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Sialorreia em pacientes neurológicos: como tratar?

Tempo de leitura: 4 minutos.

A sialorreia é um sintoma comum a várias doenças neurológicas (paralisia cerebral, acidente vascular cerebral, doenças do neurônio motor, Parkinson, entre outras). Nesses casos, o excesso de saliva não é decorrente do aumento de sua produção, e sim de fraqueza e/ou incoordenação da musculatura bulbar e/ou facial. Isso resulta em comprometimento do fechamento dos lábios, da deglutição e do controle da salivação.

As consequências vão além do constrangimento causado aos pacientes e familiares. Incluem lesões cutâneas, como rachaduras ao redor da boca; distúrbios da fala, do sono e da mastigação; desidratação; fadiga; tosse; maior risco de aspiração e prejuízo na adaptação de suporte ventilatório não invasivo. O acúmulo de secreção espessa na cavidade oral, muitas vezes resultado de tratamentos para sialorreia, também é prejudicial aos pacientes.

Como tratar o paciente com sialorreia

Apesar de sua elevada frequência, o manejo adequado ainda possui poucas evidências. Uma revisão publicada na revista Practical Neurology (2017-2018) aprofunda as reflexões sobre o tema:

  • A escolha por uma ou mais terapias deve considerar a caracterização dos sintomas, ponderar certos aspectos, como sua causa (relacionada à disfagia ou ao fechamento inadequado dos lábios, por exemplo) e o horário preferencial de sua ocorrência (ao longo do dia, preferencialmente às refeições, relacionado a outras ocorrências como nos pacientes com doença de Parkinson nos quais a sialorreia pode ser mais frequente durante os episódios off);
  • As terapias conservadoras, por sua simplicidade e baixo risco de efeitos adversos, devem ser consideradas para todos os pacientes. Incluem medidas diversas:
    – Posicionamento adequado
    – Suporte fonoaudiólogo
    – Lembretes para engolir
    – Reabilitação oral
    – E aspiradores portáteis.
  • Os anticolinérgicos, apesar do baixo custo e a facilidade de prescrição, podem produzir efeitos colaterais mais desagradáveis do que a própria sialorreia: xerostomia excessiva, retenção urinária, constipação, aumento de pressão intraocular, redução de transpiração, aumento da temperatura corporal e turvação visual. Em idosos, são particularmente importantes os efeitos sobre o sistema nervoso central: confusão, desorientação, prejuízo de memória, sedação. O glicopirrolato, por sua dificuldade em cruzar a barreira hematoencefálica, é menos associado a tais efeitos;
  • A injeção de toxina botulínica nas glândulas parótidas e submandibulares tem ação mais duradoura e menos efeitos colaterais do que os anticolinérgicos. Contudo, quando presentes, seus efeitos adversos também podem perdurar por mais tempo: xerostomia, secreção brônquica mais espessa, saliva viscosa, dificuldade para mastigação, dor no local da injeção e disfagia. Há também o risco de indução de anticorpos e a redução progressiva de sua eficácia;
  • A radioterapia é a opção reservada para os casos não responsivos às terapias com anticolinérgicos e toxina botulínica. Seus efeitos são de longa duração, de meses até cinco anos. Por outro lado, seus efeitos colaterais são de curta duração: xerostomia, saliva viscosa, eritema facial, dor e náuseas;
  • O tratamento cirúrgico é usualmente reservado às crianças com sintomas refratários, uma vez que os riscos inerentes a uma intervenção cirúrgica podem ser pouco tolerados por pacientes mais idosos e frágeis. As técnicas utilizadas incluem a remoção das glândulas submandibular e parótidas, deslocamento ou ligadura do ducto submandibular ou parotídeo e neurectomia transtimpânica;
  • A presença de secreção espessa quando relacionada ao tratamento da sialorreia demanda revisão da dose de seus agentes indutores. Outras medidas para seu controle englobam: hidratação, fluidificação das secreções com cubo de gelo, sucos (uva, maçã, abacaxi, mamão) e estimulação da cavidade oral, bochecho com bicarbonato de sódio e sal e agentes mucolíticos.

Outro fator a ser citado, ainda que não abordado pela publicação, é a pesquisa de medicações potencialmente indutoras de sialorreia. Destacam-se nesse grupo os neurolépticos. Como também, há relatos de associação com clobazam, venlafaxina, enalapril e metildopa.

O manejo da sialorreia não é tão simples quanto possa parecer. No entanto, quando conduzido por uma equipe multidisciplinar por meio de combinação de terapias pode trazer importante melhora na qualidade de vida dos pacientes neurológicos.

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Autora:

Cristiane Borges Patroclo

Medica neurologista ⦁ Mestre em neurologia ⦁ Membro titular da Academia Brasileira de Neurologia ⦁ Equipe de neurologia do Hospital PróCardiaco

Referências:

  • DIAS, Bruno Leonardo Scofano; FERNANDES, Alexandre Ribeiro; DE SOUZA MAIA FILHO, Heber. Sialorrhea in children with cerebral palsy. Jornal de Pediatria (Versão em Português), v. 92, n. 6, p. 549-558, 2016.
  • HAWKEY, Nathan M.; ZAORSKY, Nicholas G.; GALLOWAY, Thomas J. The role of radiation therapy in the management of sialorrhea: A systematic review. The Laryngoscope, v. 126, n. 1, p. 80-85, 2016.
  • MCGEACHAN, Alexander J.; MCDERMOTT, Christopher J. Management of oral secretions in neurological disease. Practical Neurology, p. practneurol-2016-001515, 2017.
  • REED, Jeremy; MANS, Carolyn K.; BRIETZKE, Scott E. Surgical management of drooling: a meta-analysis. Archives of Otolaryngology–Head & Neck Surgery, v. 135, n. 9, p. 924-931, 2009.
  • SRIVANITCHAPOOM, Prachaya; PANDEY, Sanjay; HALLETT, Mark. Drooling in Parkinson’s disease: a review. Parkinsonism & related disorders, v. 20, n. 11, p. 1109-1118, 2014.
  • VASHISHTA, Rishi et al. Botulinum toxin for the treatment of sialorrhea: a meta-analysis. Otolaryngology–Head and Neck Surgery, v. 148, n. 2, p. 191-196, 2013.

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