Página Principal > Pediatria > Micoplasma é mais comum do que se pensava em crianças com PAC grave
pneumonia aspirativa

Micoplasma é mais comum do que se pensava em crianças com PAC grave

Tempo de leitura: 4 minutos.

O Mycoplasma pneumoniae (MP) é um patógeno bacteriano comum, e é a principal causa de pneumonia adquirida na comunidade (PAC), particularmente entre crianças em idade escolar e adolescentes. De acordo com a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), responde por aproximadamente 10 a 40% das PAC e 15 a 18% das internações por PAC. PAC por MP pode ocorrer durante todo o ano, porém o MP está associado a ciclos de epidemias.

No entanto, a etiologia e a epidemiologia da PAC por MP em pacientes hospitalizados são pouco compreendidas. O MP não cresce em meios normalmente usados para culturas de bactérias. Quando cresce, não turva o meio. As colônias que formam em meio sólido não são visibilizadas ao microscópio óptico. Por não serem coradas pelo método de Gram, não são identificadas na bacterioscopia de escarro. Portanto, para o diagnóstico, exames específicos são necessários.

Entretanto, em grande parte dos serviços os testes diagnósticos sorológicos e moleculares são, muitas vezes, não padronizados e seus resultados raramente estão disponíveis em um período clinicamente relevante.

Com o objetivo de esclarecer questões em relação à etiologia e à epidemiologia da PAC por MP em crianças, Kutty et al. conduziram o Etiology of Pneumonia in the Community (EPIC), um estudo prospectivo, multicêntrico e ativo de vigilância populacional sobre a incidência e a etiologia da PAC em pacientes americanos hospitalizados.

Leia maisNovo antibiótico para pneumonia adquirida na comunidade é aprovado

Resumidamente, a coleta dos dados foi efetuada da seguinte forma: pacientes com menos de 18 anos de idade com diagnóstico clínico e radiológico de PAC foram recrutados de 1° de janeiro de 2010 a 30 de junho de 2012, em três hospitais infantis nos Estados Unidos. A inclusão no estudo exigiu a confirmação do diagnóstico radiológico de forma independente por um radiologista especializado em pediatria. A evidência radiográfica de pneumonia foi definida como a presença de consolidação, outro infiltrado ou derrame pleural.

Após consentimento informado por escrito, os pacientes e/ou cuidadores foram entrevistados, e dados clínicos e epidemiológicos foram colhidos diretamente dos prontuários. Além disso, foram colhidos swabs nasofaríngeos/orofaríngeos para MP usando reação em cadeia da polimerase em tempo real (PCR-RT). As características clínicas e epidemiológicas das crianças PCR-RT positivas e negativas para MP foram comparadas por meio de regressão logística. A suscetibilidade ao macrolídeo foi avaliada por genotipagem.

Pacientes com as seguintes condições foram excluídos: história de hospitalização recente; inclusão prévia no estudo; institucionalizados; diagnóstico alternativo de distúrbio respiratório; neonatos que nunca saíram do hospital; portadores de traqueostomia; portadores de fibrose cística; diagnóstico oncológico associado à neutropenia; histórico recente de transplante de medula óssea ou órgão sólido; doença atual do enxerto versus hospedeiro e infecção pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV) com uma contagem de CD4 <200 células/μL.

Os autores encontraram os seguintes resultados:

  • Dentre as 3.803 crianças hospitalizadas com PAC e elegíveis para o estudo, 2.638 (69%) foram incluídas; destas, 2.358 (89%) preencheram os critérios radiológicos para PAC. Das 2.358 crianças com PAC, 2.254 (96%) realizaram testes de PCR-RT para MP. Destas, 182 (8%) eram positivas para MP;
  • A mediana de idade das crianças positivas para MP foi de 7 anos. A prevalência de MP foi maior em crianças mais velhas (<5 anos: 3%; 5–9 anos, 17%; 10–17 anos, 24%);
  • As crianças positivas para MP apresentaram maior probabilidade de apresentar derrame pleural e linfadenopatia hilar, mas não consolidação, comparadas a crianças negativas para MP (todas com PAC, porém a maioria de etiologia viral);
  • 12% positivas para MP necessitaram de internação em Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica (UTIP), embora apresentassem menor propensão a leucopenia ou a necessidade de internação em UTIP comparadas a crianças negativas para MP;
  • As crianças positivas para MP apresentaram menor probabilidade de ter consolidação ou derrame pleural e menor tempo médio de permanência hospitalar (dois versus seis dias), comparadas a 36 crianças com pneumonia bacteriana negativa para MP sem coinfecção viral;
  • 28% das crianças positivas para MP tiveram coinfecção bacteriana ou viral (96% tiveram um único patógeno viral detectado). Quase metade destes pacientes tinha menos de cinco anos de idade;
  • Seis crianças positivas para MP (4%) eram resistentes a macrolídeos, e seus sintomas e desfechos foram semelhantes àqueles com MP não resistente a macrolídeos.

O estudo de Kutty et al. preenche algumas lacunas do conhecimento sobre a epidemiologia do MP em pediatria, provando que ele é um patógeno frequente em crianças hospitalizadas com PAC. O fato de que mais de um quarto das crianças MP positivas (metade delas com menos de cinco anos de idade) tiveram outros patógenos detectados (principalmente vírus) é extremamente valioso para que o MP seja considerado sempre como um possível patógeno em crianças que não seguem um curso esperado de recuperação de uma PAC.

Uma alta suspeita de PAC por MP pode influenciar as decisões de tratamento. A realização de sorologia ou de outro exame específico para o diagnóstico de MP é de difícil acesso na maior parte dos serviços hospitalares, e quando disponível, o resultado pode ser bastante demorado. Dessa forma, o conhecimento de como o MP se comporta auxilia o pediatra na escolha do antibiótico.

Isso porque, em crianças, a ausência de uma parede celular, que distingue o MP de outras bactérias patogênicas, resulta em resistência à terapia de primeira linha recomendada (beta-lactâmicos) para a PAC. Considerando esta condição, as diretrizes da Infectious Diseases Society of America e da Pediatric Infectious Diseases Society propõem que os antibióticos macrolídeos devam ser prescritos para o tratamento de crianças com “achados compatíveis com PAC causados por patógenos atípicos” como MP. A SBP recomenda que, na suspeita de pneumonia atípica, sejam prescritos azitromicina 10 mg/kg/dia dose única diária por cinco dias ou claritromicina 7,5 mg/kg/dose, de 12 em 12 horas, por 10 dias.

É médico e também quer ser colunista do Portal da PEBMED? Inscreva-se aqui!

Autor:

Referências:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.



Esse site utiliza cookies. Para saber mais sobre como usamos cookies, consulte nossa política.