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Microbiota intestinal: um novo órgão?

Tempo de leitura: 4 minutos.

Microbiota

Microbiota intestinal é, por definição, o conjunto de microrganismos (não só bactérias) que povoam o trato gastrointestinal (TGI) humano e que, em condições normais, não nos causam doenças.

E esses organismos não estão aqui à toa. Já se sabia, por exemplo, que eles ajudam na digestão de alguns alimentos (como alguns polissacarídeos que não digerimos), produzem vitaminas e protegem o TGI contra colonização por agentes agressores. O que não se sabia era que suas funções são bem mais amplas que essas. Estima-se que um adulto porte cerca de 1 a 2 Kg de microbiota em seu corpo e as funções exercidas são tantas que ela pode ser quase considerada um órgão virtual.

O surgimento da microbiota começa logo após o nascimento, predominantemente proveniente da mãe. Existem diferenças nos microrganismos portados por crianças que nascem de parto normal e as que nascem de parto cesáreo, e já é bem sabido que elas apresentam perfis imunológicos diferentes.

Por exemplo, as crianças que nascem por via cirúrgica têm um risco maior de diabetes no futuro (o que, em teoria, poderia ser reforçado por essa população microbiana diferente). Ao mesmo tempo, a microbiota também varia entre adultos e idosos, sendo claramente observada uma composição diferente entre aqueles considerados saudáveis e os que envelhecem doentes.

E quais resultados surgem dessa interação humano-microrganismo?

Obesidade e síndrome metabólica

Vários estudos com camundongos mostram que a microbiota intestinal influencia o perfil metabólico. Existe relação bem clara entre a composição da microbiota e o risco de obesidade, DM2 e síndrome metabólica como um todo.

Um exemplo interessante é o caso do transplante de fezes. Quando camundongos magros ou completamente livres de microrganismos recebiam, em seus intestinos, fezes (e, consequentemente, microbiota) de camundongos obesos, eles engordavam. Ao contrário, os obesos que recebiam transplante de camundongos magros emagreciam.

Claro que a obesidade é multifatorial, mas esse poderia ser um importante fator de risco, apesar de os mecanismos não serem bem conhecidos.

Em animais geneticamente modificados para a obesidade, observa-se uma população de bactérias do filo Firmicutes maior que a de Bacteroidetes (os dois filos predominantes da nossa microbiota). Essa mudança de padrão também foi observada na ingestão de dietas ricas em gorduras e carboidratos (simulando a dieta Ocidental), o que também resultou em obesidade.

Além disso, as bactérias intestinais têm a propriedade de produzir ácido graxos de cadeia curta (SFCA) a partir de diversos componentes da dieta.

O importante disso é que os SFCA têm função endócrina e interferem na produção de alguns hormônios e neuropeptídeos como glucagon, grelina e peptídeo YY (que, por sua vez, regulam tanto o apetite quanto o metabolismo dos nutrientes absorvidos).

Sistema imune

E não é só com intestinos e tecido adiposo que a microbiota se relaciona. Outras evidências têm sido produzidas confirmando a relação entre os microrganismos e a imunidade inata e adquirida.

Naturalmente, para não serem eliminados pelo sistema imune, os germes têm a capacidade de influenciar na formação de uma imunidade reguladora através de vários mecanismos. Um deles é a formação de células T reguladoras (linfócitos Treg) que controlam processos inflamatórios. E isso ocorre tanto localmente, no TGI, quanto a nível sistêmico.

Há várias teorias para explicar as epidemias de distúrbios imunes observadas nos países desenvolvidos (alergias e autoimunidade). Uma delas é a de que, pelo uso excessivo de antibióticos e a dieta Ocidental, estejamos alterando a microbiota humana de forma a comprometer esse processo regulador.

Leia mais: Qual é a relação entre microbiota e sistema imunológico?

Tanto que estudos mostram um padrão de “microbiota doente” em pacientes com doenças inflamatórias intestinais, artrite reumatoide e até esclerose múltipla. E não só isso. A complexa interação sistema imune-microbiota serve como um “programa de treinamento” para o sistema imune.

Em pesquisas tanto com humanos quanto modelos animais, aqueles com microbiota depletada (via uso repetido de antibióticos ou geneticamente, no caso dos animais) apresentavam respostas imunes deficientes contra agentes como S. aureus, S. pneumoniae e alguns vírus (incluindo influenza).

Transtornos psiquiátricos

As próprias bactérias intestinais podem produzir substâncias como serotonina e GABA que são absorvidas em maior ou menor proporção.

A serotonina (5-HT), por exemplo, está envolvida em várias funções orgânicas desde cerebrais a cardiovasculares e agregação plaquetária. E sua influência em transtornos neuropsiquátricos, incluindo a depressão, já é bem conhecida.

Além de produzi-la, a microbiota intestinal consegue extrair dos alimentos ou produzir seu precursor: o triptofano (que poderia, por sua vez, ser usado no sistema nervoso para produção de 5-HT). Essas e outras evidências começaram a traçar um paralelo entre a microbiota e alguns transtornos psiquiátricos, o que vem sendo muito estudado atualmente.

Outro exemplo é a interferência no eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HPA), responsável pela secreção de corticosteroides para a resposta corporal ao estresse.

Camundongos completamente livres de bactérias apresentam uma reação fisiológica desproporcional e exagerada ao estresse, da mesma forma que têm dificuldade em “desligar” essa reação uma vez que o estressor foi retirado. Após o transplante de fezes, a ativação do eixo HPA se torna normal.

A hiperativação do eixo HPA faz parte da psico e fisiopatologias de transtornos depressivos e ansiosos, sendo suspeita até como potencial causa em alguns casos.

Conclusão

O estudo da microbiota e sua relação com o corpo humano é bem promissor e está evoluindo como uma nova ferramenta (ainda em potencial) para manejo de diversas doenças crônicas. Daí a importância de passarmos a entender do assunto.

Os resultados das pesquisas ainda são muito amplos e às vezes “contraditórios” porque, dependendo da composição da microbiota estudada, os resultados podem ser completamente diferentes (e, logo, difíceis de controlar).

Além disso, como um campo que ainda está em desenvolvimento, os conhecimentos produzidos ainda são incertos e são necessárias novas pesquisas para sua consolidação. Mesmo assim, fica claro que a microbiota está mais para órgão que apenas um amontoado de bactérias.

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