Ginecologia e Obstetrícia

Precisamos falar sobre condiloma plano

Tempo de leitura: 3 min.

O condiloma plano é uma lesão dermatológica relativamente rara da sífilis secundária, apresentando-se como uma erupção cutânea grande, elevada, cinza esbranquiçada, que pode se desenvolver em áreas como boca e períneo. Muitas vezes, as escolas de medicina acabam focando seus ensinamentos nas lesões de sífilis primária (cancro duro) ou nas outras lesões de sífilis secundária mais comuns (como as pápulas palmoplantares), deixando de lado o diagnóstico e reconhecimento clínico desta lesão. Mas, por que seria tão importante assim falar especificamente sobre condiloma plano?

Para responder a essa pergunta, precisamos entender um pouco da epidemiologia da sífilis. No final dos anos 80 e início dos anos 90, houve uma miniepidemia desta doença, o que culminou nas taxas de prevalência mais altas desde a introdução da penicilina em 1943. Após um pico de incidência em 1990, houve uma queda de novos casos no ano de 2000, aumentando as esperanças de sua erradicação. No entanto, o número de casos de sífilis primária e secundária aumentou novamente em 2001, e a taxa continuou a subir quase todos os anos desde então.

Inicialmente, de 2001 a 2017, o aumento da incidência de sífilis se deu devido ao aumento de casos de homens que fazem sexo com homens. Porém, a partir de 2013, a taxa de sífilis primária e secundária em mulheres aumentou mais de 150%. Acredita-se que tal aumento pode ser devido, pelo menos em parte, ao aumento do uso e abuso de drogas injetáveis. Com o aumento do número de casos em mulheres, também houve um aumento no número de casos de sífilis congênita. O maior número de casos de sífilis em todo o mundo levou os órgãos de saúde mundiais a aumentarem os esforços para detectar e tratar a doença, algo que todos os países enfrentam com dificuldade.

Leia também: Saiba como fazer acompanhamento da sífilis adquirida

 

Pode-se imaginar, portanto, que com o aumento do número de casos de sífilis, ocorre também um aumento do número de casos de outras lesões cutâneas menos comum desta patologia, como o condiloma plano. Mas esse não é o único motivo de importância deste tema. Um amplo espectro de lesões benignas, pré-malignas e malignas pode ocorrer na vulva. O desafio para o clínico é diferenciar entre variantes normais, achados benignos e doenças potencialmente graves.

Temos que lembrar que as lesões intraepiteliais escamosas de alto grau (HSIL) da vulva, associadas à infecção pelo vírus do papiloma humano (HPV), possuem uma gama de possíveis apresentações. Elas podem ser verrucosas e brancas, mas a cor pode ser vermelha, cinza ou marrom, não havendo uma aparência clínica patognomônica. O líquen escleroso, o líquen plano, o condiloma acuminado e, claro, o condiloma plano podem mimetizar a HSIL da vulva e são importantes diagnósticos diferenciais a serem levados em consideração.

Uma ou mais biópsias devem ser realizadas se a suspeita de malignidade é grande. No entanto, caso a biópsia seja negativa, é comum ficarmos totalmente perdidos quanto ao próximo passo. Nesse caso, podemos suspeitar de sífilis secundária e pedir as sorologias adequadas. Caso confirmado o diagnóstico, as lesões tendem a sumir rapidamente após o tratamento adequado.

Assim, precisamos lembrar, pensar, reconhecer e falar sobre condiloma plano. Não só pelo aumento do número de casos nos últimos anos, mas também para realizar um bom e correto diagnóstico diferencial com as outras lesões vulvares. O diagnóstico precoce desta doença resulta em menor taxa de transmissão, algo que todos os países do mundo tentam alcançar.

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Referências bibliográficas:

  • Syphilis: Epidemiology, pathophysiology, and clinical manifestations in HIV-uninfected patients. Charles B Hicks, MDMeredith Clement, MD. UpToDate – acesso em outubro/2019;
  • Vulvar lesions: Diagnostic evaluation. Lynette J Margesson, MD, FRCPC, FAADHope K Haefner, MD. UpToDate – acesso em outubro/2019.
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Publicado por
Fernando Barros

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