Prematuridade e o maior risco de apendicite no primeiro ano de vida

Estudo analisou pacientes com menos de 1 ano de idade com diagnóstico de apendicite confirmada por cirurgia ou necrópsia e sua relação com a prematuridade.

Infelizmente, a prematuridade está associada a morbidade e mortalidade significativas: as complicações do parto prematuro resultam em, aproximadamente, 1 milhão de óbitos entre crianças com menos de 5 anos de idade, sendo, portanto, a principal causa de mortalidade nessa faixa etária.

Leia também: Progesterona vaginal em gestações gemelares para prevenir prematuridade

A emergência cirúrgica abdominal mais frequente em pediatria é a apendicite. Lactentes raramente apresentam apendicite, representando somente 0,1% a 0,34% de todos os casos em pediatria. Dessa forma, o diagnóstico e o tratamento tardios são quase certos. Portanto, a apendicite infantil continua a ser uma condição potencialmente fatal, com taxas de mortalidade relatadas na literatura de 78% no período de 1901 a 1975 e de 23% de 1990 a 2014.

Bebês prematuros são suscetíveis a infecções devido à imaturidade de seu sistema imunológico em desenvolvimento. Dessa forma, acredita-se que eles possam apresentar um risco elevado de apendicite. No entanto, a associação potencial entre prematuridade e apendicite infantil ainda não havia sido explorada e foi o objetivo de um recente estudo chinês publicado no periódico Pediatrics.

Prematuridade e o maior risco de apendicite no primeiro ano de vida

Metodologia do estudo sobre prematuridade e apendicite

Foi conduzido um estudo de caso-controle retrospectivo, multicêntrico e pareado, sendo incluídos pacientes consecutivos, admitidos entre dezembro de 2007 e maio de 2023, com menos de 1 ano de idade com diagnóstico de apendicite confirmada por cirurgia (apendicectomia, laparotomia, laparotomia exploradora) ou necrópsia.

Os critérios de exclusão foram:

  1. Achado intraoperatório de um apêndice de aparência normal;
  2. Achados patológicos não consistentes com apendicite;
  3. Casos com inflamação abdominal difusa nos quais não se sabe se a apendicite foi a causa primária;
  4. Enterocolite necrosante (necrotizing enterocolitis – NEC) comórbida;
  5. Diverticulite de Meckel comórbida;
  6. Doença de imunodeficiência comórbida ou malignidade.

Para cada caso, 10 controles saudáveis foram selecionados de um grupo com mais de 10.000 bebês saudáveis ambulatorialmente. Os controles foram selecionados aleatoriamente e pareados por idade. Os critérios de exclusão incluíram história de apendicite aguda ou crônica, história de fecálito apendicular e doença de imunodeficiência ou malignidade. Por fim, os bebês foram categorizados como neonatos (0 a 28 dias) ou bebês mais velhos (> 28 dias e < 1 ano).

Resultados

Foram incluídos:

  • 106 bebês com diagnóstico de apendicite com idade mediana de 2,4 meses, sendo 33 do sexo feminino (31,1%) e 73 bebês do sexo masculino (68,9%). Houve 39 casos no “grupo neonatal” e 67 no “grupo de bebês mais velhos”;
  • 1.060 bebês controles saudáveis de mesma idade, com idade mediana de 2,4 meses, sendo 492 do sexo feminino (46,4%) e 568 bebês do sexo masculino (53,6%).

Na análise univariada, os fatores associados a um maior risco de apendicite no primeiro ano de vida foram:

  • Prematuridade (odds ratio [OR], 4,23; intervalo de confiança de 95% [IC 95%], 2,67–6,70);
  • Sexo masculino (OR, 1,91; IC 95%, 1,25–2,94);
  • Escore z de peso para idade (OR, 0,72; IC 95%, 0,64–0,81);
  • Bebês alimentados exclusivamente com fórmula (OR, 2,95; IC95%, 1,77–4,91).

Nas análises multivariadas, a prematuridade permaneceu significativamente associada à apendicite (OR ajustado, 3,32; IC95%, 1,76–6,24).

A análise de subgrupo mostrou que uma história de nascimento prematuro aumentou o risco de apendicite tanto no “grupo neonatos” (OR ajustado, 4,56; IC 95%, 2,14–9,71) quanto no “grupo de bebês mais velhos” (OR ajustado, 3,63; IC 95%, 1,72–7,65). No entanto, a prematuridade não influenciou significativamente a incidência de perfuração apendicular (OR = 0,79; IC 95%, 0,32-1,91).

Saiba mais: Prematuridade tardia é fator de risco para desenvolvimento neurológico?

Conclusões 

O estudo demonstrou que bebês prematuros apresentam risco aumentado de apendicite durante o primeiro ano de vida. Consequentemente, uma história de prematuridade deve ser considerada no algoritmo diagnóstico de apendicite infantil. No entanto, conforme descrito pelos pesquisadores, estudos futuros são necessários para ampliar o conhecimento da apendicite infantil e promover o diagnóstico oportuno.

Comentários sobre prematuridade e apendicite

A associação entre prematuridade e apendicite em bebês com menos de 1 ano é um tema relevante e desafiador na pediatria. Bebês nascidos prematuramente frequentemente apresentam sistemas imunológicos menos desenvolvidos e órgãos imaturos, aumentando sua vulnerabilidade a diversas condições de saúde. A apendicite pode ser particularmente preocupante nesse grupo, pois os sintomas podem ser difíceis de identificar em bebês tão pequenos. O desafio diagnóstico reside na dificuldade de reconhecimento precoce dos sinais clínicos, muitas vezes mascarados por outros desconfortos comuns em neonatos e lactentes. Portanto, profissionais de saúde devem estar atentos a qualquer sinal de desconforto abdominal, irritabilidade persistente ou alterações no padrão alimentar, considerando a possibilidade de apendicite para garantir diagnóstico e tratamento adequados.

Avaliar artigo

Dê sua nota para esse conteúdo

Selecione o motivo:
Errado
Incompleto
Desatualizado
Confuso
Outros

Sucesso!

Sua avaliação foi registrada com sucesso.

Avaliar artigo

Dê sua nota para esse conteúdo.

Você avaliou esse artigo

Sua avaliação foi registrada com sucesso.

Baixe o Whitebook Tenha o melhor suporte
na sua tomada de decisão.
Referências bibliográficas: Ícone de seta para baixo
  • Liu Yakun, et al. Preterm Birth and Infantile Appendicitis. Pediatrics. 2023;152(6):e2023063815. DOI: 10.1542/peds.2023-063815

Especialidades