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Prevenção quaternária: você sabe o que é?

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O termo prevenção quaternária (P4) foi utilizado pela primeira vez em uma conferência da organização mundial de médicos de família (WONCA), em 1995, por Marc Jamoulle. Após quatro anos foi adotada a definição da P4 e esta foi publicada no dicionário WONCA da seguinte forma: “ação feita para identificar uma pessoa ou população em risco de supermedicalização, para protegê-los de uma intervenção médica invasiva e sugerir procedimentos científica e eticamente aceitáveis.” Esse conceito ganhou popularidade entre os médicos de família, entretanto não foi muito difundido nas outras especialidades médicas.

Se comparada com os outros tipos de prevenção, ela ocupa uma posição diferenciada. Um espaço onde a doença no paradigma anatomoclínico não existe, mas a pessoa apresenta sintomas e sente-se doente. O diagrama abaixo adaptado de Marc Jamoulle nos ajuda a compreender esse conceito:

Prevenção quaternária

Devemos ter cuidado para não reduzir o conceito de P4 à medicina baseada em evidências. Apesar desta estar incluída, a P4 é muito mais ampla pois o olhar sobre o indivíduo necessita ser integral. Ou seja, o indivíduo não deve ser reduzido ao biológico, seus componentes psíquico e social devem ser valorizados e consolidados dentro do campo da P4.

Compreendendo o conceito de P4, o próximo passo é entender como utilizá-la na nossa prática diária. Abaixo temos uma situação clínica que poderia ser conduzida de três formas diferentes dependendo do olhar do médico.

Um homem de 52 anos procura atendimento para solicitar exames de check-up e diz o seguinte: “Doutor(a), gostaria de fazer aquela bateria de exames para garantir a minha saúde. Sabe como é, faço exames anualmente e não me descuido. Ah, não deixe de pedir aquele da próstata.”

Nesse caso, três abordagens possíveis teriam desfechos completamente diferentes.

Uma delas poderia ser concordar com o paciente e solicitar os exames. Essa atitude poderia reforçar o hábito de realizar exames desnecessários gerando mais adoecimento, sobrediagnóstico e sobretratamentos.

Uma outra abordagem seria dizer para o paciente que ele não deveria realizar os exames, pois muitos estudos científicos garantem que o uso de exames desnecessários causam mais danos do que benefícios e por essa razão não solicitaria os exames. Nesse cenário, o médico parece ter domínio da medicina baseada em evidência, porém desconsidera o indivíduo como parte integrante de seu cuidado. A consulta é toda baseada no conhecimento do médico e a pessoa atua apenas como um expectador. Essa abordagem não consegue chegar no motivo real que trouxe o paciente ao consultório. Caso seja um motivo que gere medo ou ansiedade no paciente este não terá espaço para abordar esse sentimento.

A terceira abordagem seria o uso da P4 comprendendo o indivíduo na sua integralidade.. Nessa abordagem deveríamos procurar entender o que faz com que esse paciente pense dessa forma, o que ele entende por exames de rastreio, qual o seu conceito de saúde, quais são os seus medos e o que faz ele achar que apenas os exames podem gerar saúde. Dessa forma, juntando os conceitos mais atualizados da medicina com o saber do paciente poderíamos ter um novo plano na consulta. Esse plano conjunto iria gerar maior adesão pois seria uma conduta personalizada, nos moldes daquela pessoa.

Em nossa prática diária lidamos com situações onde a P4 deveria ser a base para o raciocínio clínico, onde a tomada de decisão deveria ser compartilhada com o paciente. Porém, muitas vezes, este acaba sendo negligenciado por uma medicina voltada para estudos científicos que não refletem a sua realidade. A cada novo dia surgem estudos baseados em uma medicina defensiva e o distanciamento entre o médico e o paciente é cada vez maior. Muitas publicações de sobrediagnóstico e sobretratamento são realizadas mas acabam sendo utilizados conceitos mais voltados para a medicina anatomoclínica.

Nesse sentido, o ato principal do médico que seria de cuidar da pessoa que lhe procura acaba sendo esquecido  e essa relação acaba se tornando superficial e baseada em evidências cruas que muitas vezes não respondem às necessidades dos nossos pacientes. A P4 ocupa exatamente esse lugar, onde a boa prática se alinha com o cuidado centrado no paciente, deixando de ser apenas uma medicina baseada em evidência e tornando-se uma medicina baseada na melhor evidência para aquela pessoa que você está acompanhando.

Veja também: ‘7 recomendações para melhorar a relação médico-paciente’

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