Plasma convalescente no tratamento de pacientes graves com Covid-19 pode ser eficaz?

Tempo de leitura: 3 min.

O uso de plasma convalescente (PC) ou imunoglobulina não é novidade na medicina. O plasma convalescente tem sido utilizado como alternativa terapêutica em paciente com SARS não responsivo à metilprednisolona pulsada.

O PC também já foi utilizado em surtos de infecções respiratórias, como na epidemia de SARS-CoV de 2003, a pandemia do vírus influenza H1N1, ocorrida em 2009, na epidemia de MERS-CoV, em 2012, e em 2014 nos surtos do vírus ebola. Aventa-se como provável explicação para seus resultados terapêuticos a possibilidade de os anticorpos contidos no plasma convalescente possam suprimir a viremia apresentada pelo paciente com determinada doença.

Plasma convalescente e Covid-19

O plasma convalescente (PC) coletados de indivíduos que se recuperaram da Covid-19 e contém anticorpos para o SARS-CoV-2 está sendo estudado para administração em pacientes com a doença.

Destaca-se o estudo piloto realizado em conjunto por três hospitais na China, onde houve a administração de PC em dez pacientes com Covid-19 considerados graves de acordo com as Diretrizes Interinas da Organização Mundial de Saúde (OMS) e as Diretrizes de Diagnóstico e Tratamento da Covid-19 da Comissão Nacional de Saúde da China. Os casos analisados foram confirmados pelo teste de RNA viral em tempo real para a doença em questão.

Estudo chinês

Dos indivíduos que participaram do estudo, seis pacientes eram homens e quatro eram mulheres, a idade média dos indivíduos foi de 52,5 anos e o tempo de transfusão do PC foi uma média de 16,5 dias após o início da doença.

Os critérios de inclusão adotados foram:

  • Idade ≥ 18 anos;
  • Dificuldade respiratória, FR ≥30 batimentos/min;
  • Nível de saturação de oxigênio menor que 93% em repouso; e
  • Pressão parcial de oxigênio (PaO2)/concentração de oxigênio (FiO2) ≤ 300 mmHg (1 mmHg = 0,133 kPa).

Foi transfundida uma dose de 200 mL de plasma convalescente (CP) derivado de doadores recuperados recentemente de Covid-19 com os títulos de anticorpos neutralizantes acima de 1:640 , dentro de 4 horas após o protocolo de transfusão de sangue da OMS e foram mantidos cuidados de suporte máximos e agentes antivirais.

Alguns pacientes receberam tratamento com antibióticos, administração de antifúngico, glicocorticoide e oxigênio em quantidade ideal.

Leia também: Coronavírus: testes in vitro com dois medicamentos mostram resultados eficientes

Os resultados desse estudo estão elencados abaixo:

  1. Bom nível de segurança e baixo risco na administração do plasma convalescente nos pacientes.
  2. Melhora dos sintomas clínicos nos 10 pacientes. Parâmetros como febre, tosse, falta de ar e dor no peito, desapareceram ou apresentaram grande melhora em até três dias após a transfusão de PC.
  3. Houve redução das lesões pulmonares nos exames de tomografia de tórax de todos os pacientes. Os exames radiológicos mostraram graus variados de absorção das lesões pulmonares em sete dias.
  4. Foi observada a melhora dos valores dos exames laboratoriais de rotina e função pulmonar com aumento da saturação de oxigênio. Observou-se melhora da linfocitopenia com aumento da contagem dos linfócitos e diminuição do valor da proteína C reativa (PCR).
  5. Ocorrência de nível indetectável de carga viral , em sete pacientes com viremia prévia , após transfusão com plasma convalescente.
  6. Ausência de efeitos adversos graves, onde apenas um paciente apresentou uma vermelhidão facial.

Conclusões

Esse estudo clínico realizado pelos chineses é bastante relevante por apresentar significativos resultados positivos e pela segurança no uso do PC em pacientes com Covid-19.

No entanto, trata-se de análise de um pequeno grupo de doentes, apenas dez indivíduos e esses também faziam uso de outras terapias medicamentosas quando foram submetidos à transfusão de plasma convalescente.

Veja também: Coronavírus: qual o papel da anticoagulação em pacientes graves?

Apesar dos bons resultados obtidos nessa análise científica, o plasma convalescente Covid-19 ainda não foi aprovado para uso pela Food and Drug Administration (FDA), sendo regulamentado como um produto experimental e sua eficácia e segurança necessitam de mais ensaios clínicos para confirmação e uso aprovado para a população em geral.

A comunidade científica está empenhada em encontrar uma medicação para o SARS-CoV-2, porém, ainda não há nenhum tratamento específico para essa doença.

Autora:

Referências bibliográficas:

  • Effectiveness of convalescent plasma therapy in severe COVID-19 patients. [Acessado em 08. abril.2020 ] Disponível em: https://www.pnas.org/content/early/2020/04/02/2004168117
  • World Health Organization, Coronavirus disease (COVID-19) Pandemic. [Acessado em 14. abril. 2020] Disponível em: https://www.who.int/emergencies/diseases/novel-coronavirus-2019
  • Convalescent plasma as a potential therapy for COVID-19. [Acessado em 11. abril. 2020] Disponível em: https://www.thelancet.com/journals/laninf/article/PIIS1473-3099(20)30141-9/fulltext
  • Recommendations for Investigational COVID-19 Convalescent Plasma. [Acessado em 13 abril.2020 ] Disponível em: https://www.fda.gov/vaccines-blood-biologics/investigational-new-drug-ind-or-device-exemption-ide-process-cber/recommendations-investigational-covid-19-convalescent-plasma#Patient%20Eligibility
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Publicado por
Ana Lúcia da Silva

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