Musicoterapia para sedação em crianças em terapia intensiva pediátrica

Tempo de leitura: 4 min.

Um estudo piloto realizado no Canadá e publicado no Journal of Intensive Care explorou a viabilidade da musicoterapia em crianças graves e também forneceu informações necessárias para o planejamento de um estudo maior no futuro.

O estresse induzido por dor e ansiedade é frequente em pacientes pediátricos em Unidades de Terapia Intensiva Pediátrica (UTIP) e pode impedir a prestação de cuidados, bem como a recuperação desses pacientes. Em UTIP, a sedação e a analgesia são importantes não só para o conforto, mas também para a segurança do paciente, e geralmente são obtidas por meio de intervenções farmacológicas. No entanto, o uso excessivo desses medicamentos pode colocar os pacientes em risco de instabilidade hemodinâmica/respiratória, ventilação prolongada, abstinência, delirium, tempo de permanência prolongado na unidade e aumento dos gastos hospitalares.

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A musicoterapia

Intervenções não farmacológicas, como musicoterapia, redução de ruído, promoção do sono e relaxamento, por exemplo, podem reduzir a necessidade total e os efeitos colaterais associados de sedativos e analgésicos e têm sido recomendadas por diretrizes internacionais de sedação. Todavia, nenhuma das diretrizes declara como essas intervenções devem ser realizadas. Dessa forma, o objetivo do estudo piloto MUSiCC (Music Use for Sedation in Critically ill Children) foi determinar se uma programação musical para crianças graves seria viável. Além disso, o objetivo dos pesquisadores foi coletar dados pediátricos sobre os requisitos de sedação e analgesia, que serão necessários para calcular o tamanho da amostra para um estudo maior posteriormente.

O estudo

O estudo foi conduzido nas UTIP geral e cardíaca do Stollery Children’s Hospital, em Edmonton, Alberta, e incluiu pacientes pediátricos com idades entre 1 mês e 16 anos de idade, submetidos a ventilação mecânica e em uso de sedativos. Os pacientes foram randomizados em uma proporção de 1: 1: 1 para música, cancelamento de ruído ou grupo-controle. O grupo “música” recebeu música erudita por 30 minutos, três vezes ao dia, por meio de fones de ouvido. O grupo “cancelamento de ruído” recebeu a mesma intervenção, porém sem música. O grupo-controle recebeu os cuidados habituais. As necessidades de sedação e analgesia foram capturadas como um escore de intensidade da sedação diária (Sedation Intensity Score – SIS) e como frequência de doses intermitentes necessárias.

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O SIS agrega a quantidade de sedação e analgesia de diferentes classes de medicamentos usando uma dose ajustada ao peso de cada sedativo administrado durante blocos de tempo de 4 horas. Cada quantidade de sedação para cada droga é então colocada em quartis criados usando os dados de todos os pacientes inscritos no estudo. Os valores são somados ao longo dos seis blocos de quatro horas para obter a pontuação diária: pontuações mais altas indicam maior exposição a sedativos. A frequência de sedação foi capturada pelo número diário de doses intermitentes necessárias de qualquer um dos sedativos e analgésicos administrados. 

A avaliação do estado de sedação, dor e sintomas de abstinência dos pacientes foi realizada pelo menos a cada 6 horas como parte dos cuidados de rotina de enfermagem usando as escalas SBS (State Behavioral Scale), FLACC (Face, Legs, Activity, Cry and Consolability) e WAT-1 (Withdrawal Assessment Tool-1), respectivamente. O estudo também explorou os efeitos da música no delirium em UTIP. O delirium foi avaliado duas vezes ao dia com o instrumento Cornell Assessment of Pediatric Delirium (CAPD). 

Foram incluídos 60 pacientes. A taxa média de inclusão no estudo foi de 4,8 pacientes ao mês, com uma taxa de consentimento de 69%. A adesão ao protocolo foi alcançada com pacientes que receberam mais de 80% das intervenções. A média geral diária do SIS foi de 52,4, com uma frequência média de sedação de 9,75 doses intermitentes necessárias por dia. Não houve diferença significativa na média do SIS e na frequência de sedação entre os grupos. Além disso, os escores médios de sedação, analgesia e delirium também não foram diferentes entre eles. As pontuações médias do WAT-1 foram ligeiramente maiores no grupo “música” 1,85 versus grupo-controle de 1,12 (p = 0,020), sem diferença significativa entre o grupo-controle e o grupo “cancelamento de ruído”. Houve uma diminuição pequena, mas estatisticamente significativa na frequência cardíaca no início da intervenção musical. Não houve eventos adversos relacionados ao estudo.

88% dos pais acharam que os fones de ouvido eram confortáveis e 73% descreveram seu filho mais tranquilo durante a musicoterapia.

Conclusões

O estudo tem limitações. A frequência, o tempo e a duração da intervenção musical foram escolhidos com base na evidência disponível limitada sobre o uso de música em pacientes graves (há evidências limitadas de que a música clássica com um tempo de cerca de 60 batidas por minuto e uma preferência por tons maiores pode fornecer sedação e é apropriada para todas as idades). Portanto, não se sabe se outros tipos de música ou diferentes dosagens da intervenção musical poderiam ser mais eficazes. A musicoterapia é definida como o uso clínico e baseado em evidências da música por um musicoterapeuta para obter objetivos individualizados para um determinado paciente ou grupo de pacientes.

Idealmente, cada intervenção deve ser conduzida por um musicoterapeuta que pode ajustar a intervenção com base na resposta do paciente. No entanto, os pesquisadores descreveram que a condução de um ensaio clínico usando terapia de música ao vivo e não música pré-gravada, para reduzir as necessidades de sedação em crianças em ventilação mecânica e em estado crítico seria um desafio. Por fim, não foi aplicado um protocolo específico de sedação, mas sim uma abordagem pragmática que poderia ter influenciado os resultados. 

Apesar das limitações, o estudo piloto tem sua relevância, pois explorou a viabilidade de um ensaio de intervenção de musicoterapia em crianças em UTIP e forneceu informações para se planejar um estudo mais amplo com o objetivo de determinar a eficácia da música para reduzir a necessidade de sedação e analgesia em pacientes pediátricos graves.

Autora:

Referência bibliográfica:

  • Garcia Guerra G, et al. Music Use for Sedation in Critically ill Children (MUSiCC trial): a pilot randomized controlled trial. J Intensive Care. 2021;9(1):7. Published 2021 Jan 12. doi: 10.1186/s40560-020-00523-7
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Publicado por
Roberta Esteves Vieira de Castro

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