Práticas para melhorar a aceitação alimentar em crianças exigentes para comer

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A primeira infância é um período crítico para o estabelecimento de comportamentos alimentares que apoiem o desenvolvimento saudável. Nos Estados Unidos, por exemplo, grande parte das crianças em idade pré-escolar não cumprem as recomendações dietéticas para a idade. Em 2016, Banfield et al. publicaram estudo usando o Healthy Eating Index* (Índice de Alimentação Saudável) e observaram que crianças com idades entre 4 a 8 anos também não ingerem nem a metade da quantidade recomendada de legumes, verduras, grãos, frutos do mar e proteínas vegetais, e consomem calorias vazias em excesso. Uma dieta de pouca qualidade pode afetar o desenvolvimento físico e cognitivo das crianças, aumentando o risco de resultados adversos para a saúde, como a obesidade1,2.

As crianças em idade pré-escolar confiam em outras pessoas para fornecer alimentos para consumo. Portanto, é importante entender e determinar práticas de alimentação para melhorar a ingestão alimentar por crianças pequenas. Os pais agem como agentes primários para fornecimento de alimentos para as crianças, mas os prestadores de cuidados e os profissionais de educação são uma segunda influência relevante em aproximadamente cinco milhões de crianças americanas com idades entre 3 e 5 anos que passam boa parte de seu tempo fora de casa. As crianças que passam algum tempo em ambientes de cuidados infantis podem consumir até cinco refeições por dia nestes cenários, o que contribui para o desenvolvimento de comportamentos alimentares futuros1.

A neofobia alimentar e a alimentação exigente são dois comportamentos que aparecem frequentemente na infância e interferem com a variedade de dieta, ocasionando repetição da exposição a um mesmo alimento. A neofobia alimentar é definida como a relutância em ingerir novos alimentos e ocorre principalmente entre os 2 e os 5 anos de idade. A alimentação exigente interfere com o consumo de uma dieta variada devido à rejeição alimentar. Considerando que ambos os comportamentos têm um componente hereditário substancial, muitas evidências sugerem que práticas adequadas e precoces de alimentação apropriada podem facilitar o desenvolvimento das preferências alimentares e aceitação das crianças1.

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Os pais, muitas vezes, ficam frustrados com o que fazer com crianças pequenas que são exigentes para comer e acabam resistindo em oferecer novos alimentos3. Havia algumas contradições na literatura quanto ao número de exposições necessárias; no entanto, a maioria dos estudos sugere que crianças pequenas podem requerer de 8 a 15 exposições antes de experimentarem um alimento novo ou rejeitado anteriormente. A personalidade de uma criança e sua sensibilidade tátil, o sabor da comida e sua associação com outros alimentos já aceitos, e fatores contextuais, como dar uma recompensa pela degustação, podem influenciar o número das exposições necessárias1.

Existe um interesse crescente em avaliar se os aspectos contextuais da exposição alimentar repetida melhoram o resultado da aceitação dos alimentos por crianças. Dessa forma, com o objetivo de determinar melhores práticas de estimulação do consumo de alimentos em crianças pré-escolares, Laningan et al. realizaram o estudo Child-Centered Nutrition Phrases Plus Repeated Exposure Increase Preschoolers’ Consumption of Healthful Foods, but Not Liking or Willingness to Try, publicado recentemente no Journal of Nutrition Education and Behavior. Neste estudo, os pesquisadores compararam duas intervenções: a exposição repetida a alimentos não muito populares entre crianças (tomate, pimentão, quinoa e lentilhas) e a exposição repetida a estes alimentos com a adição de frases de incentivo centradas na criança, como, por exemplo “esta comida é gostosa”, “esta comida vai te ajudar a correr rápido” e “esta comida vai te ajudar a pular mais alto”1,3.

Famílias com crianças entre 3 e 6 anos foram recrutadas em dois centros de educação infantil localizados no noroeste dos Estados Unidos. Em um centro, foram servidos lanches, café da manhã e almoço. O segundo centro serviu apenas lanches e as crianças trouxeram o almoço de casa. Professores que se ofereceram para participar do estudo receberam um cartão-presente de US$ 100 (n=5). Uma carta e um termo de consentimento foram enviados a todas as famílias (n = 121) das crianças das salas de aula participantes. O estudo foi realizado em um período de seis semanas1.

Uma amostra de conveniência de 87 crianças com idades entre 3 e 6 anos foram inscritas. Em cada semana, durante 6 semanas, cada criança recebeu a intervenção “exposição repetida a um alimento” 1 dia por semana e a intervenção “exposição repetida a um alimento com a adição de frases de incentivo” em um outro dia, em ordem aleatória. Os efeitos de cada intervenção no consumo alimentar da criança e a resposta da criança ao sabor do alimento e se elas gostaram ou não foram registradas.

Os autores observaram que as crianças consumiram o dobro dos alimentos impopulares para crianças quando oferecidas as duas intervenções em comparação com a exposição repetida isolada. Este efeito persistiu 1 mês após o término da intervenção; as crianças estavam mais dispostas a experimentar alimentos após cada intervenção, mas não houve diferença entre as duas intervenções (o efeito foi maior em crianças de famílias com maior escolaridade); as crianças relataram um pequeno aumento na simpatia com a comida, mas não houve diferença entre as intervenções. Os autores concluíram que a exposição repetida a determinados alimentos com a adição de frases de incentivo centradas na criança pode encorajar uma alimentação saudável, especialmente para alimentos novos que as crianças normalmente recusam1,3.

Aconselhar as famílias sobre os desafios alimentares é, em si, bastante desafiador. Estas intervenções discretas realizadas no estudo de Lanigan et al. não forçam a degustação e proporcionam uma comunicação positiva com a exposição aos alimentos, podendo ser realizadas facilmente na mesa da família ou na escola/creche3. Portanto, a exposição repetida a determinados alimentos com a adição de frases de incentivo centradas na criança pode encorajar as mesmas a ter uma alimentação saudável no futuro.

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Referências:

  1. Lanigan J et al. Child-centered nutrition phrases plus repeated exposure increase preschoolers’ consumption of healthful foods, but not liking or willingness to try. J Nutr Educ Behav. 2019 May; 51:519.
  2. Banfield EC, et al. Poor adherence to US dietary guidelines for children and adolescents in the National Health and Nutrition Examination Survey population. J Acad Nutr Diet. 2016;116:21-27.
  3. Stapleton FB. Helping Children Who Are Picky Eaters. NEJM Journal Watch. 2019. https://www.jwatch.org/na49156/2019/05/28/helping-children-who-are-picky-eaters.
  4. Guenther PM et al. Update of the Healthy Eating Index: HEI-2010. J Acad Nutr Diet. 2013 Apr;113(4):569-80.
  5. Conceição SIO et al. Healthy Eating Index: adaptation for children aged 1 to 2 years. Ciênc. saúde Coletiva. 2018 Dec; 23(12):4095-4106.