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Medicina do Trabalho: estabilidade e campo de atuação amplo

Continuando a nossa série de artigos sobre Residência e as especialidades médicas, a Dra. Elaine Soutinho traz as informações que você precisa sobre a Medicina do Trabalho.

1) O que é?

A medicina do trabalho, também conhecida como medicina ocupacional, pode ser definida como a especialidade médica que lida com as relações entre saúde dos trabalhadores e seu trabalho, visando não apenas a prevenção das doenças e dos acidentes de trabalho, mas a promoção de sua saúde e qualidade de vida. Mas o que isso significa? Muitos não têm a mínima noção da importância da medicina do trabalho para a vida de cada trabalhador e para a sociedade. Alguns tem a falsa ideia de que o médico do trabalho é um “médico examinador” com registro da classe. Infelizmente a importância da medicina do trabalho não é conhecida, pois a maioria das graduações médicas é precária no ensino da medicina do trabalho e a maior parte dos cursos de medicina não possui esta matéria na grade curricular obrigatória.

Em 2018, a nova ¨Norma Regulamentadora 4¨colocará a Medicina do Trabalho sob responsabilidade integral do Conselho Federal de Medicina (CFM) e suas regulamentações, e ela receberá o mesmo tratamento dado as outras especialidades médicas. Logo, só os médicos que possuírem título de especialista em Medicina do Trabalho ou residência médica em Medicina do Trabalho que poderão se autoanunciar como especialistas em Medicina do Trabalho. Anteriormente, podia se realizar qualquer pós-graduação, mesmo as não reconhecidas pela ANAMT (Associação Nacional de Medicina do Trabalho), além de não haver critérios de pontuação anual para os médicos do trabalho que fizeram apenas pós-graduação. Com essas novas regras, claramente haverá uma elevação no conhecimento e na exigência daqueles que quiserem seguir essa carreira médica, inclusive um estímulo a mais para realizar a residência médica.

2) Como é o dia a dia?

É uma especialidade muito rica e com sub divisões que torna difícil descrever uma rotina única. Por exemplo, o médico do trabalho que ingressa em uma empresa de grande porte, tem a oportunidade de desenvolver um rico trabalho, não apenas voltado em prevenção de acidentes de trabalho ou exames periódicos, mas também tem o sonho realizado de desenvolver programas de qualidade de vida e prevenção de doenças através de atividades que promovem também saúde física e mental aos trabalhadores do local. Tendo sucesso, pessoas ficarão menos doentes, ficarão mais felizes e os níveis de absenteísmo caem. Nossa, é maravilhoso ser um médico capaz de proporcionar felicidade e bem estar a um grande número de pessoas de uma só vez!

Outro lado positivo da especialidade é que se você trabalha em uma clínica que executa exames médicos obrigatórios que são admissional, periódico, retorno ao trabalho, mudança de função e demissional, posso afirmar que nos quatro primeiros a grande maioria dos pacientes faz tudo para afirmar que está saudável e não o contrário.

No último tipo de exame que é o demissional, algumas vezes podemos ter uma valorização de algum sintoma, mas é um dia a dia de trabalho mais leve que da grande maioria das outras especialidades médicas. A atuação como perito judicial também é atraente e traz retorno financeiro após solidificar o nome junto a alguns juízes que se identificarem com sua forma de trabalho. Creio que a face mais difícil para nossos colegas é quando atuam como peritos médicos da previdência social, cargo que não exige a especialização em medicina do trabalho, mas tem seu conteúdo muito cobrado no concurso e no dia a dia de sua atuação.

Esse tipo de profissional, na imensa maioria das vezes, é encarado como vilão por aplicar as estatísticas e analisar os problemas de saúde do trabalhador de forma imparcial e baseado em evidências da maioria da população. Claro que quem está do outro lado só enxerga o médico mal que lhe tira o sustento ao negar seu benefício previdenciário. Como vantagem temos a estabilidade no emprego, trabalho com horário de entrada e nunca se preocupar com chamadas de emergência no meio da noite.

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3) Oportunidades de trabalho:

Existem diversas oportunidades em áreas diferenciadas: em empresas; em conjunto com engenheiros de segurança na composição das SESMTs (Serviço Especializado em Engenharia de Segurança e Medicina do Trabalho); prestação de serviços técnicos de forma terceirizada, geralmente em clínicas de medicina do trabalho; em consultoria na normalização e fiscalização das condições de saúde e segurança no trabalho; como assessor sindical em saúde do trabalhador; em perícia médico; na docência e instituições de pesquisa; etc. Uma área que se amplia atualmente é a de consultoria privada no campo da saúde e segurança do trabalho.

4) Número de especialistas:

No momento, temos cerca de 13.343 médicos do trabalho registrados no Brasil.

5) Curiosidades:

A medicina do trabalho enquanto especialidade médica surgiu na Inglaterra na primeira metade do século XIX com a Revolução Industrial. Isso porque um proprietário de fábrica têxtil, chamado Robert Dernham, se preocupou com seus empregados que não possuíam qualquer cuidado médico e procurou o Dr. Robert Baker para auxiliar tal situação. Baker sugeriu que fosse colocado um médico no interior de sua fábrica. Ele ficaria responsável de intermediar relações entre empregador e empregados, identificar os efeitos do trabalho sobre os trabalhadores, prevenir as causas de doenças e responder por qualquer alteração da saúde que esses trabalhadores sofressem. Em 1830, o Sr. Dernham contratou o Dr. Baker para sua fábrica e fundou o primeiro serviço de medicina do trabalho.

6) Especialidades correlacionadas:

Como é uma especialidade muito singular e ampla, podemos dizer que desde a clínica médica até a medicina aeroespacial, pneumologia, etc. tem correlação, principalmente nas doenças com origem ou correlacionadas ao trabalho. Observamos que, por ter essa amplitude de atuação como já descrita, temos quase que subespecialidades dentro da medicina do trabalho, como perícia médica e judicial. Dentro das ações preventivas temos especializações, como medicina de reabilitação e fisiatria; e a ergonomia, que visa eficiência e segurança entre homem e máquina.

7) Área de atuação:

É uma especialidade com campo de atuação amplo e extrapola o âmbito da prática médica tradicional. Dependendo de onde se atua, pode ter um caráter mais tranquilo que outras especialidades. Nossa atuação pode se dar em empresas na análise de espaços do trabalho e de produção, atuando em conjunto com engenheiros de segurança na composição das SESMTs (Serviço Especializado em Engenharia de Segurança e Medicina do Trabalho), que terá a função principal de proteger a integridade física dos trabalhadores.

Também podemos atuar como prestadores de serviços técnicos de forma terceirizada, geralmente em clínicas de medicina do trabalho, e elaboração do PCMSO (Programa de Controle Médico de Saúde Ocupacional). Ainda temos a chance de atuarmos em consultoria na normalização e fiscalização das condições de saúde e segurança no trabalho pelo MT (Ministério do Trabalho).  Pode ainda atuar como assessor sindical em saúde do trabalhador, como perito médico da previdência social, junto ao sistema judiciário como perito judicial em processos trabalhistas, ações cíveis, etc. Na docência e instituições de pesquisa.

8) Mensagem para quem quer seguir essa especialidade:

A Medicina do Trabalho é uma linda especialidade que nos dá a chance de ter vários caminhos para seguir. Ela, além da capacitação técnica específica necessária para ser exercida com sucesso, precisa que o profissional tenha uma boa formação em Clínica Médica e domine com destreza Saúde Pública. Deve ser um profissional sempre atualizado nas mudanças e desenvolvimentos das relações de trabalho no contexto social, político, tecnológico, etc. Nosso principal objetivo deve ser preservar, em primeiro lugar, a saúde do trabalhador.

*Os artigos sobre as especialidades médicas foram produzidos em parceria com a Associação Nacional de Médicos Residentes

Veja as outras especialidades que já falamos por aqui!

Autora:

Elaine-Dias-Soutinho Lombalgia ligada ao trabalho: um problema de saúde pública

Referência:

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