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Marca-passo pode ser usado como tratamento da síncope cardioinibitória grave?

Tempo de leitura: 2 min.

Síncope é extremamente frequente e ocorre pelo menos uma vez na vida de 50% das pessoas. A mais frequente é a síncope reflexa, que pode ser classificada em cardioinibitória, vasodepressora ou mista, de acordo com a resposta encontrada no tilt teste. Geralmente tem um curso benigno, mas formas graves podem ocorrer, principalmente na população mais idosa.

Até o momento, não há indicação de implante de marca-passo para pacientes com síncope reflexa com predomínio da resposta cardioinibitória. Foi então realizado um estudo com o objetivo de avaliar o benefício do marca-passo bicameral com uma tecnologia chamada CLS (do inglês closed loop stimulation), que avalia a impedância intracardíaca durante as fases sistólicas, de forma contínua, analisa informações sobre a velocidade de contração miocárdica e, a partir desses dados, ajusta a frequência cardíaca para a mais adequada de forma muito rápida, o que poderia prevenir a síncope cardioinibitória.

Marca-passo para síncope

Este estudo durou de 2015 a 2020 e foi multicêntrico, randomizado, placebo controlado e cego para os pacientes e avaliadores. Os critérios de inclusão eram: idade maior que 40 anos, pelo menos dois episódios de síncope reflexa grave (com prejuízo da qualidade de vida ou sem pródromos) no último ano e assistolia maior que três segundos no tilt teste.

Todos os pacientes foram submetidos ao implante do marca-passo bicameral com a tecnologia CLS e antes da alta foram randomizados para o grupo intervenção, com marca-passo funcionante (programado para o modo DDD-CLS), ou grupo controle, com marca-passo sem a função pacing (programado para o modo ODO).

Leia também: Dispositivos cardíacos implantáveis: fatores de risco para infecções

Foram randomizados 127 pacientes de 24 serviços, com idade média de 63 anos. A maioria era do sexo masculino (65%) e a mediana da ocorrência de síncope era cinco ao longo da vida e três no último ano. A duração da assistolia no tilt teste foi de 8,6 segundos.

Resultados

Durante o período de seguimento (11,2 meses), a síncope ocorreu em 16% dos pacientes com marca-passo funcionante e 53% do grupo placebo (hazard ratio, 0.23 (95% CI: 0.11–0.47), P= 0.00005), com número necessário a ser tratado (NNT) de 2,2. A redução relativa e absoluta de risco em 2 anos de 77% e 46% respectivamente. O desfecho combinado de síncope ou pré-síncope ocorreu em 37% do grupo intervenção e 63% do grupo placebo.

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Conclusões

Nesse estudo, interrompido antes do previsto por grande benefício observado, houve redução significativa da ocorrência de síncope no grupo intervenção, com NNT de apenas 2,2, ou seja, há grande benefício de usar o marca-passo como tratamento para a população com síncope cardioinibitória grave.

Além disso, o estudo mostrou a utilidade do tilt teste para selecionar os pacientes. Muito provavelmente houve benefício tão grande pela seleção adequada dos pacientes, que são os que tem a resposta cardioinibitória mais importante e síncopes de maior gravidade.

Autora:

Referências bibliográficas:

  • Brignole M, et al. Cardiac pacing in severe recurrent reflex syncope and tilt-induced asystole, European Heart Journal, Volume 42, Issue 5, 1 February 2021, Pages 508–516, https://doi.org/10.1093/eurheartj/ehaa936
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Publicado por
Isabela Abud Manta

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