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homem agachado trabalhando com uma serra

Lombalgia ligada ao trabalho: um problema de saúde pública

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Os inúmeros trabalhos nacionais e internacionais sobre o tema lombalgia relacionada ao trabalho chegam a ser repetitivos em muitos pontos. Afirmam que a lombalgia é considerada um sério problema de saúde pública, pois afeta uma grande parte da população economicamente ativa, incapacitando-as temporária ou definitivamente para suas atividades profissionais e diárias. É a doença ocupacional mais antiga relatada da história.

Em 1713, Bernardo Ramazzini, fundador da medicina do trabalho, referia-se “a certos movimentos violentos e irregulares bem como posturas incorretas do corpo pela qual poderia prejudicar a estrutura interna”. A dor lombar é apenas sobrepujada pela cefaleia dentre os distúrbios dolorosos que mais afetam o homem.

A epidemiologia da dor lombar aponta para uma prevalência na população em geral entre 50 a 80%, sendo a literatura mais frequente em afirmar a máxima deste percentual. Ela é ainda um dos principais motivos de consultas médicas, hospitalizações e intervenções cirúrgicas, e acomete comumente homens acima de 40 anos e mulheres entre 50 a 60 anos de idade.

A chamada lombalgia ocupacional, a maior causa isolada de transtorno de saúde relacionado ao trabalho e de absenteísmo, e a mais comum de incapacidade em trabalhadores com menos de 45 anos de idade, tem predileção por adultos jovens e é responsável por aproximadamente ¼ dos casos de invalidez prematura.

A lombalgia é considerada uma doença ocupacional que gera os mais altos custos relacionados com o trabalho. Nos EUA, são gastos anualmente mais de 16 bilhões de dólares com tratamentos e afastamentos por dor lombar. O custo indireto pode ser estimado no total de 50 a 80 bilhões de dólares por ano. Sob o ponto de vista de perda de horas de trabalho, ela é a maior causadora de horas perdidas nos principais setores industriais se comparado a outras doenças.

A Classificação Internacional de Comprometimentos, Incapacidades e Deficiências da Organização Mundial de Saúde reconhece a lombalgia como um comprometimento que revela perda ou anormalidade da estrutura da coluna lombar de etiologia psicológica, fisiológica ou anatômica ou, ainda, uma deficiência que traduz uma desvantagem que limita ou impede o desempenho pleno de atividades físicas.

Ainda sob a perspectiva dessa classificação, a lombalgia pode evidenciar síndromes de uso excessivo, compressivas ou posturais, relacionadas a desequilíbrios musculares, fraqueza muscular, diminuição na amplitude ou na coordenação de movimentos, aumento da fadiga e instabilidade do tronco.

A lombalgia tem diferentes classificações quanto aos fatores orgânicos e psicológicos, quanto a anatomia e fisiologia, porém a classificação por duração torna-se importante pelo enfoque econômico. A lombalgia pode ser aguda e se caracteriza pela presença de dor de início súbito com duração inferior a 6 semanas, na maioria das vezes é autolimitada e dura até uma semana. Cerca de 90% melhoram espontaneamente, 60% retornam em até um mês para suas funções e 30 a 60% apresentam recidiva da dor em 1-2 anos.

A lombalgia subaguda dura em torno de 6 a 12 semanas, com retorno a função habitual em 3 meses. E a chamada lombalgia crônica ocorre em cerca de 8-10% dos casos e ultrapassa 12 semanas, compromete a produtividade e tem maior dificuldade de ter resolução completa.

Mais da autora: ‘Construção civil, seus riscos e a difícil atuação do médico do trabalho’

A etiologia é multifatorial, com difícil identificação de causa única ou principal geradora da dor lombar. Na gênese da lombalgia estão envolvidos fatores de risco individuais (idade, sexo, IMC, desequilíbrio muscular, força muscular, condições socioeconômicas e a presença de outras enfermidades) e profissionais (movimentos repetitivos e posturas incorretas por falta de ergonomia no ambiente de trabalho).

Os fatores causais diretamente relacionados com as lombalgias ocupacionais são os mecânicos, os posturais, os traumáticos e os psicossociais, enquanto a idade, postura e fadiga são fatores contribuintes para a elevada percentagem de recidiva de dor lombar.

Curiosamente, observamos uma tendência divergente entre algumas literaturas. Alguns trabalhos dão principal ênfase ao fator psicossocial de incapacidade relacionado à dor lombar crônica. Esses trabalham afirmam que a evolução dos sintomas e a dor referida tinham relação estatisticamente significativa com os ganhos sociais e econômicos.

Quanto maior o ganho secundário econômico decorrente do comportamento da doença, maior o número de faltas ao trabalho, maiores queixas de incapacidade doméstica e mais frequente a depressão. Isso nos alerta que os tratamentos exclusivamente voltados para a parte física poderão ter efeitos terapêuticos parciais.  Esses autores lembram que existe uma elevada prevalência de alterações presentes em exames de imagem de pessoas assintomáticas. O diagnóstico de lombalgia ocupacional exige uma minuciosa anamnese ocupacional e análise cuidadosa da organização do trabalho e do ambiente laboral.

Os autores parecem que insinuam que quase todo paciente que sofre de dor lombar crônica, de alguma forma aumenta ou simula os seus sintomas. Eles concluem que pacientes com dor lombar crônica, mesmo os que possuíam alterações de imagem significativas nos discos intervertebrais, não podem ter sua incapacidade avaliada. Eles constantemente orientam aos peritos médicos a considerar os sintomas como psicossomáticos, realizar diversos exames semiológicos, que mesmo quando alterados, não significam que realmente exista a doença.

Veja também: ‘Dor lombar e hérnia de disco: você sabe conduzir adequadamente?’

Eles afirmam que os únicos fatores que puderam predizer a incapacidade relacionada à dor lombar crônica, com força estatística significativa, foram os fatores psicossociais. Para esses pacientes recomendam uma reabilitação multidisciplinar, com abordagem dos sintomas somáticos e não somente das dores físicas. Recomenda a agregação da multidisciplinaridade com suporte psicológico e social adequados, que gerarão maiores custos iniciais, porém, se revelação menos dispendiosos a longo prazo.

Sabemos que a maioria dos trabalhadores com nível de escolaridade menor, desenvolvem atividades que demandam maior esforço físico. Estes muitas vezes têm jornadas mais longas, não tem conhecimento de seus direitos como a inclusão de pausas para descanso mais ou menos frequentes, dependendo da análise ergonômica do trabalho e troca de funções periódica para evitar lesões de repetição e deterioração da saúde mental.

A Norma Regulamentadora (NR) 17 estabelece parâmetro que permite a adaptação das condições de trabalho às características psicofisiológicas dos trabalhadores, de modo a proporcionar o máximo de segurança e eficiente desempenho. Temos outras NRs que descrevem perfeitamente o que deve ser feito para prevenir, educar e orientar os trabalhadores, visando a redução dos riscos de adoecimento.

Porém, a realidade que já vivenciamos atualmente é muito diferente. Quantos trabalhadores com lombalgia crônica e lesão de segmento lombossacral, avaliados por especialistas como ortopedistas e neurologistas e até neurocirurgiões como impossibilitados de retorno ao trabalho, tem alta programada pelo perito médico do INSS? O médico do trabalho da empresa que avalia o paciente nesta condição muitas vezes fica impossibilitado de liberar o seu retorno ao trabalho.  O trabalhador fica no “limbo” do sistema previdenciário e fica sem receber e sem poder trabalhar. E infelizmente as mudanças que nos aguardam tornam esse futuro ainda mais difícil com aumento da idade e tempo de contribuição para aposentadoria, flexibilização das leis trabalhistas com aumento da jornada de trabalho, terceirização dos serviços, possibilidade de contratação por pessoa jurídica. Verdadeiramente um desastre para o trabalhador brasileiro que literalmente irá trabalhar até morrer.

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Referências:

  • Helfenstein Junior, M., Goldenfum, M. A., & Siena, C. (2010). Occupational low back pain. Revista da Associação Médica Brasileira, 56(5), 583-589.
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  • Xu, Y., Bach, E., & Orhede, E. (1997). Work environment and low back pain: the influence of occupational activities. Occupational and Environmental Medicine, 54(10), 741-745.
  • de Medeiros, J. D., & de Souza Pinto, A. P. (2014). Impacto social e econômico na qualidade de vida dos indivíduos com lombalgia: revisão sistemática. Caderno de Graduação-Ciências Biológicas e da Saúde-UNIT-ALAGOAS, 2(1), 73-78.
  • Weiner, D. K., Sakamoto, S., Perera, S., & Breuer, P. (2006). Chronic low back pain in older adults: prevalence, reliability, and validity of physical examination findings. Journal of the American Geriatrics Society, 54(1), 11-20.

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