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paciente infartando recebendo atendimento médico

O vírus da influenza agora também causa infarto?

Tempo de leitura: 4 minutos.

A hipótese de que as infecções de vias respiratórias, em especial a influenza, podem desencadear eventos cardiovasculares agudos já é bem documentada desde a década de 1930, quando apareceram os primeiros estudos associando a atividade sazonal da gripe e a mortalidade cardiovascular. No entanto, um estudo muito mais robusto, canadense, publicado no início desse ano no New England Journal of Medicine, veio para endossar essa hipótese¹.

O estudo foi realizado com residentes de Ontário que, com 35 anos de idade ou mais, tivessem se submetido a exames para vírus respiratórios diversos entre maio de 2009 e maio de 2014, e que também tivessem sido hospitalizados por um infarto agudo do miocárdio (IAM) entre maio de 2008 e maio de 2015.

Foram admitidos na pesquisa apenas casos investigados com testes diagnósticos de alta especificidade para confirmar a infecção da gripe e apenas em espécimes respiratórios, enquanto a busca pelas hospitalizações por IAM foi feita a partir da coleta de dados administrativos.

Para interpretar os resultados desse estudo, é importante compreender seu método. Trata-se de uma “série de casos auto-controlados”, um desenho desenvolvido para investigar a associação entre uma exposição transitória (aqui, a infecção por influenza) e um desfecho (aqui, o IAM). Utilizam-se apenas casos, observe que todos os participantes da pesquisa em algum momento sofreram o desfecho IAM.

Cada caso é analisado sob um período definido como “intervalo de risco” (nesse estudo, o período foi definido como sete dias após exposição à infecção por influenza, aqui colocado como o dia da coleta; pois a data em que a amostra foi coletada é uma aproximação razoável para a data da infecção) e cada caso é também analisado sob um período estabelecido como “intervalo de controle” (que é todo o período estudado fora o período de risco, aqui é um ano antes e um ano após o intervalo de risco).

Em seguida, calcula-se uma incidência relativa, ou seja, a incidência no “intervalo de risco” RELATIVA à incidência no “intervalo de controle”. Nesse estudo, foram estimadas as taxas de incidência para hospitalizações por IAM durante o “intervalo de risco” em comparação com a incidência no “intervalo de controle”1, 2, 3.

Mais da autora: ‘Febre do Oropouche – porque e o que você precisa saber’

Para ficar mais claro, segue o modelo (clique para ampliar):

influenza
Adaptado de: New England Journal of Medicine, 378(4), 345-353

Os autores encontraram 364 internações por IAM que tiveram pesquisas de vírus respiratórios, sendo 20 internações durante o “intervalo de risco” (note 20 por semana) e 344 durante o “intervalo de controle” (observe que são 3,3 admissões por semana) Do cálculo estatístico da incidência relativa, encontrou-se um significativo índice de incidência de 6,05 (IC 3.86 a 9.50).

Além dessa investigação principal, foram realizadas análises em subgrupos de idade (≤ 65 anos vs. > 65 anos), sexo, tipo de influenza (A [todos subtipos] vs. B), subtipo de influenza A (H1N1 vs. H3N2), estado de vacinação da gripe, histórico de hospitalização por IAM antes do período de estudo (sim versus não) e método de teste laboratorial (PCR vs. métodos não-PCR).

O que foi descoberto?

De mais relevante, os autores concluem que há uma associação significativa entre infecções respiratórias agudas, particularmente influenza, e infarto agudo do miocárdio. Embora, como a maioria dos pacientes com sintomas mais leves não são testados para vírus respiratórios, esses achados não podem ser aplicados para infecções mais leves. As descobertas são consistentes com as de estudos anteriores.

Como a gripe pode levar ao infarto (fisiopatologia)?

Como os autores discutem, no contexto da doença vascular aterosclerótica crônica, uma doença infecciosa como a gripe pode causar uma síndrome coronária aguda através de inflamação aguda, estresse biomecânico e vasoconstrição. Além disso, hipoxemia, hipotensão e outras causas de hipotensão podem favorecer o desenvolvimento de trombos e consequentemente uma síndrome coronariana aguda.

O que podemos fazer com essa descoberta?

O estudo coloca a importância em se atuar principalmente na parte da prevenção e propõe uma mudança prática na cobertura de vacinação para gripe em pacientes com alto risco de infarto agudo do miocárdio. Afinal, eventos cardiovasculares desencadeados pela gripe também são potencialmente evitáveis ​​pela vacinação¹.

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Autora:

 

Referências:

  1. Kwong, J. C., Schwartz, K. L., Campitelli, M. A., Chung, H., Crowcroft, N. S., Karnauchow, T., … & Richardson, D. C. (2018). Acute myocardial infarction after laboratory-confirmed influenza infection. New England Journal of Medicine, 378(4), 345-353.
  2. Hulley, S. B., Cummings, S. R., Browner, W. S., Grady, D. G., & Newman, T. B. (2015). Delineando a pesquisa clínica-4. Artmed Editora.
  3. Petersen, I., Douglas, I., & Whitaker, H. (2016). Self controlled case series methods: an alternative to standard epidemiological study designs. bmj, 354, i4515.

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