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Parada cardiorrespiratória no intra-operatório, como o anestesiologista deve agir?

Tempo de leitura: 4 minutos.

Em 16 de outubro de 1846, Morton demonstrou publicamente, no Massachusetts General Hospital, a extração de um tumor na região cervical do paciente Gilbert Abbott sob um conceito novo na época, que se chamou posteriormente de “anestesia” com vapor de éter sulfúrico. Apesar de não ser uma prática inédita, o uso de compostos químicos para melhorar a tolerabilidade dos procedimentos cirúrgicos passou a ganhar maior notoriedade e, consequentemente, o avanço científico nessa nova área possibilitou também o crescimento das áreas cirúrgicas da medicina, uma vez que o conforto e a segurança dos pacientes aumentavam as pesquisas relacionadas, propiciando também acesso a pacientes com patologias de base mais graves.

No entanto, todo tipo de composto quando administrado em um indivíduo pode produzir, assim como sua ação principal, eventos adversos que podem variar de desconforto e “tonteira” à parada cardio-ventilatória. Em um contexto em que junto com a disseminação da informação de que era possível ser operado “sem sentir o corte”, também se criou uma imagem de medo da anestesia em decorrência de episódios em que os eventos adversos graves relacionados ao procedimento acontecem. Nesse contexto, como reagir quando as intercorrências acontecem?

A mortalidade perioperatória vem diminuindo nos últimos 50 anos, apesar do envelhecimento populacional e, consequentemente, aumento da incidência de doenças crônico-degenerativas. Isso acontece porque o desenvolvimento de grandes estudos epidemiológicos e a insistência na publicação de eventos adversos levam a medidas para controlá-los: criação de centros de diagnóstico e vias rápidas para o manejo de hipertermia maligna, numerosos tipos de equipamentos voltados para evitar falhas no manejo da via aérea e detectar hipóxia, assim como melhor entendimento e acesso a instrumentos que podem detectar e ajudar no tratamento do colapso circulatório.

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Em estudo publicado em 2015 por Whitlock e colaboradores, foi encontrada uma taxa de mortalidade em 48h após o período operatório de 33 para cada 100.000 atos anestésicos, (mais baixo do que os 89 para cada 100.000 atos encontrados em metanálise anterior), sendo divididos em complicações com a via aérea (1,7%), reanimação (2,8%), complicações respiratórias (8,1%) e colapso circulatório (35%) e associados a “falha no resgate”, que também se relacionam com o tempo necessário para o diagnóstico e tratamento do evento. As populações mais expostas ao dano foram os extremos de idade, classificações de estado físico da Sociedade Americana de Anestesiologia mais elevadas, as cirurgias de urgência/emergência e as que se realizavam durante a madrugada. Ou seja, mesmo que as técnicas de suporte tenham avançado, o cuidado ainda é realizado por seres humanos, que estão expostos a fadiga e doenças, assim como a população em geral.

O preparo na formação dos anestesiologistas prevê que existam esses eventos, já que o estudo farmacológico de toda e qualquer droga envolve sua via de metabolização e seus efeitos-alvo e indesejados, assim como a associação com o funcionamento abaixo do rendimento médio esperado de órgãos nobres, quando isso ocorre. Ao longo do preparo, é ensinado que esta é a única especialidade que causa uma disrupção controlada no paciente, para propiciar a cirurgia com segurança, com os meios para desfazer e prever as intercorrências que se pode gerar, o que é às custas de extenso estudo de farmacologia, fisiologia e o preparo e certificação em áreas para suporte básico e avançado de vida.

O paciente deve estar sempre monitorizado, mas não somente com os aparelhos eletrônicos, e sim com o olho do profissional envolvido: ritmo respiratório, pulsos e responsividade do paciente devem sempre ser avaliados, pois o processo de descompensação de um indivíduo passa por etapas que variam em velocidade para acontecer, mas acontecem e necessitam ser identificadas o mais precocemente possível.

O médico anestesiologista atende a diversos tipos de especialidades e deve saber todos os passos do processo cirúrgico para estar “um passo a frente” das intercorrências e não “pesar a mão” desnecessariamente. Desde manter o paciente o mais vígil possível em determinadas situações em que a sedação pode levar à necessidade de manejo inesperado de via aérea (utilização de dispositivos para manter a via aérea pérvia ou de antagonistas para a reversão dos efeitos farmacológicos usados anteriormente) ou mascarar, ou atrasar, o aparecimento de descompensações como o edema agudo pulmonar, até a administração do bloqueador neuromuscular em um momento a partir do qual o tempo de metabolização dessa droga é muito maior do que o tempo cirúrgico residual.

Cada especialidade tem suas peculiaridades e, dentro delas, cada cirurgião tem seu modo de realizar os tempos dos atos operatórios, então, além de ser essencial saber o que se está administrando no paciente e monitorizar clinicamente, é fundamental conhecer os passos e as características do ato cirúrgico e do cirurgião e, evidentemente, saber os limites da instituição onde se está trabalhando.

O anestesiologista é o médico responsável pela segurança do paciente e da equipe cirúrgica. Este profissional deve ser habilitado no manejo das crises que eventualmente possam acontecer no ambiente operatório; portanto, a liderança natural nesses eventos deve partir dele, mesmo dividindo a responsabilidade com outros médicos que também detêm a autoridade intelectual e técnica nesses momentos.

É fundamental esclarecer aos pacientes todos os eventos relacionados ao processo cirúrgico-anestésico que ele será submetido e dirimir todas as dúvidas possíveis, de maneira a mostrar que a anestesia é extremamente segura, mas também não é “só um cheirinho”. Existem muito mais coisas entre o céu e a mesa operatória do que sonha a filosofia popular e a responsabilidade de mostrar isso à população que atendemos é nossa.

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Autor:

Hugo Siqueira

Médico graduado pela Universidade Federal Fluminense ⦁ TEA/SBA ⦁ Coordenador de anestesia do Hospital de Clínicas Mario Lioni ⦁ Anestesista do Centro de Estudos Oculistas Associados

Referências:

  • 1- Anesthesia and Analgesia 2018 Mar;126(3):876-888. Cardiac Arrest in the Operating Room: Resuscitation and Management for the Anesthesiologist: Part 1.
  • 2- BMC Anesthesiol. 2015; 15: 149. Ether in the developing world: rethinking an abandoned agent.
  • 3- Brit. J. Anaesth. (1965), 37, 644. THE ANAESTHETIC ETHERS.
  • 4- Anesthesiology 2015; 123:1312-21. Perioperative Mortality, 2010 to 2014: A Retrospective Cohort Study Using the National Anesthesia Clinical Outcomes Registry

Um comentário

  1. José Cláudio Granato Popoe

    Perfeita a colocação do colega.Parabéns!

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