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Piercing na orelha e pericondrite: como devo tratar?

Tempo de leitura: 4 minutos.

Há cerca de duas semanas, um colega da residência me relatou o seguinte caso:  uma paciente de 25 anos, residente em Niterói, no Rio de Janeiro, com história de implante de piercing em terço superior de pavilhão auricular direito há quatro semanas em uma banca de revista. Evoluiu com quadro de dor, edema e rubor local. Fez uso de anti-inflamatórios, sem qualquer melhora.

Após sete dias, já havia uma coleção no local, deformando o pavilhão auricular. Procurou atendimento em serviço de emergência, onde foi realizada drenagem do local e prescrito cefalexina. A ferida evoluiu com progressiva piora, mesmo após ajuste de antibioticoterapia para clavulin e realização de nova drenagem.

Percebe-se, claramente, que nenhum dos profissionais que trataram o paciente em questão sabia como proceder. Nunca haviam tratado qualquer infecção de cartilagem e tomaram condutas muito inadequadas, que não apenas prolongaram o curso da doença, como também contribuíram para agravamento do quadro e comprometimento do estado geral do paciente.

E você? Sabe como proceder? O que devemos fazer? Ou melhor, se um dia você colocar um piercing, e, por ventura, evoluir dessa forma, o que deve ser feito?

A popularidade do piercing de orelha voltou e com ela a discussão de um tema muito relevante – a pericondrite auricular, relacionada com as más técnicas de colocação. Normalmente, o procedimento é realizado sem qualquer medida de assepsia e antissepsia, com passagem de agulha na região seguida imediatamente da inserção do objeto na cavidade formada. Em geral, os ‘profissionais’ que realizam o procedimento aprenderam em vídeos na internet ou com outras pessoas igualmente inexperientes, justificando o desenvolvimento de complicações, como infecção do local, tão temida.

Mas, por que a infecção da cartilagem é tão grave e refratária ao tratamento?

O pavilhão auricular é constituído por esqueleto cartilaginoso, recoberto por pele e tecido celular subcutâneo, em uma camada muito fina que interpõe pele e cartilagem. Além disso, a nutrição cartilaginosa é feita por embebição, a partir do pericôndrio. Esse tecido, portanto, se torna muito suscetível a infecções. Qualquer tratamento conservador mantido por via oral, por exemplo, demora muito para concentrar na cartilagem, e, se ocorrer, não irá atingir a dose terapêutica, muito provavelmente.

Como definir o quadro?

A pericondrite é uma infecção do pericôndrio, gerando acúmulo de pus entre este e a cartilagem. Considerando que o pericôndrio é o responsável pela nutrição da cartilagem, um processo inflamatório a esse nível pode levar à necrose com deformidades importantes. Uma vez instalada, a infecção tende a se espalhar rapidamente por todo o pavilhão, principalmente nas porções livres. Felizmente esse processo é raro, mesmo considerando a grande quantidade de cirurgias otológicas contaminadas realizadas diariamente.

A infecção no lóbulo da orelha tem curso benigno, respondendo a medidas locais e antibióticos antiestreptocócicos. Já a colocação de piercing na cartilagem associada a infecção local, leva a um quadro de elevada morbidade, particularmente pelo aumento da presença da pseudomonas aeruginosa como agente etiológico. O Staphylococcus aureus é outro agente muito encontrado. A inoculação da bactéria decorre da exposição do pericôndrio e cartilagens do pavilhão, durante ou após o procedimento.

Além da forma relatada na forma de caso nesse artigo, há outras maneiras de permitir que os microrganismos alcancem o plano do pericôndrio, como em outros traumatismos (acupuntura, por exemplo), cortes ou lacerações, cirurgias e a disseminação a partir de um foco superficial. Epidemiologicamente, observa-se maior quantidade de casos em meses de verão, pela umidade e calor favorecendo a proliferação do agente causal.

Quais os sintomas?

O sinal característico inicialmente é o eritema do pavilhão, preservando o lóbulo. A dor pode se estender para região cervical e temporal. A febre pode coexistir. E, caso o processo inflamatório não seja interrompido, há evolução para edema generalizado, abscesso subpericondrial e possível necrose isquêmica.

Como tratar?

Após realização de cultura e antibiograma da secreção coletada do local, o tratamento deve se basear em drenagem cirúrgica, antiobioticoterapia e anti-inflamatório sistêmico, com internação hospitalar. Atente-se para o esquema antibiótico, devendo ser de amplo espectro: cefalosporinas de terceira geração, quinolonas, associadas com metronidazol. A presença de abscesso indica necessidade de realização de desbridamento cirúrgico amplo.

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Foi descrito um caso que após realização de drenagem cirúrgica do abscesso existente no local, com vistas a aumentar a adesão da pele à cartilagem e evitar formação de coleção serosanguinolenta nesse espaço com eventual recidiva da pericondrite, foi realizada compressão por meio da técnica de botões fixados no pavilhão auricular, gerando adesividade necessária. Associada a essa técnica, foi realizado curativo compressivo com atadura. Os botões foram retirados no sétimo dia de pós operatório.

Quais as possíveis complicações?

Quando graves e associadas a perda de cartilagem, o tratamento é muito difícil, com desenvolvimento da conhecida orelha em aspecto de ‘couve-flor’, com poucas possibilidades de sucesso na reconstrução. O diagnóstico precoce associado a pronta adoção de tratamento adequado evita evolução para esses estágios.
Outras complicações são descritas, como hematoma, granuloma, formação cística local, síndrome do choque tóxico.

Depois de todas essas informações, o que podemos concluir? Quer mesmo colocar um piercing na orelha? Bom, atente-se para a esterilização do material utilizado, a higiene, o material usado na esterilização e na realização do procedimento, o local do implante e o profissional a realizar o implante. O tratamento ideal será sempre a prevenção e ela começa quando o usuário se questiona sobre o serviço que está pagando.

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Referências:

  • Fernandez ap, et al. Pericondrite pós-piercing. Rev. Bras. Otorrinolaringol. 2008; 74 (6).
  • Filho acnn, et al. Pericondrite de pavilhão auricular: relato de caso. Arq.Fund. Otorrínoiaringol. 2001; 5 (3): 151-4.

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