Gastroenterologia

Micrometástase e células tumorais isoladas no câncer gástrico

Tempo de leitura: 3 min.

O tratamento do câncer gástrico envolve particularidades que muitas vezes surpreendem a equipe médica de maneira negativa. Um percentual significativo de pacientes com fatores de bom prognóstico apresentam recidiva da doença e evolução desfavorável.  Já é notório que a presença de metástase linfonodal na peça cirúrgica de um câncer gástrico é um fator independente de pior prognóstico, e portanto medidas adicionais normalmente são efetuadas para complementar o tratamento operatório. No entanto, existem duas entidades que o significado clínico ainda está sendo determinado: micrometástase (MM) e células tumorais isoladas (CTI).

Leia também: Câncer gástrico: qual a melhor combinação de terapia adjuvante?

O uso de técnicas de histologia usuais, não são capazes de detectar a presença de MM ou CTI, que são usualmente denominadas células tumorais ocultas (CTO). Portanto se faz necessário a imuno-histoquimica , para a detecção destas CTO, e a diferença entre MM e CTI se dá pelo tamanho, sendo que as MM são definidas como agrupamentos celulares de 0,2 mm a 2 mm, enquanto as CTI são menores que 0,2 mm.

Enquanto as MM cada vez mais são consideradas como metástases linfonodais usuais as CTI ainda não possuem uma determinação clínica. Um trabalho tipo coorte retrospectivo publicado na Annals of Surgical Oncology, reavaliou os linfonodos de pacientes submetidos a gastrectomia D2 inicialmente definidos como pN0 que possuíssem pelo menos 5 anos de observação. O objetivo foi avaliar se a presença de MM ou CTI, possuíam alguma correlação clínica com sobrevida e tempo livre de doença.

Resultados

Um total de 73 pacientes foram foram incluídos no estudo e 62% realizaram uma gastrectomia parcial. Somente 3 pacientes foram submetidos a quimioterapia adjuvante. A maioria dos pacientes (66%), apresentavam o subtipo intestinal de Lauren. A recidiva tumoral foi diagnosticada em 24 pacientes (33%), sendo 14 com recidiva locorregional, 7 com metástase à distância e 3 pacientes ambos

Dos pacientes que apresentaram recidiva 16 (67%), apresentaram CTO (p = 0,002), sendo 11 com MMs/CTI e 5 apenas com CTI. Isto também representou uma piora na sobrevida e mortalidade (p = 0,005). Ao comparar a sobrevida dos pacientes com MM (94 meses) e CTI (142 meses) há significado estatístico (p = 0,005) apesar que a análise entre CTI e pacientes sem CTO não houve diferença.

Saiba mais: Quando um câncer gástrico precoce pode ser ressecado por endoscopia?

A análise multivariada demonstrou que a idade < 60 anos, estagio T e a presença de CTI (p = 0,004) são fatores independentes para a recorrência. A presença de CTI aumenta em 11,1 vezes o risco para a recorrência [95% IC(2,16-56,65)].

Discussão

A oitava edição de classificação TNM dos tumores , já denota que os pacientes com MM devem ser classificados como N1 e não mais como pN1mi conforme previsto na edição anterior. No entanto, os pacientes com CTI devem continuar sendo classificados como N0.

Enquanto a maioria dos estudos já aceitam a atividade da MM, em relação às CTI continua o debate qual a sua relevância clínica. Alguns trabalhos que estudam outros tipos tumorais, como os melanomas, já observam uma relação entre CTI e atividade tumoral e até sugerem remover esta classificação. Em relação ao câncer gástrico, os dados na literatura são conflitantes e não permitem uma definição. 

Futuramente, e se outros trabalhos também determinarem os achados que este estudo sugere, a importância clínica das células tumorais ocultas (micrometástase ou células tumorais isoladas) serão semelhantes às macrometástases.

Para levar para casa

A pesquisa de células tumorais ocultas é importante, especialmente naqueles pacientes com tumores de pior prognóstico clínico e a análise inicial não demonstrou linfonodos positivos. Infelizmente é uma técnica que não é amplamente utilizada devido ao custo e dificuldade de realização, porém pode alterar o estadiamento do paciente e com isto melhorar a abordagem terapêutica.

Autor(a):

Referências bibliográficas:

  • Tavares A, Wen X, Maciel J, Carneiro F, Dinis-Ribeiro M. Occult Tumour Cells in Lymph Nodes from Gastric Cancer Patients: Should Isolated Tumour Cells Also Be Considered?. Ann Surg Oncol. 2020;27(11):4204-4215. doi:10.1245/s10434-020-08524-4
  • Li Y, Wang D, Li Y, Liu X, Chen D, Yuan C, Zhou Y. Clinical Significance of Lymph Node Micrometastasis in pN0 Gastric Cancer Patients. Gastroenterol Res Pract. 2021 Mar 3;2021:6854646. doi: 10.1155/2021/6854646
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Publicado por
Felipe Victer

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