Hepatologia

Perspectivas da máquina de perfusão hipotérmica no transplante hepático

Tempo de leitura: 2 min.

Patologias que cursam com necessidade de transplante hepático são crescentes, o que aumenta a demanda por órgãos viáveis não só a nível nacional, mas também globalmente. Partindo dessa necessidade tem-se buscado meios de reduzir o dano causado pelo tempo de isquemia fria, elevando a proporção de órgãos viáveis para transplante hepático e reduzindo complicações isquêmicas dos enxertos hepáticos.

Manutenção do órgão

Dentre as opções de preservação de órgãos, a máquina de perfusão hipotérmica (MPH) mostrou resultados iniciais otimistas, principalmente naqueles advindos de doadores em parada circulatória. A MPH é capaz de promover perfusão através de um sistema de bombas centrífugas conectadas à veia porta e artéria hepática, mantendo baixo o gasto metabólico celular com uso de solução de preservação hipotérmica (10 °C).

Leia também: 10 dicas para manejo de pacientes que receberam transplante de fígado

Foi visando avaliar a eficácia desse sistema que um recente estudo multicêntrico, prospectivo, randomizado comparou MPH à clássica preservação estática no gelo, tendo como critério primário a incidência de estenose biliar não anastomótica (EBNA) em até 6 meses após o transplante hepático. Participaram do estudo 160 pacientes, dos quais metade compunham o grupo controle (apenas preservação estática no gelo) e metade receberam órgãos assistidos por MPH. Todos tiveram doadores com parada circulatória, sendo o tempo de isquemia fria no grupo MPH discretamente menor comparado ao grupo controle (6 horas 11 minutos vs 6 horas 49 minutos, respectivamente). Em relação ao desfecho primário, EBNA sintomática ocorreu em 5 dos 78 pacientes do grupo com máquina de perfusão hipotérmica (6%), já no grupo controle esse evento ocorreu em 14 pacientes (18%, P= 0,03).

Também foi avaliada a incidência de síndrome de reperfusão (SR), que é definida como a redução de mais de 30% da pressão arterial média comparativamente ao valor pré-reperfusão, tendo o grupo controle apresentando mais casos (27% vs. 12%). Disfunção precoce do enxerto ocorreu em 26% dos pacientes do grupo MPH e em 40% do grupo controle, tendo este mesmo grupo apresentado um caso de falha primária do enxerto.

Em relação aos tratamentos necessários para manejar complicações pós-transplante, inclusive EBNA, foram realizadas quatro vezes mais abordagens no grupo controle, sendo mais comum o uso de antibióticos por colangite (N = 4 vs. N = 14), implante de stents via percutânea ou endoscópica (N = 5 vs. N = 22), readmissão hospitalar (N = 6 vs. N = 17) e retransplante (N = 3, todos do controle) devido à severa EBNA.

Não houve diferença significativa entre os grupos quanto à necessidade de hemodiálise, tempo de permanência hospitalar e sobrevida em um ano.

Saiba mais: Testes não invasivos para avaliação da gravidade da doença hepática gordurosa não alcoólica do fígado

O presente estudo mostrou o benefício do uso da MPH, principalmente em órgãos advindos de doadores em parada circulatória, os quais tendem a ter incidência maior de complicações biliares. Neste perfil de paciente, o uso da máquina de perfusão hipotérmica pode representar um significativo avanço, com perspectiva da redução das principais complicações pós-operatórias, como a EBNA.

Para Levar Para Casa

A preservação do enxerto hepático é um dos principais desafios na logística dos centros transplantadores e um dos fatores limitantes para aumento de órgãos viáveis disponíveis. Nesse contexto, o uso de tecnologias como a máquina de perfusão será potencialmente benéfica para aumento de órgãos viáveis. Para viabilizar o uso dessa tecnologia no Brasil é preciso adequá-la à realidade nacional, ponderando seu custo-efetividade, além da aplicabilidade em nosso perfil de doadores.

Autor(a):

Referências bibliográficas:

  • van Rijn R, Schurink I, de Vries Y, van den Berg A, Cortes Cerisuelo M, Darwish Murad S et al. Hypothermic Machine Perfusion in Liver Transplantation — A Randomized Trial. New England Journal of Medicine. 2021;384(15):1391-1401. doi: 10.1056/NEJMoa2031532
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Publicado por
Nathália Ribeiro Pinho de Sousa

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