Oftalmologia

O tacrolimus é efetivo na conjuntivite alérgica?

Tempo de leitura: 3 min.

As alergias oculares podem ser de vários tipos de acordo com a presença de alterações proliferativas, dermatite atópica e a presença ou ausência de irritação mecânica. São classificadas em conjuntivite alérgica sazonal, conjuntivite alérgica perene, ceratoconjuntivite atópica, ceratoconjuntivite vernal e conjuntivite papilar gigante. A vernal e a atópica são tipos graves de alergia que podem causar ceratopatias como úlceras em escudo por exemplo, levando a morbidade visual em alguns casos.

A conjuntivite alérgica crônica pode contribuir para o desenvolvimento dos quadros mais graves, caracterizados por infiltração mucosa de eosinófilos, neutrófilos, basófilos, mastócitos e linfócitos T. A fibrose subepitelial da conjuntiva, o encurtamento do fórnice e o simbléfaro podem ocorrer em casos mais graves.

Como são tratadas?

No tratamento das ceratoconjuntivites vernais e atópicas, os antihistamínicos, estabilizadores de mastócitos, antiinflamatórios não esteroidais, ciclosporina e corticóides são comumente utilizados. Alguns pacientes são refratários a essas medicações. Esteróides sistêmicos também são necessários em alguns casos mas o uso prolongado pode ter efeitos colaterais como catarata, infecções, aumento da pressão intraocular, glaucoma, atrofia da pele palpebral e despigmentação. Para superar essas questões algumas alternativas terapêuticas são necessárias.

E o tacrolimus?

Recentemente, o tacrolimus 0.1% oftálmico tem sido utilizado para esse tratamento. Nos estudos prévios, o tempo de observação foi de menos de 1 ano e foram incluídos casos leves sem envolvimento corneano. Um estudo publicado na Allergy Asthma Clin Immunol esse ano investigou os efeitos terapêuticos do tacrolimus tópico na ceratoconjuntivite vernal grave (com envolvimento corneano) durante 1 ano. O estudo avaliou eficácia e segurança do uso a longo prazo. O estudo foi retrospectivo e foram estudados pacientes diagnosticados com ceratoconjuntivite atópica ou vernal e que haviam sido tratadas com tacrolimus colírio no departamento de oftalmologia entre abril de 2004 e abril de 2014. No total apenas 24 olhos de 12 pacientes foram de fato estudados de acordo com os critérios de inclusão.

O uso do tacrolimus 0,1% suspensão oftalmica é feito 2-4 x ao dia e ele foi utilizado sozinho ou em combinação com antihistamínicos tópicos, estabilizadores de mastócitos e esteróides. O uso de AINES e ciclosporina tópica foi descontinuado. De todos os pacientes 83% havia utilizado antialérgicos tópicos anteriormente, 95% esteróides tópicos, 16% AINES tópicos, 41% ciclosporina tópica, 8% pomada de tacrolimus e 8% corticóides sistêmicos. A gravidade dos sinais e a pressão intraocular foram avaliados no baseline (antes do tratamento) e depois de 2 semanas e 1,2,3,6 e 12 meses e a cada ano completo após. A média de uso do tacrolimus foi de 8.4±2.9 anos.

Saiba mais: O uso de antibioticoterapia tópica é eficaz para o tratamento de conjuntivite bacteriana?

Os 10 sinais foram avaliados usando uma graduação de 0 a 3+ (0=normal; 1 + = leve; 2 + = moderada; 3 + = grave). Foram avaliados a conjuntiva palpebral (hiperemia, edema, folículos, papilas e papilas gigantes), conjuntiva bulbar (hiperemia e quemose), limbo (nódulo de trantas e edema) e desordens do epitélio da córnea. No estudo, 3 casos pioraram ao longo do tempo independente da terapia combinada. Eram pacientes jovens, sendo possível que não tenham tido uma boa adesão ao tratamento ou que a piora clínica possa ter relação com as atividades esportivas ou exposição a antígenos. Em outro paciente com 31 anos com ceratoconjuntivite atópica, os achados oculares pioraram quando a dermatite atópica piorou. A média de uso do tacrolimus no grupo com vernal foi 6.4±0.7 anos.

O período acima de 7 anos reflete somente os casos de atópica mas ambos os grupos teve melhora significativa e permaneceu estável ao longo do tempo. Apenas um paciente teve infecção ocular. O risco de infecção e aumento da pressão intraocular é maior nos casos de terapia combinada com corticóides. A impressão é de que a pressão não tem uma tendência de aumento por causa do tacrolimus e sim por causa do corticóide.

Leia também: No dia a dia da Emergência, como diferenciar as conjuntivites?

Conclusões

O artigo envolve um estudo retrospectivo, com poucos pacientes, mas conclui que o tacrolimus 0.1% é efetivo na melhora a longo prazo de sinais clínicos de ceratoconjuntivite vernal e atópica graves refratários aos tratamentos convencionais. Quando a condição melhora o número de gotas por dia pode ser gradualmente diminuída.

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Juliana Rosa

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