Enfermagem

Psicofobia: O que podemos fazer para que haja mudança social?

Tempo de leitura: 3 min.

De certo, o número de pessoas com sofrimento psíquico vem aumentando na sociedade. O que parece não melhorar é a relação das pessoas com o afastamento da razão ou o estabelecimento do adoecimento mental. A psicofobia é um termo que possui seu significado ligado ao preconceito contra pessoas que possui graves sofrimentos psíquicos, principalmente aquelas que possuem transtornos mentais. O termo tem sido utilizado para discutir o preconceito das pessoas relacionando a um duplo sofrimento, aquele que advêm da doença e aquele nascido no preconceito. No ano de 2018, uma campanha da Associação Brasileira de Psiquiatria expôs o problema que já acontecia desde os primórdios da loucura, o preconceito. O estigma pode ser visto de muitas formas, mas aqui vamos tratar como um processo depreciativo que gera o afastamento da pessoa do meio social ou grupo dominante.

Saiba mais: Dia Nacional da Luta Antimanicomial

As problemáticas da psicofobia

A doença mental gera vários problemas as pessoas, mas sem dúvida a falta de acolhimento da sociedade e materializada no capacitismo e na construção de estigmas são os piores danos. Esses não são gerados pela doença, mas pelas pessoas que excluem todos que são diferentes e que se afastam da razão, condição fundamental para a prática da produção e da manutenção da sociedade, segundo a lógica do produtivismo. Este conceito de desenvolvimento exclui os que produzem parcialmente ou que por causa da doença podem inclusive ficar temporariamente ou totalmente afastados de atividades laborais/instrumentais. Hoje sabemos que o estigma esta presente no mundo inteiro, mas alguns países desenvolvidos criaram melhores dispositivos para lidar com esse problema que gera inclusive o afastamento dessas pessoas ao tratamento, a escola, ao trabalho, da família.

A psicofobia é um movimento histórico-social-cultural que possui relação com diversas questões de nossa sociedade. Por muito tempo em culturas politeístas a loucura não era vista, em algumas sociedades como algo negativo. O cristianismo trouxe os fundamentos de ligação da loucura como algo negativo, uma vez que se ligava a perturbação negativa de demônios ou espíritos. A falta da ciência contribuiu para que por muito anos esse conceito se estabelecesse na sociedade ocidental. Considerado pai da psiquiatria, o médico, Philipe Pinel propôs o primeiro movimento de cuidado, no entanto levaram-se muitos anos até que diversas reformas psiquiátricas pudessem retirar pessoas de prisões. Na década de 1970, com Franco Baságlia, tivemos um modelo que inspirou todo mundo, com ações de cuidado que objetivava a volta dos ditos alienados para a vida em sociedade. Esse ato chocou ao mundo mas se efetivou nos anos seguintes.

A despeito da evolução do cuidado, há certeira evolução. No entanto, o estigma social transcende um local ou espaço físico, antigos manicômios, mas se estende às pessoas que lá já foram colocadas. A exclusão muitas vezes não está em um movimento de levar uma pessoa para um espaço físico que represente exclusão ou prisão. Está no ato de excluir mesmo quando a pessoa permanece em liberdade espacial. Digo espacial, pois uma pessoa com transtorno mental pode ficar aprisionada pela falta de afeto, respeito, pelo crivo do capacitismo, pelo desamparo, pela falta de oportunidade, pela falta de assistência social, pela dificuldade de fazer amigos, pela exclusão diária, que mata e leva pessoas com diagnóstico de doença mental a serem o público mais vulnerável para o suicídio no mundo. Todos nós já sofremos algum tipo de exclusão e nunca será bom, se sentir menos potente do que pode ser.

Atuação da enfermagem contra a psicofobia

Enquanto enfermeiro, aprendemos que esse assunto é de grande relevância. Mas afinal, o que podemos fazer para ter uma sociedade que promova no encontro o bem estar das pessoas e não a violência, o ódio e a exclusão? Bom, podemos começar pela educação. Quando geramos um movimento de exclusão, estamos assumindo enquanto sociedade que não queremos conhecer e que não estamos aptos a mudanças de pensamento. Depois, é importante que haja um projeto de Estado que se preocupe verdadeiramente com as pessoas. Nessa medida, pessoas com grave sofrimento psíquico não estariam vulneráveis a terem menos espaços de discussão, de voz e de compartilhamento a nível sistêmico de suas dificuldades e do capacitismo, que reduz a pessoa a uma condição, na redução da capacidade do fazer. Precisamos ainda que a mídia coloque essa discussão em pauta, trazendo informações que façam com que as pessoas sejam parte do sistema de saúde ou de cuidado, e não uma adversária, ou quase que um dos piores “sintomas” da doença.

Leia também: Enfermagem e a crise psiquiátrica: como é o atendimento?

As instituições educacionais precisam se preparar para trabalhar as questões de adoecimento psíquico e de promoção à saúde mental, objetivando assim, que não haja barreiras no serviço de saúde, para usuários com sofrimento psíquico ou transtorno mental. Uma política complexa e multifacetada precisa ser imposta, agregando tudo que já existe, efetivando melhores práticas humanas na sociedade e com isso, podemos ter melhores condições para que pessoas com transtornos mentais possam viver em sociedade e na sociedade. Aqueles ainda que forem céticos sobre esse aspecto, lembre-se algumas doenças mentais, vigoram como endemias e não se solidificam desta forma em dados, pois o lugar da exclusão é tão temido que pessoas com sofrimento mental, passam por viver a doença de forma solitária, com medo do diagnóstico que pode trazer graves consequências, conhecidas por todos nós, onde ficariam em um lugar de exclusão e sofrendo com graves estigmas sociais.

Autor:

Referências bibliográficas:

  • GiupponiI, L. Combate à Psicofobia: A Conscientização do Preconceito Através de Testemunhos e Emoções. Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação 43º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – VIRTUAL – 1º a 10/12/2020.
  • Menezes Neto, JB de.; et.al. O estigma da doença mental entre estudantes e profissionais de saúde. Pesquisa, Sociedade e Desenvolvimento , [S. l.] , v. 10, n. 3, pág. e8310312899, 2021. DOI: 10.33448 / rsd-v10i3.12899.
  • Feitosa L. C. Arilo L.de M. C. É preciso falar: prevenção e promoção de saúde mental em uma unidade básica de saúde. Universidade Federal do Piauí (UFPI)- UNASUS – 2020.
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Publicado por
Rafael Polakiewicz

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