Neurologia

Palpação convencional x ultrassom para procedimentos neuroaxiais

Tempo de leitura: 3 min.

Procedimentos neuroaxiais, como punção lombar diagnóstica, anestesia raquidiana, peridural ou combinada, são realizados através da palpação de pontos de referência anatômicos. Tais procedimentos podem ser desafiadores, principalmente se a anatomia neuroaxial estiver alterada por fatores como envelhecimento, obesidade, cirurgia prévia de coluna ou deformidades da coluna vertebral.

O uso de ultrassom antes do procedimento pode identificar o nível intervertebral, a localização da linha média, o ponto correto e o ângulo de inserção da agulha e a profundidade do espaço peridural, fornecendo informações valiosas ao anestesista, facilitando a realização da técnica e diminuindo chances de complicações.

Leia também: IM/ACP 2021: atualizações práticas sobre o ultrassom point-of-care (POCUS)

Revisões sistemáticas anteriores comparando o método de palpação com a ultrassonografia pré-procedimento (USGPP) incluíram um número significativo de pacientes obstétricas e em vista das alterações anatômicas e fisiológicas específicas desta população, pode ser que os benefícios encontrados da UPP possam ser diferentes quando analisados apenas em um grupo não-obstétrico. 

Para solucionar esse problema, foi realizada uma nova revisão sistemática e metanálise comparando a eficácia, eficiência e segurança do método de palpação com o uso do USG pré-procedimento. Foram incluídos 18 ensaios controlados e randomizados com 1800 pacientes no total, sendo 880 com método palpatório e 920 com USGPP. As indicações variaram desde punção lombar diagnóstica, injeção de corticoide, até anestesia (sendo em sua maioria a raquianestesia). Todos os operadores do ultrassom tinham experiência com o uso. 

Foram avaliados como desfecho primário a taxa de sucesso na primeira punção e o tempo total combinado necessário para a identificação do ponto de inserção da agulha e a realização do procedimento. Os desfechos secundários incluíram medidas de eficácia (fatores associados à performance da técnica, como menor número de punções e redirecionamentos da agulha), eficiência (tempo somente para a realização do procedimento) e segurança (falha de bloqueio, incidência de dor radicular, sangramento, punção da dura-máter, cefaleia pós-punção, déficits neurológicos pós-procedimento).

Resultados e discussão

Apesar do uso do USGPP diminuir o número de punções e redirecionamentos da agulha, não demonstrou diferença no que tange ao número de punções realizadas com sucesso na primeira tentativa. Além disso, a hipótese de que o USGPP traria benefício naqueles pacientes cujo procedimento era previsto como difícil também não foi corroborado pela análise de subgrupo.

Comparado com o método palpatório, o uso do USGPP aumentou o tempo total às custas da identificação do ponto de inserção da agulha, porém em menos de 2 minutos, o que é insignificante clinicamente.

Saiba mais: Punção lombar: como evitar riscos de eventuais hemorragias

Em relação à segurança, não houve diferenças quanto a incidência de eventos adversos e complicações, exceto pelo menor sangramento quando utilizado o USGPP.

Conclusão

Em comparação com o método de palpação de referência, o uso de ultrassom pré-procedimento para procedimentos neuroaxiais na população adulta não obstétrica não melhorou os desfechos primários (taxa de sucesso de punção realizada na primeira tentativa e tempo total para identificação do sítio de punção e realização do procedimento). Entretanto, o estudo corroborou resultados de revisões anteriores que demonstraram melhoria na maioria dos outros marcadores de eficácia.

Autor(a):

Referências bibliográficas:

  • Onwochei D, Nair G, Young B, Desai N. Conventional landmark palpation versus preprocedural ultrasound for neuraxial procedures in nonobstetric patients, European Journal of Anaesthesiology. 2021 Aug;38:S73-S86. doi: 10.1097/EJA.0000000000001525.
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Publicado por
Bruno Vilaça

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