Pediatria

Medidas de proteção contra Covid-19 podem alterar a incidência de outras doenças

Tempo de leitura: 3 min.

Desde o fim de 2019, com o início da pandemia de Covid-19, várias medidas de proteção têm sido estabelecidas com o intuito de prevenir a transmissão da doença. Na faixa etária pediátrica, o uso de máscaras faciais, suspensão de aulas presenciais, distanciamento físico e restrição de atividades foram algumas das medidas instituídas. Agora, pesquisadores estão interessados em conhecer sobre o impacto dessas medidas também na incidência de outras doenças. 

Leia também: Doença de Kawasaki: podemos avaliar o risco de aneurismas coronarianos só a partir dos marcadores inflamatórios?

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Análise recente

Um estudo publicado na revista Circulation em junho de 2021, no formato de Research Letter, trouxe dados relacionados à doença de Kawasaki na Coreia do Sul. Nesse país, a suspensão das aulas presenciais foi instituída no período de fevereiro a junho de 2020. Os pesquisadores compararam a incidência da doença de Kawasaki nesse período com a incidência média anual durante os mesmos meses desde 2010, além de realizar comparação com a incidência estimada por modelos autorregressivos.

A incidência média anual de doença de Kawasaki encontrada pelos pesquisadores foi de 48,1 por 100.000 pessoas, com uma incidência média mensal de 4,1/100.000 pessoas. Com a instituição das medidas de proteção contra a Covid-19, houve um declínio dramático na incidência da doença de Kawasaki: 18,8 por 100.000 habitantes (p = 0,0085), atingindo um platô a partir de abril de 2020. Também se observou a ausência da característica de sazonalidade observada para a doença em anos anteriores.

A queda ainda foi mais acentuada na população entre 0-4 anos de idade, o grupo com maior incidência de doença de Kawasaki: de 123 para 80 por 100.000 habitantes (p= 0,003). Não se verificou, porém, redução do índice quando analisados os dados de crianças entre 10-19 anos (o grupo menos afetado pela doença de Kawasaki). Também houve redução estatisticamente significativa entre a incidência pós medidas restritivas e a incidência estimada, mas não se observou diferença entre as taxas de incidência de doença de Kawasaki refratária. 

Conclusão

Os autores enfatizam que não se sabe ao certo o motivo pelo qual as medidas de proteção para a Covid-19 trouxeram esse benefício com relação às taxas de incidência da doença de Kawasaki. A redução de infecções que poderiam servir de gatilho para o desenvolvimento da doença, como as infecções virais respiratórias, poderia explicar parcialmente esses resultados. Porém, como o aumento ocorreu apenas nos quadros de doença de Kawasaki mais leves, não atingindo os quadros refratários, uma outra hipótese que explicaria os resultados é a redução de doenças exantemáticas que podem se assemelhar à doença de Kawasaki, como o sarampo e as infecções por adenovírus. Além disso, apesar da redução nas taxas de incidência, elas ainda são muito maiores quando comparadas aos países ocidentais, demonstrando que outros fatores, como os genéticos, apresentam grande importância no desenvolvimento da doença. 

Saiba mais: Doença de Kawasaki em crianças com Covid-19

Os resultados são bastante interessantes, e trazem questionamentos sobre se as medidas restritivas podem também gerar resultados semelhantes com outras doenças, particularmente as doenças infecciosas. Mais estudos são necessários, mas uma dúvida fica na nossa cabeça: será que as medidas restritivas vieram para ficar, mesmo após o controle da pandemia? Com certeza, serão cenas dos próximos capítulos. 

Autor(a):

Referências bibliográficas:

  • Kang JM, et al. Reduction in Kawasaki Disease After Nonpharmaceutical Interventions in the COVID-19 Era: A Nationwide Observational Study in Korea. Circulation. 2021;143:2508–2510. doi: 10.1161/CIRCULATIONAHA.121.054785
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Publicado por
Dolores Henriques

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