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O pulmão e a síndrome de down

Tempo de leitura: 3 minutos.

Embora muito se fale sobre os defeitos cardíacos congênitos e suas implicações na expectativa de vida de pessoas com síndrome de Down (SD), são os problemas respiratórios que constituem, isoladamente, a principal causa de internação hospitalar, admissão em UTI e mortalidade nessa população.

Fazem parte desse contexto, não apenas as doenças do parênquima pulmonar propriamente dito, como ainda, as alterações anatômicas e funcionais das vias aéreas, de vascularização pulmonar e a maior susceptibilidade a infecções. Em adição, os pacientes com SD, também apresentam outras peculiaridades que podem contribuir para um desfecho desfavorável por piorar a doença respiratória, como hipotonia, atraso de desenvolvimento, anomalias crânio-faciais, anomalias cardíacas, obesidade, dentre outras.

Logo, o clínico que acompanha essa população tem que ser capaz de reconhecer prontamente a doença, prevenir complicações e direcionar um melhor desfecho.

– VASCULARIZAÇÃO PULMONAR: a SD é um fator de risco para hipertensão arterial pulmonar (HAP). A HAP ocorre mais precocemente em pacientes com SD que tenham cardiopatia de hiperfluxo pulmonar do que em pacientes com o mesmo defeito mas sem SD, assim como também é mais precoce em crianças com síndrome da apneia obstrutiva do sono (AOS) ou com doença pulmonar crônica que tenham SD. A hipertensão pulmonar persistente do recém-nascido (HPPRN) é igualmente mais frequente em RNs com SD do que na população em geral. Acredita-se que anormalidades de desenvolvimento da vascularização pulmonar e influências do polimorfismo genético na produção de substâncias reguladoras de resistência vascular pulmonar sejam responsáveis por essa predisposição.

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– DOENÇA DO PARÊNQUIMA PULMONAR: a criança com SD pode apresentar tanto uma doença primária quanto secundária do parênquima pulmonar. Estudos de necrópsia evidenciaram que pessoas com SD têm aumento do tamanho dos alvéolos e diminuição de seu número. Além disso, há alterações morfológicas de face que dificultam o fluxo de ar e favorecem ao acúmulo de secreções em vias aéreas. Os cílios do epitélio respiratório têm atividade mais lenta, dificultando o clearance de muco, facilitando assim, a adesão de bactérias. Secundariamente, temos as alterações decorrentes de displasia broncopulmonar, complicações infecciosas e ainda microaspirações crônicas, que ocorrem devido à disfunção motora oral, e que podem evoluir com bronquiectasias, aumentando ainda mais a morbidade respiratória.

– ANORMALIDADES DE VIAS AÉREAS: múltiplas e diferentes anormalidades de vias aéreas já foram descritas na SD. Traqueobroncomalácia, estenose subglótica e estenose traqueal ocorrem em aproximadamente 25% das crianças com SD. A estenose subglótica ocorre mais frequentemente em crianças com SD após intubação oro-traqueal que na população em geral. Outras alterações como a presença de brônquio traqueal, ou anel traqueal completo, que são raras, têm sua frequência aumentada na trissomia do 21 (T21). Outro aspecto importante é que, crianças que tem anormalidades em vias aéreas têm tosse crônica, chiados ou respiração ruidosa, o que pode ser erroneamente diagnosticado como asma. Logo, deve-se considerar outras possibilidades frente a criança com essas sintomatologias.

– COMPROMETIMENTO IMUNOLÓGICO: Além do risco aumentado de infecções respiratórias, o indivíduo com T21 tem maior probabilidade de ter um curso grave de doença, evoluindo para admissão em UTI e por vezes óbito. SD é um fator de risco isolado para bronquiolite grave por vírus sincicial respiratório (VSR). E a pneumonia bacteriana é a principal causa de hospitalização nessa população. Alguns defeitos imunológicos já têm sido descritos, como a deficiência de subclasses de IgG, prejuízo da maturação de linfócitos T, diminuição da adesividade de neutrófilos, dentre outros.

Concluindo, indivíduos com T21 são predispostos a várias complicações de origem no trato respiratório, o que requer atenção clínica diferenciada devido à possibilidade de internação e desfecho desfavorável.

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Autora:

Referências:

  • Mc Dowell, Karen; Crave, Daniel. PULMONARY COMPLICATIONS OF DOWN SYNDROME DURING CHILDHOOD. The Journal of Pediatrics, 2011. Vol158-2:319-25.
  • Nisihara, Renato M.; Wandresen, Gustavo. ASPECTOS IMUNOLÓGICOS DA SÍNDROME DE DOWN. In: Biotecnologia do desenvolvimento na síndrome de Down, práticas em saúde e educação baseadas em evidências, 2017, 183-198. Ed. Ithala.
  • Mustacchi, Zan; Salmona, Patrícia; Mustacchi, Roberta. TRISSOMIA 21 (SÍNDROME DE DOWN), NUTRIÇÃO, EDUCAÇÃO E SAÚDE, 2017. Ed. Memnon.

2 Comentários

  1. Midori Piragibe

    Agradeço o envio e lhe pergunto:
    -Seria recomendável o recém nato dormir na cama com os pais?
    -Seria recomendável o RN dormir só, no seu berço, no próprio quarto e, ser monitorado através da babá eletrônica (pensando na apneia do sono)?
    Seria recomendável dormir no quarto dos pais em berço separado, até qual idade?
    Desculpe tantas perguntas…

    • Rita Gonçalves

      Olá boa tarde! Tenho recomendado que menores de 3 meses durmam no quarto dos pais mas não na mesma cama, que sejam colocados em berço ao lado da cama. Com isso, além de diminuir o desconforto da mãe que amamenta na madrugada, ainda facilita a vigilância durante a noite.

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