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Por que ainda não devemos falar em cura do HIV?

Tempo de leitura: 3 minutos.

Conforme noticiamos anteriormente, foi publicado recentemente no Nature mais um suposto caso de cura do HIV. Assim como o “paciente de Berlim”, que há 12 anos foi submetido a transplante de células tronco hematopoiéticos, o mais novo caso do “paciente de Londres” atingiu a remissão virológica após o mesmo procedimento graças a um padrão raro de mutação dos doadores (CCR5 ∆32), presente em apenas 1% da população. Neste artigo daremos uma nova visão sobre este tema.

Quer dizer que transplante de medula sempre cura o HIV? Não. Quais foram as condições necessárias para o sucesso do transplante de células tronco hematopoiéticas como modalidade terapêutica do HIV?

  • Possuir outra condição clínica que indicasse o transplante;
  • Possuir infecção com cepas do HIV com tropismo ao CCR5;
  • Encontrar doadores de células tronco hematopoiéticas homozigóticos para mutação do CCR5 ∆32;
  • Não morrer durante o tratamento.

Há pelo menos três motivos que provam que ainda não possuímos a cura efetiva do HIV:

1. O transplante, per se, tem alta morbimortalidade

No caso de uma LMA submetido a TCTH alogênico não aparentado, a sobrevida em três anos é de apenas 46% nos estágios iniciais e 18% nos avançados. Parte dos óbitos ocorrem devido à própria leucemia, e outra parte devido às complicações geradas pelo tratamento, que envolve mieloablação, imunossupressão e doença do enxerto versus hospedeiro (DECH). Só se justifica esse tipo de tratamento em uma pessoa que irá morrer se nada for feito, pois  o tratamento é extremamente agressivo e a relação risco x benefício não favorece o uso para tratamento do HIV, por ser uma condição facilmente controlável com medicações.

2. Não temos tantos doadores de medula óssea

De 13 mil pacientes com LMA ao ano que ocorrem nos EUA, apenas 2 mil são submetidos ao TCTH. Alguns casos não indicam transplante por haver outras opções terapêuticas, as comorbidades, a falta de leitos ou falta de doadores compatíveis.

Atualmente há 36 milhões de pessoas que vivem com HIV. É inviável pensar nessa modalidade terapêutica, que mal atende às pessoas que possuem câncer das células hematológicas (como a leucemia ou linfoma), onde a ausência de outras opções terapêuticas e gravidade da doença justifica seu uso.

3. Há outros caminhos para a cura da AIDS

Existem hoje dezenas de medicações que agem no HIV e impedem sua replicação e ação contra as células de defesa. Desta forma, uma pessoa que inicia tratamento para o HIV em uma fase precoce, nunca irá evoluir para AIDS. Além disso, deixa de transmitir o vírus e evita a disseminação por quebrar a cadeia de transmissão. Ou seja, já há uma terapia capaz de causar remissão virológica, porém à base de medicações.

Há estudos que demonstram que uma pessoa com diagnóstico de HIV aos 20 anos e que inicia terapia possui a mesma expectativa de vida que uma pessoa que vive sem o vírus. Então não faz sentido pensar em uma terapia tão agressiva como o TCTH para uma condição tão facilmente tratável como o HIV. Aliás, qual é a diferença prática entre remissão virológica e a cura? Vamos lembrar que na remissão virológica não há evolução da doença e não há transmissão do vírus.

O que esses casos nos dizem?

O transplante, no momento atual da medicina, não é uma opção terapêutica para o HIV utilizada na prática clínica. Porém, abre uma janela de oportunidades. Agora sabemos que a introdução de células com características diferentes às originais do hospedeiro (no caso células com a mutação do CCR5 ∆32) podem passar a expressar essa condição neste.

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Outras modalidades terapêuticas que envolvem manipulação genética podem ser exploradas em um futuro próximo. Apesar de ainda não termos chegado à cura do HIV, podemos afirmar que demos mais um passo nessa direção.

Porém, levanto outros questionamentos ao leitor:

  • Porque 1 milhão de pessoas ainda morrem ao ano devido à AIDS?
  • Por que há aumento no número de novos casos de HIV no Brasil, especialmente entre homens jovens?
  • Por que falamos tão pouco sobre infecções sexualmente transmissíveis e sexualidade?
  • Porque ainda há tantos adultos com vida sexual ativa que nunca fizeram um teste anti-HIV na vida?

Depois de responder essas perguntas, as discussões sobre a cura do HIV continuam.

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Referências:

  • Gupta, Ravindra K et al. 2019. “HIV-1 Remission Following CCR5Δ32/Δ32 Haematopoietic Stem-Cell Transplantation.” Nature. https://doi.org/10.1038/s41586-019-1027-4.
  • Kerbauy, Fabio et al. 2010. “Transplante de Células-Tronco Hematopoéticas e Leucemia Mieloide Aguda: Diretrizes Brasileiras.” Revista Brasileira de Hematologia e Hemoterapia 32(55 11): 61–65.
  • Klein, Marina B. et al. 2013. “Closing the Gap: Increases in Life Expectancy among Treated HIV-Positive Individuals in the United States and Canada.” PLoS ONE 8(12): e81355.
  • UNAIDS. 2017. “UNAIDS Data 2017.” Programme on HIV/AIDS: 1–248.

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