Neurologia

O que sabemos até agora sobre as manifestações neurológicas da Covid-19?

Tempo de leitura: 2 min.

Dados até setembro de 2020, a síndrome respiratória aguda grave causada pelo coronavírus tipo 2 (SARS-CoV-2) levou a mais de 26,5 milhões de infecções confirmadas e 875.000 mortes por coronavírus-2019 (Covid-19) em todo o mundo.

A maioria das infecções causadas pelo novo coronavírus, o SARS-CoV-2, se manifesta com infecções do trato respiratório superior e sintomas semelhantes aos da gripe de gravidade variável. No entanto, a Covid-19 é capaz de causar uma doença de múltiplos órgãos, com envolvimento do sistema nervoso central e periférico em alguns pacientes. Não há dados confiáveis sobre a frequência dessas manifestações neurológicas e os fatores de risco associados.

Tome as melhores decisões clinicas, atualize-se. Cadastre-se e acesse gratuitamente conteúdo de medicina escrito e revisado por especialistas
Cadastrar Login

Manifestações neurológicas na Covid-19

Liotta E.M e col. (2020), procuraram caracterizar as manifestações neurológicas e seus fatores de risco em pacientes hospitalizados com Covid ‐ 19. Examinaram os sinais/sintomas neurológicos em 509 pacientes com Covid-19 confirmado, admitidos em uma rede de hospitais em Chicago, e compararam a gravidade em pacientes com e sem alterações no exame neurológico.

As manifestações neurológicas estavam presentes na admissão em 215 (42,2%) pacientes, na hospitalização em 319 (62,7%) pacientes e em qualquer momento durante o curso da doença em 419 pacientes (82,3%).

As manifestações neurológicas mais frequentes foram:

  • Mialgias (44,8%);
  • Cefaleia (37,7%);
  • Encefalopatia (31,8%);
  • Tontura (29,7%);
  • Disgeusia (15,9%);
  • Anosmia (11,4%).

Acidente vascular, distúrbios do movimento, déficits motores e sensitivos, ataxia e convulsões eram incomuns (0,2 a 1,4% dos pacientes cada).

Fatores de risco independentes para desenvolver qualquer manifestação neurológica foram para Covid-19 grave (OR 4,02; IC 95% 2,04–8,89; P <0,001) e idade mais jovem (OR 0,982; IC 95% 0,968–0,996; P = 0,014).

Leia também: Primeiro caso de fístula após teste para Covid-19 por swab nasal

Encefalopatia

Neste estudo de Liotta e col. de todos os pacientes, 362 (71,1%) tiveram um resultado funcional favorável na alta (escala de Rankin modificada de 0–2), no entanto, eles identificaram que a encefalopatia foi fator de risco independente associado a pior resultado funcional (OR 0,22; IC 95% 0,11–0,42; P <0,001) e maior mortalidade em 30 dias de hospitalização (35 [21,7%] vs. 11 [3,2%] pacientes; P < 0,001).

Não muito diferente da literatura, a encefalopatia foi mais frequente em pacientes mais velhos e os fatores de risco para encefalopatia também incluíram doença grave pelo coronavírus e histórico de qualquer distúrbio neurológico ou doença renal crônica.

O aumento da morbidade e mortalidade associada à encefalopatia, independente da gravidade respiratória, é semelhante à literatura, em encefalopatia associada à sepse e mortalidade associada ao delirium. Liotto E.M e col. enfatizaram a relevância da encefalopatia em Covid-19 e identificaram que ela estava associada ao triplo do tempo de internação hospitalar.

Os pacientes hospitalizados com Covid-19 podem apresentar vários distúrbios tóxicos – metabólicos, incluindo tempestade de citocinas, inflamação grave, sepse e disfunção renal.

A doença na sua forma grave é caracterizada por aumento de IL-2, IL-6, IL-7, fator de necrose α, entre outras. A tempestade de citocinas provavelmente contribui significativamente para a encefalopatia tóxica-metabólica nestes casos, juntamente com fatores de risco tradicionais associados a delirium e encefalopatia em unidades de terapia intensiva que também precisam ser levados em consideração, incluindo sedação, analgesia, interrupção dos ciclos de sono/vigília e complicações infecciosas.

A etiologia da encefalopatia em pacientes com Covid ‐ 19 é multifatorial, incluindo doença sistêmica e inflamação, coagulopatia, neuroinvasão direta pelo vírus, endotelite e, possivelmente, mecanismos autoimunes pós-infecciosos, pode resultar de múltiplos ou combinações de mecanismos ainda não muito esclarecido.

Autor:

Referência bibliográfica:

  • Liotta, E. M., Batra, A., Clark, J. R., Shlobin, N. A., Hoffman, S. C., Orban, Z. S., & Koralnik, I. J. (2020). Frequent neurologic manifestations and encephalopathy‐associated morbidity in Covid‐19 patients. Annals of Clinical and Translational Neurology. doi:10.1002/acn3.51210
Compartilhar
Publicado por
Felipe Resende Nobrega

Posts recentes

Como a alimentação pode influenciar no sistema imune infantil?

O Jornal de Gastroenterologia e Nutrição Pediátrica abordou qual seria o papel da alimentação no…

9 horas atrás

Síndrome do refluxo faringolaríngeo: panorama clínico [podcast]

Neste podcast, o Dr. Gabriel Caetani falará sobre a síndrome do refluxo faringolaríngeo. Saiba mais…

9 horas atrás

Check-up Semanal: vacina da Pfizer no paciente com DRC, mnemônicos úteis no plantão e mais! [podcast

Check-up Semanal: confira as últimas notícias sobre vacina da Pfizer em pacientes com DRC, mnemônicos…

10 horas atrás

É possível tratar endocardite infecciosa esquerda com antimicrobianos orais?

Endocardite infecciosa é uma doença que pode envolver tanto a estrutura natural do coração, quanto…

11 horas atrás

Ministério da Saúde aprova dose de reforço para profissionais de saúde

Ministério da Saúde anunciou a dose de reforço contra Covid-19 para profissionais de saúde. A…

12 horas atrás

A sustentação de carga ou mobilidade precoce após fraturas de tornozelo aumentam a chance de complicações?

As fraturas de tornozelo são lesões ortopédicas comuns, sendo tratadas, quando há indicação cirúrgica, com…

13 horas atrás