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medica analisando o paciente

Passo-a-passo da minha primeira alta hospitalar

Tempo de leitura: 3 minutos.

Primeiro dia na residência. O staff vira para você e diz: “pode dar alta para Dona Maria, leito 10”. Será que pode mesmo? Preparei tudo? O que esqueci? Quais das medicações devo prescrever na receita? Esse texto é para ajudá-lo no processo e diminuir as chances de falha.

Etapa Pré-Alta

O paciente que está em convalescença deve passar por uma transição antes da alta hospitalar. Há dois focos nessa etapa:

– Certificar-se que o paciente e sua família entenderam a doença, o motivo de internação e o diagnóstico e/ou tratamento realizado.
– Passar as medicações gradualmente para uso oral em posologias compatíveis com a vida diária. Lembrem-se que, quanto mais tomadas diárias, menor a adesão. Como exemplo: omeprazol em jejum, captopril 8/8h, hidroclorotiazida de manhã, metformina após café. Essa prescrição nem é muito longa, certo? Mas pode complicar a vida de um paciente se não explicada: ele tem que lembrar do omeprazol ao acordar, do tiazídico em algum momento da manhã e depois do café da metformina. E ainda lembrar de levar o captopril na bolsa…

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Definição da Data da Alta

O ideal é não comunicar a data da alta no mesmo dia: quanto mais complexo, mais debilitado e com mais comorbidades, logo maior a antecipação entre informar a alta e de fato sair do hospital. Vamos explicar melhor.

Imagine um paciente de 80 anos, sequela de AVC, acamado, que só sai da cama com auxílio para o banho em cadeira. Foi admitido por pneumonia e hoje (uma terça-feira) está no quarto dia de levofloxacino, com melhora. Você pensa: “sexta-feira, vou dar alta para ele”. Mas no dia da alta, a família precisa de alguém para auxiliar o idoso na higiene, alimentação e deslocamento. Família com menor renda precisam ainda programar o transporte para casa. Vocês conseguem contratar um cuidador do dia para a noite? O mesmo vale para próteses, andadores, fisioterapia, etc… Se você deixar para dar a notícia da alta no dia, a confusão está armada.

Recomendamos que, ao observar a melhora, você avise à família: “ele está melhorando, iremos passar o antibiótico para oral, vocês podem ir se programando, pois caso ele mantenha esse curso, é possível uma alta no fim da semana. Ele ainda deve precisar de ajuda para banho e alimentação: vocês já têm alguém para essa função?”. Há um efeito colateral: caso o paciente piore, a família pode não entender e ficar chateada com você. Mas acreditamos que isso é contornável: sua virtude não deve ser vidente, mas sim honesto e correto nas atitudes.

Veja também: ‘FAST HUG: o que devemos saber na nossa primeira prescrição’

Checklist da Alta Segura

Há vários disponíveis na literatura. Utilizamos como base o informado pela Ebserh para suas maternidades, a empresa pública que gerencia os hospitais universitários, e um artigo recente sobre um projeto canadense para tornar a alta hospitalar um evento mais seguro. Há, ainda, outros modelos, como do INTO.

1. O paciente e seus familiares compreendem o que motivou a internação e as condições de saúde na alta?
Utilizar método de repetição: explicar e pedir para o paciente ou familiar repetir a informação com suas próprias palavras. Todos os familiares estavam presentes? Quanto maior a família, melhor marcar uma “reunião” para explicar tudo a todos, evitando “disse-me-disse”.
2. O paciente e seus familiares foram avisados das necessidades de auxílio para locomoção, higiene e alimentação?
3. Foi fornecido um sumário de alta?
4. Está claro quais médicos deve manter acompanhamento ambulatorial?
5. As consultas “pós alta” estão agendadas?
6. Foram informados sinais de alarme para retorno ao hospital em caso de piora? Explicar o curso da doença em casa, antecipando circunstâncias e quando é motivo para entrar em contato com um médico.
7. Foi fornecida prescrição com medicações para uso domiciliar? Deixe claro para o paciente caso alguma medicação tenha sido modificada. Assinale com destaque as novas.
8. Alguma das medicações necessita de receita especial (azul ou branca)?
9. Alguma das medicações não está disponível em farmácias convencionais (ex: antiretrovirais)? Se não, há como disponibilizá-las na alta (ex: é feriado?)?
10. Há exames para serem feitos após a alta? Se sim, já foram marcados ou necessitam aguardar autorização?

Autor:

Ronaldo Gismondi

Doutorado em Medicina pela UERJ ⦁ Cardiologista do Niterói D’Or ⦁ Professor de Clínica Médica da Universidade Federal Fluminense

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