Posso utilizar telas em cirurgias infectadas?

Tempo de leitura: 3 min.

Ainda existe bastante discussão quanto a segurança de implantes de materiais (telas) não absorvíveis em situações que há clara contaminação do campo operatório. Este material serve como superfície para que o patógeno crie um biofilme e torne os mecanismo de defesa do indivíduo ineficientes para debelar o agente responsável pela área infectada.

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Sobre o uso de telas em cirurgias infectadas

Esta possibilidade de uso se torna bastante controversa quando estamos diante de um caso de hérnia ventral associada a infecção, visto que o reparo simples da hérnia é praticamente seguida de uma recidiva herniária, enquanto o implante de material inerte historicamente é associado a infecção crônica.

Nos últimos anos também surgiram no mercado diferentes materiais para correção de hérnia ventral, que teoricamente poderiam suplementar o risco da infecção crônica por serem compostos de material absorvível. Estes poderiam ser de origem biológica ou sintética e inicialmente foram largamente utilizadas apesar da falta de dados clínicos fortes que sustentassem seu uso.

Leia também: O implante de tela de forma profilática diminui as complicações em cirurgias de urgência?

Por esta falta de dados que validassem o uso de um tipo específico de tela, foi proposto este estudo que comparou retrospectivamente os desfechos clínicos de 3 tipos de tela: biológica, sintética absorvível e sintética não absorvível.

Métodos do estudo sobre utilização de telas

Estudo retrospectivo comparando dados de uma mesma instituição, de julho de 2007 a maio de 2019. Todos os reparos de hérnias ventrais cujas classificações de ferida operatória foram limpa-contaminada, contaminada e suja foram incluídos. Nestes pacientes foram analisados os eventos adversos relacionados a parede abdominal como a infecção de sítio cirúrgico, assim como a necessidade de reoperações e taxas de hérnia incisional.

Resultados

Do total de pacientes analisados, 545 foram incluídos por possuírem uma das três classificações de inclusão no estudo. Destes 245 (45,3%) foram classificados como limpa-contaminada, 214 (39,6%) em contaminada e 82 (15,2%) em suja. Os pacientes foram divididos em 4 grupos para análise:

  1. Sutura apenas; n=46
  2. Tela sintética permanente (TSP); n=202
  3. Tela absorvível sintética (TAS); n=55
  4. Utilização de tela biológica (TB); n=38

Reoperações foram necessárias em 118 pacientes (21,8%), e as taxas mais baixas foram nos grupos 1 (19,6%) e 2 (19,9%), os grupos 3 e 4 possuíram taxa de 34,6% e 26,3% respectivamente (P = 0,025). Assim como a infecção de sítio cirúrgico mais baixas nos grupos 1 e 2 (17,9& e 14,2% respectivamente); grupo 3 32,7% e grupo 4 36,8% (P < 0,001). Já a necessidade de retirada completa da tela ocorreu num total de 8 pacientes, porém sem diferença entre os grupos.

Discussão sobre telas

O uso de tela sintética permanente em condições de infecção é seguro e corrobora os achados que vêm sendo mostrados nas recentes publicações sobre o tema. No entanto, o cirurgião deve saber optar por uma tela adequada. Uma vez que as telas multifilamentares e microposoras são as mais fáceis de serem infectadas e mais difíceis de debelarem a infecção. Existe alguma evidência na literatura que a tela macroporosa de polipropileno, especialmente quando colocada retromuscular é capaz de ser incorporada ao tecido e suplantar o estado infeccioso. O uso das telas absorvíveis parece ser mais indicado em situações de clara contaminação, porém os resultados entre os trabalhos são díspares nas intercorrências agudas e as taxas de recorrência são bastante elevadas.

Conclusão acerca do uso das telas em cirurgias

O presente estudo desafia o senso comum da superioridade das telas biológicas em condições de contaminação e o dogma do uso de telas permanentes nestes casos. A baixa taxa de infecção associada a menor recorrência, quando comparada aos demais métodos, confirmam superioridade do tratamento da hérnia com a utilização de tela de monofilamento, macroporosa de polipropileno em posição retromuscular.

É complexo mudar os conceitos que aprendemos ao longo da nossa formação, porém não se pode negar o que a literatura tem evidenciado. Esta mudança não será abrupta, no entanto devemos ser um pouco mais liberais para o uso de telas em situações que inicialmente podemos considerar não ideais.

Mais do autor: Hérnia de portal pós-cirurgia bariátrica: uma complicação negligenciada

Autor(a):

Referências bibliográficas:

Warren J, et al. Safety and Efficacy of Synthetic Mesh for Ventral Hernia Repair in a Contaminated Field. J Am Coll Surg. 2020 Apr;230(4):405-413. doi: 10.1016/j.jamcollsurg.2019.12.008. Epub 2020 Jan 16.

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Publicado por
Felipe Victer

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