Quais são as manifestações oftalmológicas associadas à hepatite C?

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A infecção por hepatite C é bastante comum em nosso meio, tendo uma prevalência heterogênea nas diferentes regiões. Entre 2-3% da população mundial é portadora do vírus. A incidência ao longo dos anos diminuiu por causa da regulamentação da transfusão de sangue na grande maioria dos países. Nos EUA e na maioria dos países industrializados, as práticas de compartilhamento em usuários de drogas intravenosas é o principal mecanismo de transmissão. Procedimentos invasivos, exposição ocupacional, transmissão vertical e transmissão sexual são outros mecanismos. No Brasil procedimentos hospitalares são os principais fatores de risco para novas infecções.

Hepatite e doenças oculares

O primeiro sítio oftalmológico de manifestação da doença é a superfície ocular e o principal achado é a ceratoconjuntivite seca. Vários estudos mostram alta frequência de síndrome do olho seco. Outras manifestações são ceratite, esclerite e retinopatias. A patogênese é via ação direta do vírus e  via reações imunológicas a antígenos virais e imunocomplexos.

As alterações da superfície ocular no HCV são descritas há decadas. Haddad et al. demonstrou alterações em 57% dos pacientes com HCV X 5% dos controles. Existe também associação entre envolvimento da glândula salivar com confirmação histológica de síndrome de Sjogren relacionada ao HCV. Gomes et al. detectaram doença de superfície ocular em pelo menos um dos olhos em 88% dos pacientes infectados, com alterações na coloração com rosa bengala e no teste de tempo de ruptura do filme lacrimal (BUT), além da alteração da sensibilidade corneana.

Leia maisHepatite C: antivirais de ação direta reduzem risco de hepatocarcinoma e morte?

Outra alteração associada à infecção por HCV é a presença de ulceração corneana periférica (úlcera de Mooren). A melhora clínica da úlcera de Mooren durante o tratamento para hepatite C também sugere a associação entre as duas condições. A relação entre hepatite C e ceratite é controversa, mas muitos pesquisadores sugerem que pacientes sem doenças reumatológicas mas com reação inflamatória significativa na córnea periférica sejam testados para infecção por HCV.

Em relação as alterações da retina, Abe et al. reportaram retinopatia em 31.8% dos casos com HCV X apenas 6% dos controle. As alterações incluem hemorragias retinianas e manchas algodonosas, ambas atribuídas à isquemia que pode ser associada à vasculite sistêmica induzida pela infecção e obstrução arterial por leucoagregados. Alguns tumores orbitais e oculares como o linfoma de glândulas lacrimais e o plasmacitoma orbital são associados ao HCV. O linfoma de anexos oculares, um subtipo de linfoma MALT, também é associado.

Conclusão

O conhecimento das manifestações do HCV nos olhos pode auxiliar na detecção precoce da infecção. É portanto extremamente importante suspeitar precocemente das alterações descritas para que seja feito o diagnóstico e instituído o tratamento precoce.

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Autor:

Referências:

  • Romero Henrique Carvalho Bertrand1, Adriana Leite Xavier Bertrand2, Thais Mota Gomes3,. An eye on hepatitis C: a review. O olho na hepatite C: uma revisão. Arq Bras Oftalmol. 2019;82(2):161-7.
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Publicado por
Juliana Rosa

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