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Porque nem sempre o natural é inofensivo em uma cirurgia

Tempo de leitura: 3 minutos.

O pré-operatório é um momento muitas vezes negligenciado, seja por médicos ou doentes. Além da avaliação de doenças e alterações laboratoriais, as medicações em uso pelo paciente deverão ser verificadas pelo médico assistente. Nosso objetivo é manter a doença preexistente sob controle e minimizar as interações entre os medicamentos e os anestésicos.

Importante que os pacientes informem aos médicos o que usam de medicações. Todas elas, inclusive as medicações e “produtos naturais”. Cabe ao médico pesquisar ativamente o uso dessas substâncias, pois muitas vezes o paciente não considera esse dado importante.

Sabe-se muito sobre Ginko biloba (amplamente utilizada para melhorias na memória), que aumenta o risco de sangramento, principalmente se associado a antiagregantes plaquetários, mas há outras ervas e medicamentos naturais com efeitos importantes que devemos saber, como a mais recente moda: a equinacea, utilizada para melhoria da imunidade, que pode causar o efeito contrário se utilizado por tempo prolongado.

Algumas drogas aumentam o risco de sangramento durante a cirurgia e devem ser suspensas: as com efeitos antiplaquetários, como AAS e clopidogrel, devem ser suspensas 7-10 dias antes do procedimento; anti-inflamatórios não esteroidais, entre 1 (ibuprofeno) e 3 dias (naproxeno) – porque dependem da meia vida da droga. Outros medicamentos podem aumentar o risco de trombose, como os anticoncepcionais orais e o tamoxifeno. Esses devem ser suspensos 4 semanas antes do procedimento.

Cabe ao profissional de saúde saber desse tipo de efeito e ponderar riscos e benefícios da suspensão. Isso vale também para exames invasivos, como colonoscopias, endoscopias e CPREs. Caso o risco de suspensão da droga seja muito deletério, pode ser mantida, mas devemos ter estrutura adequada para atender as complicações já esperadas.

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As medicações habituais do paciente, como anti-hipertensivos, antiarrítmicos, drogas para pulmão (também as inaladas e nebulizadas), antipsicóticos e anticonvulsivantes, devem ser mantidas no dia da cirurgia, salvo alguma restrição, sendo ingeridas com o mínimo de água. Importante retornar todas as outras medicações, que foram suspensas para uma cirurgia ou exame invasivo, o mais breve possível.

Caso o paciente faça uso de alguma medicação que não possa ser suspensa, devemos discutir com o médico assistente opções para a realização da cirurgia. Essas opções podem ser: reserva de sangue, plasma, plaquetas, unidade fechada para recuperação do pós-operatório. Em casos de exames invasivos, poderíamos fazer preparo e recuperação sob regime de internação hospitalar.

Verificar o que seu paciente usa sem necessidade de prescrição médica é fundamental para a realização de alguns exames e cirurgias! Segue tabela com mais informações sobre algumas drogas amplamente utilizadas:

Erva

Potenciais efeitos

Tempo de suspensão antes do procedimento

Equinacea

Reduz a ação de imunossupressores e, em uso prolongado, pode causar imunossupressão

sem dados

Alho

Aumento do risco de sangramento, principalmente se associado com outros antiagregantes

Pelo menos 7 dias

Ginko Biloba

Aumento do risco de sangramento, principalmente se associado com outros antiagregantes

Pelo menos 36h

Ginseng

hipoglicemia, aumento de sangramento, reduz efeitos de anticoagulantes como o warfarin

Pelo menos 7 dias

Kawa-Kawa

Aumenta o efeito sedativo dos anestésicos, tolerância e efeito de abstinência se retirado rapidamente

pelo menos 24h

erva de São João

Indução das enzimas do citocromo P-450, com efeitos em ciclosporina, warfarina, potência em esteroides e reduz níveis de digoxina. Pode ter efeitos em benzodiazepínicos, bloqueadores do canal de cálcio.

Pelo menos 5 dias

Valeriana

Aumenta efeito sedativo de anestésicos, efeito de retirada semelhante aos benzodiazepínicos

sem dados

*Fonte: tabela adaptada de Sabiston, 16ºedição 

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Autora:

Referências:

  • Sabiston Textbook of Surgery: The Biological Basis of Modern Surgical Practice. Courtney M. Townsend, R. Daniel Beauchamp e B. Mark Evers. W.B. Saunders Company; Edição: 20
  • Coman’s Colon and Rectal Surgery. Marvin L. Corman. Sixth Edition.

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