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Night shift: um jogo virtual para aniquilar erros diagnósticos?

Tempo de leitura: 3 minutos.

O bip rítmico do monitor cardíaco compete com o apito estridente da bomba infusora ao fim da medicação. Equipos, bolsas de soro, frascos de remédios se misturam nas mãos de um enfermeiro ocupado. O espaço tomado por leitos ocupados é qualquer coisa, menos silencioso; enquanto a porta se abre e se fecha incessantemente, com o ir e vir de profissionais estressados pelo ambiente do trauma.

No processo decisório de profissionais que trabalham sob pressão ou não, com mais ou menos tempo, nas salas caóticas de emergência ou nos consultórios confortáveis é comum que se recorra às simplificações lógicas. Tal recurso funciona como se a mente humana optasse por, ao invés de percorrer o caminho mais longo até o topo de uma montanha, atingir o mesmo destino atravessando um atalho pela floresta.

Chamadas também de heurísticas, essas simplificações são bastante úteis em situações cujas condutas devem ser agilizadas, fazendo parte da formulação das hipóteses diagnósticas e das classificações de risco, na medida em que relevam informações menos importantes. O intuito desses “atalhos” nada mais é do que proporcionar uma maneira simples de lidar com a complexidade das realidades, viabilizando impressões clínicas em um intervalo de tempo menor.

Além de comuns, as heurísticas são necessárias. Por meio delas, médicos se tornam mais eficientes na tomada de decisão e podem utilizar sua experiência para fazer associações acuradas. No entanto, tais atalhos podem se tornar grandes armadilhas – “pitfalls”, segundo Vickrey e colaboradores – caso não se reconheçam as pedras em seu percurso.

No protocolo do estudo “Testing a videogame intervention to recalibrate physician heuristics in trauma triage: study protocol for a randomized controlled trial”, médicos da Universidade de Pittsburgh levaram a sério o poder das heurísticas. Diante de sua influência sobre os erros de classificação de vítimas de trauma durante a triagem, apostaram no que acreditam ser a primeira intervenção para retificação de erros das heurísticas diagnósticas médicas.

Partindo do pressuposto de que são passos automáticos e inevitáveis, a solução mais inteligente e verossímil, segundo os mesmos, não seria a exclusão das heurísticas, mas algum tipo de correção dos erros inerentes aos atalhos do pensamento. Chutar para longe essas pedras e se permitir aproveitar o atalho diante dos seus olhos seria, portanto, a escolha mais sensata, e sua intervenção trata justamente disso.

Pasme ou não, tal intervenção baseia-se em nada mais nada menos do que um jogo de aventura chamado “Night Shift”. Os jogadores do grupo teste, compostos por médicos de centros não especializados em trauma, entrarão na pele do Dr. Andy Jordan. A simulação virtual incluirá tanto aspectos de “analogical encoding” – análise e comparação de situações-problema – quanto de “narrative engagement” – catarse ou imersão narrativa.

Concomitantemente, outro grupo de médicos deverá ser submetido a um programa educativo tradicional (myATLS and Trauma Life Support MCQ Review) que abordará as mesmas questões. Segundo a hipótese do estudo, os médicos expostos ao “Night Shift” demonstrarão nas avaliações menores taxas de erros da triagem com o desempenho mantido, apesar da carga cognitiva das informações do jogo.

Dentre os três grupos básicos de heurísticas, a visada como foco da intervenção do estudo é a Heurística da Representatividade. Entretanto, vale lembrar que os três grupos, quando aplicados ao diagnóstico clínico, podem trazer em seu caminho pedras de tropeço, caso o condutor não esteja consciente dos possíveis vieses.

Ainda em estágio de recrutamento, “Night Shift” parece ser uma proposta no mínimo interessante para a educação médica. Só nos resta aguardar as próximas fases desse jogo.

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Autora:

Referências:

  • MACEDO, MAS.; OLIVEIRA, MA.; ALYRIO, DR.; ANDRADE, ROB.Heurísticas e vieses de decisão: a racionalidade limitada no processo decisório. Organizational Behavior and Human Resources Management Paper Sessions.
  • MOHAN, D.; ROSENGART, MR.; FISCHHOFF, B.; ANGUS, DC.; FARRIS, C.; YEALY, DM.; WALLACE, DJ.; BARNATO, AE.Testing a videogame interfention to recalibrate physician heuristics in trauma triage: study protocol for randomized controlled trial. BMC Emergency Medicinee. Posted online on November 11, 2016.
  • VICKREY, BG.; SAMUELS, MA.; ROPPER, AH. How neurologists think: a cognitive psychology perspective on missed diagnoses. Annals of Neurology. DOI: 10.1002/ana.21907. Posted online on April, 2010.

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