Neurologia

Pesquisa monitora pressão intracraniana antes e depois das sessões de hemodiálise utilizando método não invasivo

Tempo de leitura: 5 min.

Pesquisadores brasileiros conseguiram monitorar pela primeira vez na literatura médica a pressão intracraniana de pacientes antes e depois das sessões de hemodiálise, utilizando o método não invasivo brain4care para avaliar as variações da pressão intracraniana durante o tratamento. 

O estudo inédito é de um grupo de cientistas liderado por Cristiane Rickli e José Carlos Rebuglio Vellosa, da Divisão de Ciências Biológicas e da Saúde, da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), no Paraná.

O estudo

O artigo científico foi publicado no Plos One, em 22 de julho, e promete abrir uma nova perspectiva para pacientes renais que utilizam hemodiálise. 

Segundo a pesquisadora Cristiane Rickli, apesar da hemodiálise ser a terapia de substituição das funções renais mais utilizada no mundo, ela está associada a diversos efeitos colaterais, como hipotensão, náuseas e câimbras. Além disso, depois do procedimento é comum os pacientes se queixarem  de cefaléia, fadiga e incapacidade de concentração. 

“São sintomas que podem estar relacionados à retirada excessiva de líquidos durante a hemodiálise ou a uma forma leve da síndrome do desequilíbrio da terapia. Essa síndrome é um evento grave, ainda pouco estudado. Sabe-se que está ligada ao comprometimento neurológico  do paciente, mas, na maioria dos casos, quando chega a ser diagnosticado já está em estágio adiantado e o paciente não sobrevive”, explicou uma dos líderes do estudo. 

Ainda de acordo com a entrevistada, o que difere um paciente que está sofrendo efeitos comuns da hemodiálise daquele que está com síndrome do desequilíbrio da hemodiálise é a presença de edema cerebral e aumento da pressão intracraniana. 

Assim, a possibilidade de monitorar de maneira não invasiva esses pacientes pode levar os médicos a considerarem a hipótese de uma síndrome do desequilíbrio da hemodiálise em fase inicial e tomarem medidas mais eficientes de manejo dos pacientes e que podem salvar suas vidas. 

Na literatura científica já existem artigos que trabalham com a hipótese de que cefaleia, náuseas e câimbras, em pacientes submetidos à hemodiálise, podem ser sinais de síndrome do desequilíbrio da hemodiálise. 

“Acontece que até o momento, as alternativas para diagnóstico eram invasivas, por exemplo, inserir um cateter no ventrículo cerebral através de cirurgia para obter o valor da pressão intracraniana. O método invasivo, além de inviabilizar o diagnóstico, também limitou os estudos sobre a síndrome do desequilíbrio da hemodiálise”, esclareceu a pesquisadora Cristiane Rickli.

Saiba mais: Neurointensivismo: como usar a ultrassonografia no manejo da hipertensão intracraniana

Mais sobre o estudo 

Trata-se de um estudo longitudinal prospectivo de 42 pacientes ≥ 18 anos com doença renal em estágio terminal de um único centro de terapia de substituição renal que recebeu hemodiálise periodicamente, três vezes por semana com dois intervalos de um dia e um intervalo dependendo do paciente e de sua condição. 

As características clínicas dos participantes, incluindo idade, sexo, doença de base, início do tratamento e comorbidades, foram obtidas nos prontuários eletrônicos do centro de terapia de substituição renal. Os parâmetros pressão arterial média (PAM) e ganho de peso interdialítico (GPID) foram obtidos por meio da consulta às anotações de cada sessão de hemodiálise.de dois dias entre as sessões , por seis meses. A duração da sessão de hemodiálise variou de três a quatro horas, 

No total, 4.881 pontos de dados foram coletados durante os seis meses de acompanhamento. O equipamento de monitoramento do aumento da pressão intracraniana não invasiva foi fornecido pela brain4care. Este método não invasivo foi validado em comparação com o método invasivo de monitoramento da influência da pressão intracraniana.  

Para realizar o monitoramento, um sensor que detecta as deformações micrométricas dos ossos do crânio é preso a uma faixa de plástico presa ao redor da cabeça do paciente. O dispositivo filtra, amplifica e digitaliza o sinal do sensor antes de enviá-lo ao computador. 

De acordo com o estudo, os pesquisadores da UEPG foram capazes de demonstrar através de um método não invasivo que ocorrem alterações no aumento da pressão intracraniana dos pacientes em hemodiálise, e que essas alterações se repetem ao longo dos meses. É sugerido que a hemodiálise pode melhorar os parâmetros da pressão intracraniana que refletem a complacência cerebral. 

No entanto, estudos futuros são necessários para examinar as causas das alterações da pressão intracraniana, especialmente considerando que a elevação prolongada do aumento da pressão intracraniana está associada a resultados neurocognitivos ruins. 

Além disso, foi mostrado que os parâmetros não invasivos da influência da pressão intracraniana foram maiores na primeira sessão semanal de hemodiálise  do que na segunda e terceira sessões, o que pode acontecer em função do intervalo de tempo entre a última e a primeira sessão de semana, o que resulta em maior acúmulo de líquidos.

Leia também: Quais fatores no manejo de hemodiálise contínua podem alterar a sobrevivência de crianças graves com lesão renal aguda?

Monitoramento não invasivo 

Vale ressaltar que o interior do crânio é composto de três elementos: tecido cerebral, sangue e líquor. A pressão intracraniana é o resultado das interações entre os volumes desses elementos e seu equilíbrio é fundamental para a saúde, chamado de complacência intracraniana. 

Com a tecnologia brain4care, utilizada neste estudo,  um sensor encostado na cabeça do paciente, com ajuda de uma faixa, capta movimentos sutis por meio de um dispositivo eletrônico, como computador, tablet ou celular, com acesso à internet e que os envia para a nuvem. Um algoritmo transforma os dados em curvas que refletem o estado da complacência do cérebro, tudo em tempo real, para interpretação e acompanhamento da equipe médica.

*Esse artigo foi revisado pela equipe médica da PEBMED

Autora:

Referências bibliográficas:

  • Cristiane Rickli, et al. Use of non-invasive intracranial pressure pulse waveform to monitor patients with End-Stage Renal Disease (ESRD). Plos One. Published: July 22, 2021. doi: https://doi.org/10.1371/journal.pone.0240570
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Publicado por
Úrsula Neves

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