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População de Campinas pode ter propensão genética a desenvolver obesidade e diabetes

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Uma pesquisa inédita indica que adaptações evolutivas podem ter deixado a população de Campinas com uma maior propensão genética para desenvolver doenças como obesidade e diabetes.

A descoberta foi divulgada por pesquisadores do Instituto Brasileiro de Neurociência e Neurotecnologia (BRAINN) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). A pesquisa foi conduzida durante o pós-doutorado de Rodrigo Secolin, autor principal do artigo, e publicada na Scientific Reports.

Este foi o primeiro estudo realizado com esse nível de resolução no país, sendo mapeados 900 mil marcadores genéticos distribuídos nos genomas de 264 pessoas da região de Campinas.

Como foi realizada a análise genômica

Os dados genômicos foram obtidos de voluntários sem doença específica, mas que representam a diversidade genética dos indivíduos atendidos no Hospital de Clínicas da Unicamp.

“Até realizarmos a pesquisa, não tínhamos ideia da enorme variabilidade na distribuição da ancestralidade local na população brasileira. Foi algo que nos surpreendeu”, revelou Iscia Lopes-Cendes, chefe do Laboratório de Genética Molecular da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp e coordenadora do projeto.

Devido à expressiva presença de descendentes de imigrantes da Europa meridional no interior paulista, principalmente de italianos, os genomas mapeados apresentaram um forte predomínio de marcadores de origem europeia, na faixa dos 80%. Os demais 20% ficaram distribuídos, quase que meio a meio, entre as ancestralidades africana e indígena.

Leia também: Adoção de hábitos saudáveis pode atrasar aparecimento de câncer e diabetes?

Entretanto, um fato intrigou a equipe de pesquisadores. O fato que os 10% de ancestralidade indígena forneceram o elemento mais relevante do ponto de vista de saúde pública: o gene PPP1R3B, que associado à capacidade do organismo de acumular glicídios e lipídios, gera uma maior predisposição no desenvolvimento de obesidade e síndromes metabólicas correlatas, como diabetes tipo 2.

Para explicar o desvio, foi formulada a hipótese de que, muito provavelmente, essa região foi submetida a um processo de pressão seletiva no passado, voltada para melhor adaptar os indivíduos ao meio.

Em uma época em que havia uma oferta muito menor de comida, o gene PPP1R3B, relacionado com o acúmulo de glicídios e lipídios, daria uma vantagem evolutiva aos seus portadores, possibilitando que vivessem por mais tempo e se reproduzissem mais, transmitindo essa característica à sua descendência.

Contudo, o que foi uma vantagem antigamente se transformou em um grave problema nos tempos atuais, dentro de um contexto de alta ingestão calórica e sedentarismo, agravados por hábitos como tabagismo e consumo exagerado de álcool.

Veja também: Exercício aeróbico versus musculação na obesidade: por que indicar os dois?

“Essa informação é valiosíssima do ponto de vista de saúde pública. Levantamos até a hipótese de que existe na população da região de Campinas (e quem sabe também em populações de outras regiões do Estado de São Paulo) uma maior predisposição genética para obesidade e suas complicações”, ressaltou Iscia Lopes-Cendes.

Na opinião da pesquisadora, seria muito importante que os gestores do sistema de saúde pública da região criassem programas de prevenção de obesidade e diabetes, com equipes multidisciplinares para promover mudanças de hábitos alimentares, estimular a prática de exercícios físicos e alertar sobre os perigos do tabagismo e da ingestão de álcool.

*Esse artigo foi revisado pela equipe médica da PEBMED

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