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O papel da microbiota e do ambiente na doença de Crohn

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As doenças inflamatórias intestinais (DII) são um conjunto de patologias como a Doença de Crohn (DC), a retocolite ulcerativa e a colite indeterminada. Diversos avanços no entendimento da etiologia da DC foram alcançados com o passar dos anos, sendo os principais relacionadas à interação entre a microbiota, a genética e o desenvolvimento da patologia.

A DC é uma colite segmentar, transmural e pode ocorrer em qualquer parte do trato gastrointestinal. Íleo, ceco, região perianal e cólon são as porções mais afetadas. O reto é mais acometido na retocolite ulcerativa, mas também pode ocorrer na DC. Histologicamente, há infiltração transmural de linfócitos e macrófagos. Cerca de 60% dos pacientes apresentam granuloma não caseoso.

Já a DII não é mais vista como uma doença autoimune. Isso porque, apesar de sabido que as células do tipo T cronificam a inflamação, uma terapia alvo para a migração dessas células não foi totalmente eficiente. Nos últimos anos, houve um aumento na incidência da DII, principalmente naqueles que imigraram para os países do Ocidente, o que sugere fortemente o impacto do ambiente. Isso resulta de uma complexa interação entre ambiente, microbiota e fatores do hospedeiro, como genéticos e alimentares. O real mecanismo de sua interação ainda é desconhecido.

Os fatores ambientais são considerados como gatilhos para o desenvolvimento da doença, porém os dados disponíveis são limitados. O fator melhor investigado é o tabagismo. Medicamentos, como anti-inflamatórios não esteroidais e anticoncepcionais, também são associados como gatilhos.

A microbiota intestinal vem nos últimos anos ganhando importância nas mais diversas áreas da Medicina. Uma alteração na microbiota pode influenciar na imunidade inata e adaptativa. Não seria apenas uma bactéria causadora da doença, mas sim o desequilíbrio da microbiota. Tabagismo, carência de zinco e de vitamina D, por exemplo, apresentam efeitos deletérios sobre a microbiota.

A sensibilidade genética explica apenas um terço dos casos. Cerca de 250 fatores genéticos estão associados à susceptibilidade à DII. Um exemplo disso é o NOD-2, uma proteína associada ao reconhecimento celular, principalmente em células do sistema imune inato, bem como nas intestinais. Essa proteína é importante para reconhecimento da parede de bactérias. Associado a isso, os pacientes com DII apresentam em geral metilação no DNA, que possivelmente traz prejuízo ao mecanismo de autofagia intracelular (sistema de limpeza intracelulares).

Ou seja, temos diversas novidades na questão da DC. Muito há ainda a se descobrir sobre fisiopatologia e sobre a interação entre fatores genéticos, ambientais e do hospedeiro, mas o que já podemos aplicar aos nossos pacientes são as alterações do ambiente: redução do tabagismo, alimentação com introdução de prebiótico, probióticos, fibras alimentares, minerais, vitamina C e restrição calórica. Lembrando que para um tratamento efetivo, é importante levar em consideração fatores de bem estar, para que o paciente tenha uma boa qualidade de vida. Afinal, além do tratamento da doença, a pessoa precisa ser cuidada.

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Referências:

  • CROHN’S DISEASE: A ROLE OF GUT MICROBIOTA AND NOD2 GENE POLYMORPHISMS IN DISEASE PATHOGENESIS. Lucia Hrnčířová1,2, Jan Krejsek2, Igor Šplíchal1, Tomáš Hrnčíř1. ACTA MEDICA (Hradec Králové) 2014; 57(3): 89–96. http://dx.doi.org/10.14712/18059694.2014.46
  • Allergic and immunologic perspectives of inflamatory bowel disease. Clarke, K. & Chintanaboina, J. Clinic Rev Allerg Immunol (2018). https://doi.org/10.1007/s12016-018-8690-3.
  • Inflammatory Bowel Disease and Immunonutrition: Novel Therapeutic Approaches Through Modulation of Diet and the Gut Microbiome. Celiberto et al, Immunology. 2018 Apr 25. doi: 10.1111/imm.12939.
  • New insights into the pathophysiology of inflammatory bowel disease: microbiota, epigenetics and common signalling pathways. Rogler G, et al. Swiss Med Wkly. 2018.
  • Swiss Med Wkly. 2018 Mar 22;148:w14599. doi: 10.4414/smw.2018.14599. eCollection 2018 Mar 22.

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