Ginecologia e Obstetrícia

Progesterona vaginal pode prevenir parto prematuro em mulheres com história prévia?

Tempo de leitura: 3 min.

Nos EUA a prevalência de parto prematuro diminuiu sistematicamente de 2007 a 2014, quando voltou a subir até 2019. Em 2020 essa prevalência diminuiu para 10,09%, a primeira queda desde 2014. As estimativas globais mais recentes mostram 14,8 milhões de nascimentos prematuros (10,6% de todos os nascimentos) em 2014. Em 2019, as complicações de partos prematuros lideraram as causas de morte de crianças de até 5 anos de idade ao redor do mundo, respondendo por 17,7% de todas as mortes e 36,1% das mortes neonatais. Além disso, os prematuros que sobrevivem têm risco maior de complicações precoces, deficiências no desenvolvimento neurológico, doenças crônicas na idade adulta e mortalidade na entrada da meia idade.

O trabalho de parto prematuro é uma síndrome complexa envolvendo processos inflamatório/infeccioso, hemorragia decidual e doença vascular, sobredistensão uterina, doença cervical, ruptura da tolerância materno-fetal, envelhecimento placentário, processos mediados pelo sistema imunológico, estresse materno e diminuição na ação da progesterona. Assim, uma intervenção única não é capaz de prevenir ou tratar todos os casos de parto prematuro.

Saiba mais: Parto prematuro: usar ou não progesterona?

Mulheres com antecedente de parto prematuro tem 2,5-4 vezes mais chance de recorrência. Em 2017 uma metanálise com 32 estudos e mais de 55 mil mulheres com pelo menos um parto prematuro tiveram 30% aumento de recorrência de novo parto prematuro. R: Ocorrências em geral acontecem na mesma idade gestacional do parto prévio, aumenta também quanto maior o número de partos prematuros prévios.

Recomendações da ACOG

Desde 2003 o ACOG (American College of Obstetricians and Gynecologists) recomenda o uso de caproato de progesterona para pacientes com antecedente de parto prematuro espontâneo prévio em gestações únicas. Em 2021, em sua atualização, acrescentaram a indicação de progesterona vaginal ao caproato, endossados pela Society for Maternal-FEtal Medicine (SMFM). A recomendação baseou-se numa metanálise de 31  trials de progesterona vaginal que mostraram redução do risco de parto <34 semanas, sem no entanto analisar os resultados separados em subgrupos de mulheres com gestações únicas e história de parto prematuro concomitante. Assim, para assegurar a eficácia e segurança da progesterona vaginal nesse grupo específico também, um novo estudo seria necessário.

Uma nova atualização publicada em 20 de abril de 2022 pelo ACOG trouxe uma revisão sistemática e metanálises com o uso de progesterona vaginal para avaliação da eficácia e segurança na prevenção de partos prematuros e efeitos adversos perinatais em mulheres assintomáticas com antecedente de parto prematuro.

Um total de 10 estudos foram incluídos (amostra de 2958 mulheres) com 9 estudos em inglês e um em persa.. Foram excluidas mulheres com uso de progesterona no primeiro trimestre por ameaça de aborto e mulheres com colo curto no USG de modo a analisar somente o binomio parto prematuro prévio e nova gravidez. Os desfechos do estudo foram partos <37 semanas e <34 semanas e desfecho secundário partos <28 semanas que necessitam de tocólise, corticoterapia, cesária, quaisquer eventos adversos maternos, descontinuidade da medicação por efeitos adversos, RUPREME (amniorrexe prematura), pré eclâmpsia, hipertensão gestacional, diabetes mellitus gestacional, síndrome estresse respiratório, enterocolite necrotizante, hemorragia intraventricular, morte fetal, neonatal ou perinatal , peso ao nascimento <1500g e <2500g e desenvolvimento neurológico na infância.

Nos 10 estudos, 7 eram estudos pequenos (menos de 150 mulheres na amostra) e outros 3 com amostra maior (mais de 600 mulheres). Todos os 7 estudos tiveram problemas com erros de alto risco (4), dois com erros de preocupação e somente um com erro de baixo risco. Todos os estudos maiores tinham erros de baixo risco. Concluem o estudo mostrando que a progesterona vaginal não demonstrou evidências claras de diminuir o risco de recorrência de parto prematuro em gestações <37 semanas (RR 0,96; IC95%, 0,84 – 1,09) nem <34 semanas (RR 0,90; IC95%, 0,71 – 1,15). Mesmo utilizando-se os estudos com maiores taxa de vieses de seleção, intervenção ou preocupação (aplicando ajustes estatísticos nos erros) eles mantém redução na incidência mas não estatisticamente significativa para gestação <37 semanas (RR 0,86; IC 95%, 0,68 – 1,10) ou gestações <34 semanas (RR 0,92; IC 95%, 0,60 – 1,42).

Em resumo, a progesterona vaginal deveria ser oferecida às pacientes com gestações únicas e história de parto prematuro somente se elas tiverem diagnóstico de cérvice curto (≤ 25mm) no segundo trimestre de gestação.

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Publicado por
João Marcelo Martins Coluna

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