos, tendo sido inicialmente estadiados com câncer gástrico localmente avançado cT3 ou cT4 e estando aptos a ressecção cirúrgica potencialmente curativa. No total, 800 pacientes foram aleatoriamente alocados em dois grupos: gastrectomia associada a EIPL ( N = 398) ou gastrectomia (N = 402). 

Foram avaliados os seguintes desfechos: taxa de sobrevida global, taxa de sobrevida livre da doença, recidiva peritoneal e eventos adversos em até 30 dias após a cirurgia. 

O estudo seguiu até agosto de 2019, quando, após avaliação da probabilidade preditiva de sobrevida global significativa no grupo EIPL ser inferior a 0,5%, foi indicado encerramento precoce do trial com base na futilidade da análise. 

Dos resultados encontrados, observou-se sobrevida global 3 anos após a cirurgia de 77% no grupo EIPL e 76,7% no grupo controle (p = 0,62). Em relação à sobrevida livre da doença, 64,8% vs 69,4% estavam livres da doença após 3 anos de seguimento no grupo EIPL e controle, respectivamente (p = 0,40). Já a incidência de recidiva peritoneal foi de 7,9% no grupo EIPL e 6,6% no grupo controle. 93 pacientes reportaram 101 eventos adversos, sendo a maioria proveniente do grupo EIPL (56 pacientes e 60 eventos adversos). As mais comuns foram deiscência anastomótica (N = 10 vs N = 2, grupo EIPL vs controle, respectivamente), sangramento (N = 6 em ambos os grupos) e abscesso intra-abdominal (N = 4 vs N = 5, grupo EIPL vs controle, respectivamente). Dos eventos adversos severos reportados houveram 8 mortes (2%) e 36 readmissões (10%) no grupo EIPL e 2 mortes (1%) e 30 readmissões (8%) no grupo controle. 

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Em resumo, o estudo demonstrou que pacientes com câncer gástrico localmente avançado submetidos a gastrectomia associada a EIPL, quando comparados ao grupo controle, apresentaram semelhante sobrevida global, sobrevida livre da doença e taxa de recorrência peritonial. Adicionalmente, o grupo EIPL apresentou maior incidência de eventos adversos, possivelmente associada à maior manipulação de alças durante a lavagem da cavidade. 

Para levar para casa 

O peritônio é um dos principais sítios de recidiva de cânceres gastrointestinais e ginecológicos e, embora estudos estejam em andamento para avaliar medidas protetivas para essa recorrência, não há evidência robusta que suporte um tratamento capaz de reduzir o risco dessa recidiva. Por isso, o tratamento precoce do câncer gástrico permanece sendo nossa ferramenta para obter melhores resultados de sobrevida global e sobrevida livre da doença.

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Referências bibliográficas:

  • Yang H, et al. Extensive peritoneal lavage with saline after curative gastrectomy for gastric cancer (EXPEL): a multicentre randomised controlled trial. The Lancet Gastroenterology & Hepatology. 2020;6(2):120-127. doi10.1016/S2468-1253(20)30315-0

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