Leucemia mieloide aguda: tempo entre diagnóstico e tratamento influencia o prognóstico?

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Diretrizes nacionais e internacionais preconizam o rápido início da quimioterapia em pacientes recém-diagnosticados com leucemia mieloide aguda (LMA), devido ao prognóstico reservado observado em casos não tratados (mediana de sobrevida de 17 semanas).

No entanto, estudos recentes vêm mostrando que, por vezes, adiar o começo da terapia até a obtenção de resultados de exames laboratoriais pode ser benéfico.

Pesquisadores alemães analisaram a relação do tempo entre o diagnóstico e o tratamento (TDT) com o prognóstico de 2.263 indivíduos com LMA. Foram excluídos do estudo pacientes com leucemia promielocítica, considerada uma emergência médica, com alta taxa de mortalidade precoce.

Tempo entre diagnóstico e tratamento na leucemia mieloide

Pouco mais da metade dos participantes tinham alterações genéticas de risco intermediário, e cerca de um quinto apresentava hiperleucocitose ao diagnóstico. Não foram observadas grandes diferenças no TDT entre os centros, independente da estrutura de cada um.

Os pacientes foram divididos em quatro grupos de acordo com o TDT: 0-5, 6-10, 11-15 e > 15 dias. Percebeu-se maior mediana de idade, menor incidência de NPM1 mutado e maior proporção de casos de alto risco no grupo 11-15 dias. Leucometria, percentual de blastos na medula óssea e valor de LDH ao diagnóstico foram inversamente proporcionais ao TDT, indicando que a instituição mais tardia da terapia ocorreu em indivíduos com evidências de menor carga tumoral. O grupo > 15 dias teve a menor incidência de LMA de novo, e mutação em FLT3 foi mais frequentemente encontrada no grupo 0-5 dias.

Veja também: Tratamento da leucemia mieloide aguda em idosos: diretriz norte-americana

Na grande maioria dos casos (> 95%), o esquema de indução de remissão utilizado foi o “7 + 3”, e as taxas de remissão foram de 79%, 76%, 72% e 77% nos grupos 0-5, 6-10, 11-15 e > 15 dias, respectivamente. Em relação aos óbitos nos primeiros 30 dias do início da quimioterapia, foram observados 4,1%, 3,8%, 4,7% e 4,3% nos grupos 0-5, 6-10, 11-15 e > 15 dias, respectivamente. Tais achados se refletiram na sobrevida global em 2 anos: 51%, 48%, 44% e 50% nos grupos 0-5, 6-10, 11-15 e > 15 dias, respectivamente.

Conclusões

Os autores sugerem que o fato dos casos com sinais de alta carga tumoral terem sido tratados mais precocemente possa ter contribuído para a ausência de impacto do TDT nas taxas de remissão e de sobrevida global, na população estudada.

Outro ponto destacado foi o valor prognóstico de fatores biológicos: quando o tratamento é iniciado após a identificação de todos esses fatores (como alterações citogenéticas), a terapia pode ser mais bem direcionada para cada caso, aumentando as chances de sucesso (ex.: uso de inibidores específicos na presença de mutação em FLT3).

Mais da autora: Linfoma folicular: Relação entre contagem de linfócitos e monócitos e valor prognóstico

Os resultados e as hipóteses levantadas mostram que mais importante do que o TDT é o conhecimento dos fatores associados a pior prognóstico (ex.: coagulopatia, leucostase, neutropenia febril). Dessa forma, a equipe médica pode identificar quais pacientes devem iniciar o tratamento imediatamente e quais podem ter a terapia brevemente adiada. Obviamente, atrasos desnecessários devem ser sempre evitados na LMA.

Autora:

Referência bibliográfica:

  • Röllig, Christoph, et al. “Does time from diagnosis to treatment affect the prognosis of patients with newly diagnosed acute myeloid leukemia?.” Blood (2020).
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Publicado por
Lívia Pessôa de Sant'Anna

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