Hepatologia

O escore MELD sódio deve ser ajustado por sexo?

Tempo de leitura: 3 min.

O escore MELD ajustado para sódio é atualmente o escore utilizado para definir prioridade na espera por transplante hepático, levando em conta quatro parâmetros laboratoriais: bilirrubina total, creatinina, INR e sódio. Existem algumas situações especiais que são prioritárias e não entram nesse escore, utilizando outros critérios de prioridade, tais como: carcinoma hepatocelular, ascite refratária e síndrome hepatopulmonar. No entanto, sabe-se que o sexo feminino por vezes se apresenta com alguma desvantagem na priorização pelo escore MELD, pois esses pacientes tem parâmetros laboratoriais médios mais baixos que o sexo masculino. Tal fato é responsável por maiores tempo de espera em fila de transplante, mesmo quando o paciente apresenta muitas descompensações clínicas e hepatopatia avançada. Alguns grupos já tentaram ajustar o escore MELD para o sexo, contudo isso ainda não ocorre na prática clínica.

Saiba mais: Escores de doenças hepáticas nas cirurgias de hepatopatas

Recentemente, foi publicado no JAMA um estudo a fim de avaliar os parâmetros laboratoriais do escore MELD, o cálculo desse escore e a ocorrência de descompensações da doença de base, de forma a propor um ajuste por sexo.

Métodos

Estudo retrospectivo utilizando dados de prontuário de um centro de atendimento terciário em Nashville, excluindo indivíduos com carcinoma hepatocelular e/ou em terapia de substituição renal, pois podem alterar os parâmetros laboratoriais de forma significativa.

Através dos registros, identificou-se pacientes já transplantados hepáticos. Entre os não transplantados, houve uma estratificação em grupo de casos incluindo indivíduos com doença hepática determinada e o grupo de controle indivíduos sem doença hepática, independente de ter outras comorbidades. Nos indivíduos transplantados, foram selecionados a mediana e o valor máximo dos parâmetros laboratoriais pré-transplante e nos demais foram selecionados a mediana e o valor máximo dos parâmetros laboratoriais no prontuário. As diferenças do sexo nos valores dos exames laboratoriais foram avaliadas estatisticamente utilizando os testes t student.

As descompensações foram identificadas através dos seguintes CIDs: hematêmese, hemorragia gastrointestinal, ascite, icterícia e encefalopatia hepática e  medidas numa escala de ocorrência variando de 0 a 5.

Através do subgrupo de indivíduos com doença hepática não transplantados foi desenhado um escore MELD sódio ajustado por sexo. Feito o cálculo do escore MELD sódio após o diagnóstico de hepatopatia crônica e pareada a amostra por sexo e dividido em quartis, a fim de evitar viés de subestimação do escore no sexo feminino.

Através de um software de alocação simulada de fígado, foi avaliado o impacto do ajuste por sexo em comparação ao escore MELD sódio não ajustado na taxa de transplante total específica por sexo.

Resultados

Foram incluídos 623.931 indivíduos, sendo 57,7% do sexo feminino com idade entre 23 a 61 anos. Os exames laboratoriais do componente MELD Na (bilirrubina, creatinina e INR) e os escores calculados tiveram diferenças estatisticamente significativas entre os sexos:

  • Creatinina média: masculino 0,99 mg/dL; feminino0,79 mg/dL (p <0,001);
  • Bilirrubina média: masculino 0,76 mg/dL; feminino 0,58 mg/dL (p <0,001);
  • INR média: masculino 1,24; feminino 1,20 (p <0,001).

A pontuação MELDNa subestimou a gravidade em indivíduos do sexo feminino. O padrão persistiu quando a amostra foi dividida em controles saudáveis, indivíduos com doença hepática que não realizaram transplante e pacientes que realizaram transplante hepático.

Dentre os pacientes transplantados, as mulheres tiveram maior número de descompensações (média [DP]: masculino, 1,34 [1,11]; feminino, 1,60 [1,09]; P  = 0,005) apesar de escores MELD sódio mais baixos (média [DP]: masculino, 21,72 [6,11]; feminino, 20,21 [6,15]; P  = 0,005).

No subgrupo de pacientes hepatopatas não transplantados, as simulações de lista transplante, o ajuste ao sexo aumentou a taxa de transplante feminino e reduziu a mortalidade geral.

Leia também: Qual melhor escore prognóstico na hepatite alcoólica?

Mensagem prática

Apesar das limitações do estudo retrospectivo e unicêntrico, chama-se atenção à diferença dos parâmetros laboratoriais do escore MELD sódio entre homens e mulheres. O desenvolvimento de modelos ajustados por sexo é de suma importância, porém necessitam ser validados antes da implantação de seu uso nos centros de transplante.

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Publicado por
Fernanda Costa Azevedo
Tags: escore MELD

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