Novas evidências sobre a azitromicina na Covid-19

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Desde o início da pandemia de Covid-19, a hidroxicloroquina e a azitromicina surgiram como fortes candidatas ao tratamento da doença. Muitos estudos tiveram como objetivo avaliar a eficácia da hidroxicloroquina. Até o momento, os ensaios randomizados não encontraram evidência de benefício da hidroxicloroquina em comparação com placebo em qualquer estágio da doença para Covid-19.

E poucos avaliaram a azitromicina, mas, apesar disso, ela ainda é prescrita em larga escala. Recentemente, um ensaio clínico randomizado brasileiro foi publicado no The Lancet e nos ajudou a esclarecer o papel da azitromicina na Covid-19.

Azitromicina na Covid-19

A azitromicina é um antibiótico de amplo espectro com propriedades anti-inflamatórias e possibilidade de ter ação contra alguns vírus RNA. Demonstrou ser eficaz in vitro contra vírus como zika, rinovírus e SARS-CoV-2. Além disso, tem efeito imunomodulador e pode reduzir exacerbações em doenças crônicas das vias aéreas.

Está amplamente disponível e tem um excelente perfil de segurança. Diante de tantos pontos positivos, a droga poderia facilmente disputar como tratamento de primeira linha para pacientes com Covid-19.

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O ensaio clínico publicado no The Lancet

No The Lancet, foram publicados os primeiros resultados do estudo Coalizão II, um ensaio clínico randomizado, aberto, que comparava o uso de azitromicina, com o atendimento padrão (que na época foi estabelecido como sendo uso de hidroxicloroquina) em pacientes graves com Covid-19. Para serem incluídos, os pacientes precisariam utilizar suplementação de oxigênio em mais de 4 L/min, cânula nasal de alto fluxo ou ventilação mecânica não invasiva ou invasiva.

Foram incluídos no ensaio 447 participantes adultos (com idade > 18 anos) em vários hospitais no Brasil. O desfecho primário foi o estado clínico em 15 dias, avaliado usando uma escala ordinal de seis níveis variando de não hospitalizado a morte. Os participantes foram acompanhados por 29 dias para avaliar a mortalidade neste ponto.

Os investigadores não encontraram nenhum benefício no uso da azitromicina em resultados clínicos ou mortalidade quando comparado aos cuidados padrão e nenhuma evidência de um aumento nas reações adversas com a adição de azitromicina. Um ponto bastante positivo do Coalizão II foi o fato de ter sido randomizado, o que elimina alguns vieses de análises observacionais. Apesar de ter sido um ensaio aberto, houve uma tentativa de minimizar o viés utilizando um avaliador de resultados cego.

Vale ressaltar que a intervenção com azitromicina no Coalizão II foi administrada junto com hidroxicloroquina, que era o padrão de atendimento no Brasil na época do estudo. Dados os resultados dos ensaios de avaliação da hidroxicloroquina na Covid-19, é improvável que a hidroxicloroquina tenha qualquer efeito na progressão da doença, mas seu uso pode enviesar as estimativas em direção ao valor nulo em comparação com o tratamento com azitromicina sozinho.

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Os estudos do Coalizão

No Coalizão II, foram encontrados resultados semelhantes ao Coalizão I, que foi um estudo publicado pelo mesmo grupo, com desenho semelhante, porém em pacientes com quadros leves a moderados (pacientes internados com menos de 4 L de oxigênio ou em ar ambiente). No Coalizão I não houve diferença significativa nos resultados em pacientes que receberam hidroxicloroquina com ou sem azitromicina, e nenhuma evidência de um aumento nos eventos adversos.

Também foram publicados na última semana os resultados do Coalizão III e a metanálise em que ele foi citado. As novidades já estão aqui no Portal.

Durante os últimos meses, tive a oportunidade de trabalhar como investigadora (randomizadora) nos estudos Coalizão I, II e III, o que me fez presenciar a seriedade e dedicação de todos os envolvidos. Concluo registrando aqui minha admiração pelo grupo brasileiro que conduziu os estudos e tem contribuído para o avanço da ciência em questões tão importantes a nível mundial.

 

Mensagem prática

  • A azitromicina pode não trazer benefícios aos pacientes, uma vez que a doença tenha progredido e os pacientes necessitem de internação;
  • Como a azitromicina é atualmente a terapia ambulatorial mais comumente prescrita para Covid-19, estabelecer se a azitromicina é útil no início do curso da doença tornou-se uma prioridade em termos de pesquisa. Se a azitromicina não tiver um papel no tratamento do novo coronavírus, evitar seu uso reduziria o consumo desnecessário de antibióticos.

Autora:

Referências bibliográficas:

  • Furtado RHM, Berwanger O, Fonseca HA, et al. Azithromycin in addition to standard of care versus standard of care alone in the treatment of patients admitted to the hospital with severe COVID-19 in Brazil (COALITION II): a randomised clinical trial. Lancet 2020; published online Sept 4. https://doi.org/10.1016/S0140-6736(20)31862-6.
  • Catherine E Oldenburg, Thuy Doan. Azithromycin for severe COVID-19. The Lancet. Published Online September 4, 2020 https://doi.org/10.1016/S0140-6736(20)31863-8.
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