Cirurgia

O treinamento mental me ajuda a ser um melhor cirurgião? 

Tempo de leitura: 3 min.

O desenvolvimento de habilidades manuais e cognitivas para execução de cirurgias requer treinamentos cada vez mais efetivos, principalmente em meio ao atual desenvolvimento de novas técnicas como a laparoscopia e robótica. Em contraposição a essa demanda, o contexto global da pandemia por Covid-19 afetou diretamente as residências cirúrgicas, visto que reduziu a demanda de operações eletivas e, consequentemente, as oportunidades de exposição a procedimentos nos programas de formação médica. 

Leia também: Como comportamento do cirurgião afeta seus resultados

Nesse contexto, tem-se criado um cenário aparentemente paradoxal: o residente de cirurgia precisa desenvolver habilidade manual e cognitiva sem necessariamente passar pelo treinamento físico no bloco. 

Foi pensando em métodos alternativos de aprendizado que supram essa necessidade que o treinamento mental, já extensamente aplicado em esportes de alta performance, começou a ser utilizado na formação médica. Esse método consiste na repetição cognitiva de determinado procedimento sem execução de movimentos físicos, sendo composto pelos seguintes passos: identificação de etapas principais, subvocalização, imaginação do procedimento e exercícios de relaxamento. 

Análise do método

Para avaliar a efetividade desse método em habilidades videolaparoscópicas, principalmente a longo prazo, um estudo alemão foi conduzido com 24 acadêmicos de medicina sem treinamento prévio. Os participantes foram distribuídos em três grupos: (1) Controle (GC, submetidos apenas ao treinamento básico laparoscópico), (2) Grupo Vídeo (GV, além do treinamento básico assistiram a execução do procedimento por vídeo), (3) Grupo Treinamento Mental (TM, além das capacitações anteriores realizaram 60 minutos de treinamento mental). A formação básica consistiu na execução dos exercícios transferência de pinos (PT) e corte de círculo (CC), ambos parte do E-BLUS (The European training in basic laparoscopic urological skills). 

Saiba mais: Cirurgião que faz pausas tem melhor desempenho?

Após 2 dias, 14 dias e 16 semanas da capacitação inicial os participantes foram submetidos a avaliações manuais (checklist do E-BLUS e Global Rating Scale, uma escala estruturada para avaliar habilidades práticas) e teóricas (roteiro teórico do E-BLUS e Test of Performance Strategies, para avaliar performance cognitiva), além de serem contabilizados os tempos de execução dos procedimentos. O grupo TM obteve resultados significativamente melhores nas avaliações manuais (Global Rating Scale) até 16 meses após o treinamento, além de terem realizado o procedimento CC em menos tempo. O treinamento mental também melhorou o desempenho cognitivo, com melhores escores a longo prazo no Test of Performance Strategies. 

Em resumo, o treinamento mental se mostrou uma ferramenta em potencial para desenvolvimento de habilidades manuais e cognitivas em cirurgia. 

O que levar para casa 

Considerando que operar requer equilíbrio entre conhecimento teórico, destreza manual, percepção espacial e autoconfiança, é fundamental que o médico em formação tenha meios de otimizar sua curva de aprendizado indo além do tradicional treinamento em centro cirúrgico. Pensar fora da caixa, com inovação e criatividade, inclusive na hora de aprender, é um dos requisitos essenciais a um bom cirurgião. 

Autor(a):

Referências bibliográficas:

  • Kaulfuss J, Kluth L, Marks P, Grange P, Fisch M, Chun F, Meyer C. Long-Term Effects of Mental Training on Manual and Cognitive Skills in Surgical Education A Prospective Study. Journal of Surgical Education. 2021;78(4):1216-1226. doi10.1016/j.jsurg.2020.11.005
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Publicado por
Nathália Ribeiro Pinho de Sousa
Tags: treinamento

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