Clínica Médica

O paciente como um todo: entendendo o indivíduo, a família e o contexto

Tempo de leitura: 4 min.

A experiência que cada paciente tem com sua doença é única e esse entendimento, pelo médico, é fundamental para alcançar os melhores resultados possíveis em cada caso. O adoecimento, em uma perspectiva ampla, deve ser o alvo da terapêutica, conforme nos diz o primeiro componente do Método Clínico Centrado na Pessoa (MCCP), sobre o qual conversamos no texto anterior. Para além do sofrimento particular de cada um ao adoecer, no entanto, também existem outras informações importantíssimas que contribuem para o raciocínio clínico e para um bom cuidado em saúde. Entender a pessoa como um todo, em seus diversos contextos, é essencial ao realizar uma abordagem centrada na pessoa — sendo esse o segundo componente do MCCP, sobre o qual falaremos no texto desta semana.

Leia também: Whitebook: MCCP – Método clínico centrado na pessoa

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Compreendendo o todo do paciente

O paciente chega à consulta com alguns aspectos clínicos diretamente relacionados ou causados pela doença que apresenta. Contudo, também existem fatores de diversos cenários que influenciam tanto o entendimento do médico a respeito do problema de saúde, quanto na definição de uma proposta de intervenção. Esses fatores estão relacionados às muitas camadas do conceito ampliado de saúde, sob as quais o paciente se encontra. Partindo de características genéticas, do estilo de vida e de fatores de risco; passando pelo momento de vida individual e pela influência da família e do trabalho; e chegando até aspectos “macro”, como local onde vive, aspectos políticos e econômicos do país e contexto social, todas essas camadas possuem poder de influência em sua saúde. Devem, portanto, ser levadas em consideração em atendimentos médicos.

Nesse sentido, lembramos do conceito de integralidade — que não é o mesmo que integralidade como atributo da APS — que define a abordagem do paciente “como um todo”, em todos os seus aspectos, em uma perspectiva biopsicossocial. Ser integral significa levar em conta, com precisão, todas as informações biológicas e semióticas médicas do paciente, mas também valorizar a relevância de seus lados psíquico, emocional e social. O médico que acompanha longitudinalmente um paciente, ao longo de sua vida tende a adquirir esse conhecimento, que vai além da mera informação sobre respostas a doenças, e envolve um conhecimento “pessoal”. Médicos que atuam na Atenção Primária, por exemplo, costumeiramente conhecem as condições de moradia de seus pacientes, suas personalidades e reconhecem seu momento de vida (adolescência, recém-casado etc), o que facilita muito o acerto em suas condutas. 

Da mesma maneira, o reconhecimento do contexto de pandemia, como o que vivemos, e suas inevitáveis consequências nas vidas de nossos pacientes, certamente foi responsável pela adaptação de diversas condutas médicas nos últimos meses, visando o bem estar deles. A pandemia é um bom exemplo de como contextos externos influenciam na saúde das pessoas e da importância de serem levados em consideração.

Fatores mais próximos

Entretanto, não é preciso ir tão longe no escopo do conceito ampliado de saúde para verificarmos a necessidade de uma abordagem integral para nossos pacientes. Trabalho e família estão muito próximos e são duas variáveis que influenciam grandemente na saúde. Através do MCCP, o médico irá identificar, por exemplo, um paciente que sofre assédio em seu emprego, adaptando a decisão sobre a quantidade de dias que irá afastá-lo, de acordo com essa informação. Do mesmo modo, as orientações alimentares para prevenção cardiovascular dadas a um taxista serão diferentes das dadas a uma dona de casa ou a alguém com um emprego noturno, por exemplo. 

Ainda nessa perspectiva talvez o aspecto mais importante para o entendimento da pessoa como um todo seja o familiar. A família pode ser fonte de resiliência e de fragilidades. Famílias desestruturadas costumeiramente vão influenciar negativamente seus membros no enfrentamento de doenças. Ao mesmo tempo, familiares e acompanhantes podem servir diretamente como fonte de informações a respeito do paciente. Pontos de vista diferentes certamente ajudam no raciocínio diagnóstico — bem como possibilitam identificação de pontos de apoio na família para o tratamento. O segundo componente do MCCP lembra a importância da Abordagem Familiar. Isso é especialmente válido para pacientes com doenças crônicas, problemas de saúde mental e sintomas medicamente inexplicáveis

Saiba mais: Pacientes somatizadores: o que não fazer no atendimento?

Além disso, o conhecimento sobre o ciclo vital familiar e a identificação do estágio desse ciclo em que o paciente se encontra pode contribuir fortemente para o sucesso em tratamentos e acompanhamentos médicos. Existem diversas entidades clínicas que classicamente são influenciadas por esse fator. A abordagem de infecção de trato urinário, de sintomas depressivos e de cefaleias tipo enxaqueca, por exemplo, será direcionada diferentemente em pacientes sem filhos e recém-casadas, naquelas com filhos saindo de casa ou em idosas viúvas.

Portanto, o conhecimento integral do paciente contribui, também, para sucesso do médico em tratar adequadamente seus pacientes. Aplicar o Método Clínico Centrado na Pessoa inclui abordar o indivíduo, a família, o trabalho e seus contextos mais amplos, reconhecendo sua relevância e identificando a pertinência de se aprofundar em cada um deles para cada caso. Uma pessoa única, passando por uma experiência única é a maneira como o MCCP prega que enxerguemos o nosso paciente. Somando-se aos dois primeiros, o terceiro e quarto componentes, temas dos próximos textos, irão ajudar o médico a construir vínculos de confiança e a propor planos terapêuticos eficazes. Assim, espera-se não apenas conquistar uma relação humanística durante a consulta médica, como também uma maior qualidade no cuidado em saúde. Continuaremos na semana que vem, até lá!

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Autor(a):

Referências bibliográficas:

  • Stewart M, Brown JB, Weston WW, McWhinney IR, McWilliam CL, Freeman TR. Medicina centrada na pessoa: transformando o método clínico. 3ª ed. Porto Alegre: Artmed; 2017.
  • Duncan, B.B. Schmidt, M.I. Giuliani, E.R.J. Medicina Ambulatorial: Condutas de Atenção Primária Baseadas em Evidências. 3ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2013.
  • Freeman TR. Manual de medicina de família e comunidade de McWhinney. 4ª ed. Porto Alegre: Artmed; 2018.
  • Gusso G, Lopes JMC. Tratado de Medicina de Família e Comunidade. 2ª edição. Cap. 15: Consulta e abordagem centrada na pessoa. Porto Alegre: Artmed, 2019.
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Publicado por
Renato Bergallo

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