O tipo de fio cirúrgico pode influenciar a taxa de infecção de sítio cirúrgico?

Tempo de leitura: 3 min.

A infecção de sítio cirúrgico é uma das complicações mais frequentes na cirurgia, e em especial nos procedimentos de urgência. Infecções da ferida operatória, leva a um maior índice de eviscerações, aumento do tempo de internação hospitalar e em unidade fechada, e em última análise a complicação global do paciente.

A relação do material de síntese e a infecção do sítio cirúrgico, está relacionada ao fato da bactéria poder aderir ao material do fio. Os fios multifilamentares são mais propícios a infecção do sítio cirúrgico por possuírem uma maior área de aderência.

Alguns estudos também já demostraram que ao incluir triclosan (agente antisséptico) na composição do fio, há uma diminuição da taxa de infecção de sítio cirúrgico.

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Fio cirúrgico e infecção

Um estudo multicêntrico randomizado avaliou pacientes submetidos a cirurgia de urgência com acometimento infeccioso intra-abdominal por perfuração intestinal ou isquemia necessitando ressecção, em cirurgias realizadas com acesso pela linha média. Os pacientes foram randomizados em três grupos:

  1. Polidioxanona farpada com triclosan calibre 1 (Stratafix Symmetric, J&J ®);
  2. Polidioxanona laçado com triclosan calibre 1 (PDS plus, J&J ®);
  3. Polidioxanona laçado calibre 1 – grupo controle (PDS, J&J ®).

Todos os pacientes tiveram o subcutâneo lavado e não suturado e pele fechada com grampeador.

Veja também: Prevenção de infecção e uso racional de antibióticos [e-book]

A definição de infecção de sitio cirúrgico seguiram as recomendações do CDC (a presença de qualquer um destes: pus, cultura, dor, rubor, edema), e evisceração definida como qualquer solução de continuidade da fáscia suturada. A avaliação da ferida foi realizada durante a internação e 30 dias após por uma equipe que não sabia qual tipo de fio foi utilizado.

Resultados

Um total de 150 pacientes, 50 alocados em cada grupo, sem diferenças epidemiológicas ou cirúrgica entre os grupos. Após exclusões por necessidade de reoperações o grupo 1 permaneceu com 47 pacientes, grupo 2: 45 pacientes e grupo 3: 47 pacientes.  Para fim de análise os grupos foram pareados e com isto o  uso de triclosan comparados com o grupo 3 houve diminuição do índice de infecção de sítio cirúrgico (P=0,009), e o uso de sutura farpada (grupo 1) um menor risco de evisceração quando comparado aos grupos 2 e 3 (P=0,019). Quando comparados, os grupos 1 e 2 não apresentaram diferença de infecção de sítio cirúrgico, porém um risco aumentado de evisceração para o grupo 2 (P=0,036).

Veja também: Coronavírus: precauções do time cirúrgico durante a pandemia

Discussão

O uso de fios que contenham tricolan se mostrou benéfico para evitar infecção da ferida operatória, enquanto o fio farpado gerou um melhor resultado quanto as eviscerações, por distribuir melhor as forças ao longo da ferida. O triclosan é o agente mais usualmente utilizado em diferentes tipos de fios cirúrgico. Ele diminui a chance de um microrganismo aderir ao material de fio e consequente gerar uma infecção por formação de um biofilme. Estes mesmo resultados também foram encontrados em outros estudos semelhantes.

O custo adicional destes fios contendo agente antimicrobiano, pode ser justificado com uma menor taxa de infecções e consequentes menores custos de internação. A forma de ação rápida, direta e em múltiplos sítios dos agentes antissépticos, diferente dos antibióticos, torna o risco de seleção e resistência baixo.

Mais do autor: Hérnia de portal pós-cirurgia bariátrica: uma complicação negligenciada

Conclusão

O uso de fios farpados e acrescidos de agente antissépticos em cirurgias de urgência abdominal pode reduzir a taxa de infecção e evisceração.

A escolha dos fios cirúrgicos varia bastante de acordo com a preferência do cirurgião. Infelizmente, em algumas situações utiliza-se o fio que está disponível, mesmo que não seja o apropriado para o momento. Porém, a cada dia temos mais escopo na literatura para basear nossas escolhas em dados estatísticos do que na experiência pessoal.

Autor(a):

Referências bibliográficas:

  • Ruiz-Tovar J, et al. Incisional Surgical Site Infection after Abdominal Fascial Closure with Triclosan-Coated Barbed Suture vs Triclosan-Coated Polydioxanone Loop Suture vs Polydioxanone Loop Suture in Emergent Abdominal Surgery: A Randomized Clinical Trial. Journal of the American College of Surgeons. https://doi.org/10.1016/j.jamcollsurg.2020.02.031
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Publicado por
Felipe Victer

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