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Quais condições clínicas podem interferir no resultado da hemoglobina glicada?

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A hemoglobina glicada (HbA1c) é um dos mais importantes exames laboratoriais no contexto do diabetes e da síndrome metabólica, sendo um parâmetro muito fidedigno na avaliação do controle glicêmico. É utilizada tanto para o rastreio, quanto para o diagnóstico, seguimento, monitorização do tratamento e predição de complicações da doença.

O que exatamente é a hemoglobina glicada?

A glicação de proteínas é um processo bioquímico natural, não enzimático, no qual um açúcar liga-se a uma proteína de modo estável. Quando essa ligação se dá entre a molécula de glicose e o aminogrupo aminoterminal da cadeia beta da hemoglobina, dá-se o nome de hemoglobina glicada.

A glicose, por se ligar de maneira irreversível e contínua à cadeia da hemoglobina, possui uma relação direta entre sua concentração e os níveis de HbA1c. Tendo em vista que a meia-vida média das hemácias em condições fisiológicas é de 90 a 120 dias, a HbA1c corresponde a concentração média das glicemias dos últimos 3 meses (+- 1 mês). Apesar disso, o resultado da HbA1c é mais influenciado pela glicemia média dos últimos 30 dias precedentes ao exame (50% do valor total).

É importante salientar que, para que possamos confiar e utilizar clinicamente os resultados fornecidos da HbA1c, devemos atentar para alguns fatores:

  • O método analítico e kit diagnóstico que o laboratório clínico usa em sua rotina para a determinação da A1c deve ser certificado pelo National Glycohemoglobin Standardization Program (NGSP), possuindo rastreabilidade de desempenho analítico ao método utilizado no estudo Diabetes Control and Complications Trial (DCCT) e no United Kingdom Propective Diabetes Study (UKDPS);
  • O laboratório clínico deve participar de programas de controle interno e externo da qualidade (ensaios de proficiência).

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Quais as condições (biológicas e analíticas) que podem interferir nos resultados?

  • Etnia: os brancos não hispânicos costumam ter níveis mais baixos de HbA1c, quando comparados aos negros afro-americanos;
  • Idade: os níveis de HbA1c tendem a aumentar, de maneira sutil, com a idade;
  • Variabilidade glicêmica: indivíduos que possuem uma grande variabilidade glicêmica diária (ampla alternância entre hiper e hipoglicemias) podem apresentar resultados de HbA1c dentro dos limites da normalidade, refletindo, porém, uma situação de falsa normalidade.

Condições que diminuam a meia-vida, o número de hemácias e/ou o processo de glicação, promovem uma diminuição do valor real da HbA1c:

  • Anemias hemolíticas, estados hemorrágicos, gravidez, comprometimento da medula óssea, deficiência de eritropoietina, drogas (dapsona, antirretrovirais);
  • Altas concentrações das vitaminas C e/ou E podem inibir a glicação da hemoglobina.

Causas de aumento real da HbA1c:

  • Anemias por deficiência de ferro, ácido fólico ou vitamina B12;
  • Uremia (hemoglobina carbamilada), uso de salicilatos (hemoglobina acetilada);
  • Hiperbilirrubinemia, alcoolismo crônico, hipertriglicereidemia;
  • Uso crônico de opiáceos;
  • Condições que aumentem o hematócrito e/ou o número de glóbulos vermelhos.

A depender da metodologia utilizada, as variantes de hemoglobinas heterozigóticas (ex.: D, C, E, S, etc.) bem como em pacientes com altos níveis de hemoglobina fetal (F), podem apresentar falsos aumentos, diminuições, ou não interferir na determinação da HbA1c. A fração lábil da hemoglobina glicada (base de Schiff), também pode interferir nos resultados, em algumas metodologias.

Leia também: Hematoscopia: saiba a ordem correta de liberação dos leucócitos no laudo

Conceitualmente, nas hemoglobinopatias homozigóticas, ocorre a ausência de hemoglobina A. Desse modo, a determinação da HbA1c não é aplicável nesses pacientes, devendo-se avaliar o controle glicêmico por outros exames alternativos, como a frutosamina.

Mensagem final

Sempre que as concentrações da HbA1c não se correlacionarem satisfatoriamente com as condições clínicas do paciente, o médico assistente deve suspeitar de algum interferente biológico/analítico. Nesses casos, é imprescindível a interação do médico assistente com o laboratório clínico, na pessoa do médico patologista clínico, com a finalidade de que juntos, possam chegar a uma conclusão satisfatória.

Autor:

Referências bibliográficas:

  • American Diabetes Association: Standards of Medical Care in Diabetes – 2017. Diabetes Care 2017; 40 (Suppl. 1):S1-S135.
  • DCCT Research Group. Diabetes Control and Complications Trial (DCCT). The effect of intensive treatment of intensive treatment of diabetes on the development and progression of long-term complications in insulin-dependent diabetes mellitus. N Engl J Med. 1993; 329:977- 986.
  • Henry JB. Diagnósticos Clínicos e Tratamento por Métodos Laboratoriais. 20ª ed. São Paulo: Editora Manole, 2008.
  • Jacobs DS, Demott WR, Oxley DK. Jacobs & demott laboratory test handbook with key word index, 5th ed. Hudson, OH: Lexi-Comp, Inc; 2001.
  • Kanaan S. Laboratório com interpretações clínicas. 1a ed. Rio de Janeiro: Atheneu; 2019.
  • Posicionamento Oficial SBD, SBPC-ML, SBEM e FENAD 2017/2018. Atualização sobre hemoglobina glicada (A1C) para avaliação do controle glicêmico e para o diagnóstico do diabetes: Aspectos Clínicos e Laboratoriais.
    SBPC/ML. Recomendações da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial (SBPC/ML): fatores pré-analíticos e interferentes em ensaios laboratoriais. 1.ed. Barueri: Manole, 2018.
  • UK Prospective Diabetes Study Group: intensive blood glucose control with sulphonylureas or insulin compared with conventional treatment and risk of complications in patients with type 2 diabetes. Lancet 1998; 352:837-853.

Um comentário

  1. Avatar
    RICARDO SOUTO

    Muito importante este texto.

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