Pediatria

Presença de edema retrofaríngeo e cervicalgia em crianças com MIS-C

Tempo de leitura: 3 min.

Um estudo publicado no Journal of the Pediatric Infectious Diseases Society mostrou que os sintomas cervicais são uma manifestação relativamente frequente da síndrome inflamatória multissistêmica em pediatria (multisystem inflammatory syndrome in children – MIS-C). Além disso, os pesquisadores descreveram que a inflamação retrofaríngea foi observada em associação à síndrome. 

Leia também: Podemos utilizar corticoides na síndrome inflamatória multissistêmica em pediatria?

Tome as melhores decisões clinicas, atualize-se. Cadastre-se e acesse gratuitamente conteúdo de medicina escrito e revisado por especialistas
Cadastrar Login

Metodologia

O estudo consistiu na identificação de crianças com diagnóstico de MIS-C no período entre março de 2020 e 20 de janeiro de 2021 no Children’s Healthcare of Atlanta, composto por três hospitais infantis independentes na região metropolitana de Atlanta, Estados Unidos. Alguns pacientes em março e início de abril de 2020 foram diagnosticados retrospectivamente após a definição do caso ter sido estabelecida. A partir de maio de 2020, a equipe multidisciplinar começou a manter um banco de dados de pacientes com diagnóstico de MIS-C, coletados prospectivamente. Os casos foram identificados por meio de vigilância ativa diária usando a definição de caso do Centers for Disease Control and Prevention (CDC). 

Os pesquisadores identificaram 137 pacientes com diagnóstico de MIS-C. Entre eles, 39 (28,5%) apresentaram sintomas cervicais. Destes, 38 tiveram cervicalgia. Trismo ocorreu em três pacientes e 5 pacientes manifestaram salivação ou disfagia. Doze pacientes foram submetidos a exames de imagem do pescoço, incluindo tomografia computadorizada (TC, n = 8), ultrassom (n = 2), ressonância magnética (RNM, n = 1) e/ou radiografia simples (n = 2). No geral, os pacientes com cervicalgia foram mais propensos a ser mais velhos (mediana de 10 anos de idade vs 8 anos – P = 0,029) e a serem submetidos à punção lombar (P = 0,035). Entre os pacientes que realizaram imagens do pescoço por TC e/ou RNM, quatro demostraram evidências de edema/inflamação retrofaríngea.

Os pesquisadores descreveram que todos os pacientes desta coorte que tiveram edema retrofaríngeo foram tratados com antimicrobianos e outro tratamento anti-inflamatório. Todavia, destacaram que essas observações repetidas podem indicar que o edema retrofaríngeo associado a MIS-C é de natureza inflamatória ao invés de infecciosa, e que antibioticoterapia pode não ser necessária. É importante lembrar que a presença de edema retrofaríngeo foi documentada também na doença de Kawasaki, e essa fisiopatologia exata não é clara, porém uma hipótese é que pode estar relacionado à inflamação e permeabilidade vascular no espaço retrofaríngeo. As infecções retrofaríngeas supurativas são mais frequentes em crianças com idades entre dois e quatro anos, pois nessa fase, há regressão de linfonodos. Os pesquisadores observaram que todos os casos de MIS-C com edema retrofaríngeo relatados no estudo tinham idade igual ou superior a quatro anos, o que é incongruente com a distribuição epidemiológica típica da infecção retrofaríngea purulenta. Por fim, os pesquisadores destacaram que, entre os pacientes com MIS-C admitidos no Children’s Healthcare of Atlanta, uma alta porcentagem que manifestou cervicalgia recebeu antimicrobianos, mas não tiveram maior probabilidade de receber antibioticoterapia prolongada.

Resultados

Esse estudo mostra que os sintomas cervicais são uma manifestação relativamente frequente na MIS-C e podem ser considerados um sistema clínico distinto associado ao seu diagnóstico. Além disso, a inflamação retrofaríngea foi também observada em associação com a síndrome.

Saiba mais: Whitebook: como abordar a síndrome inflamatória multissistêmica relacionada à Covid-19?

Esse é mais um estudo que mostra manifestações clínicas variadas e relacionadas a MIS-C em crianças, quadro que ocorre tardiamente após a exposição ao vírus SARS-CoV-2. Apesar de termos evidências de que o quadro clínico da Covid-19 tende a ser mais ameno em pacientes pediátricos, crianças e adolescentes não estão imunes, mesmo em fase tardia. O diagnóstico de Covid-19/MIS-C deve ser sempre aventado, especialmente nesse momento em que ainda não há um controle global da pandemia. Resumindo: devemos nos lembrar de pensar “covidamente”. 

Autor(a):

Referências bibliográficas:

  • Jenkins E, Sherry W, Smith AGC, et al. Retropharyngeal Edema and Neck Pain in Multisystem Inflammatory Syndrome in Children (MIS-c) [published online ahead of print, 2021 Jun 26]. J Pediatric Infect Dis Soc. 2021;piab050. doi: 10.1093/jpids/piab050.
Compartilhar
Publicado por
Roberta Esteves Vieira de Castro

Posts recentes

Dia nacional de conscientização sobre retinoblastoma: o que eu preciso saber sobre esse tumor?

Dia 18 de setembro é o Dia Nacional de Conscientização e Incentivo ao Diagnóstico Precoce…

48 minutos atrás

Whitebook: Dia Mundial da Sepse

Em nossa publicação semanal de conteúdos compartilhados do Whitebook Clinical Decision vamos fazer a apresentação…

5 horas atrás

Origens e fundamentos da MBE – Parte 1: Relação entre o tratamento precoce com antibióticos para sepse e ida à feira

Nesse artigo, vamos analisar mais detalhadamente o primeiro princípio fundamental da medicina baseada em evidências…

7 horas atrás

Infecção puerperal e sepse materna: um evento prevenível?

A sepse puerperal é cinco causas mais frequentes de morte materna no mundo, sendo responsável…

21 horas atrás

Podcast Integrado: O papel do SUS para o profissional de saúde [podcast]

Confira o podcast dos canais da PEBMED sobre o papel do SUS para o profissional…

22 horas atrás

O que pode te ajudar no tratamento do paciente séptico?

Como manejar o paciente séptico do ponto de vista hemodinâmico ao longo das próximas horas…

23 horas atrás