Medicina Laboratorial

Qual a influência dos fatores pré-analíticos nas concentrações da testosterona total em homens?

Tempo de leitura: 3 min.

A testosterona é o principal e mais abundante hormônio androgênico circulante. Ele é sintetizado e secretado pelas células de Leydig nos testículos, sob a regulação do hormônio luteinizante (LH) e do hormônio folículo-estimulante (FSH) que, por sua vez, são formados e liberados na hipófise anterior, por estímulo do hormônio liberador de gonadotrofina (GnRH) do hipotálamo. Nas mulheres, a maior parte da testosterona é proveniente do metabolismo da androstenediona, com uma menor parte sendo produzida pelas glândulas adrenais e ovários.

Esse hormônio está envolvido em diversos e importantes processos biológicos, como a regulação das funções reprodutivas dos homens (ex.: manutenção da espermatogênese, atividade sexual). Sua atividade androgênica também merece destaque, na medida em que possui papel chave no desenvolvimento das características sexuais secundárias masculinas (ex.: crescimento muscular, diferenciação sexual, crescimento de pelos, libido). 

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O estudo sobre testosterona e fatores pré-analíticos

Para se avaliar o impacto das variáveis pré-analíticas nas dosagens da testosterona, foi realizado um estudo prospectivo experimental. Após a exclusão de pacientes que, dentre outros motivos, faziam uso de testosterona exógena e seus derivados, o estudo foi realizado com uma amostra de 40 indivíduos do sexo masculino saudáveis, com idade entre 20 e 30 anos, na cidade de Barbacena, MG.

Quatro amostras foram coletadas em cada participante, sendo que três no inverno (uma no período da manhã em jejum de 8 horas, uma à tarde sem jejum, e a última no dia seguinte, também sem jejum), e uma cerca de 6 meses após a primeira coleta, no verão (pela manhã, com jejum de 8 horas). Dessa forma, conseguiu-se investigar as influências pré-analíticas causadas pelo jejum, da variação circadiana e da estação do ano nas concentrações da testosterona. 

Resultados

Quando se comparou as amostras coletadas no período da manhã, com e sem jejum de 8 horas, foi observado que a ausência de jejum influenciou negativamente nos níveis de testosterona, com uma redução média de 28% (p < 0,0001). Em relação ao ritmo circadiano, as coletas realizadas no período da tarde também apresentaram uma redução significativamente estatística (p < 0,0002), ao demonstrar uma diminuição de 22% das concentrações.

Já na comparação entre as coletas, em jejum, realizadas no inverno e no verão, não houve diferença estatística (p = 0,151) quanto às medianas dos níveis séricos de testosterona. Entretanto, esse resultado foi discordante de outros estudos publicados anteriormente, nos quais mostraram níveis mais baixos no verão. Os autores acreditam que, devido a pouca variação de temperatura e incidência solar observados entre as estações do ano no local do estudo (Barbacena, MG), essa variável pré-analítica sazonal não seja significativa na nossa região.

Mensagem final

Os fatores pré-analíticos são considerados, atualmente, a maior causa de erros laboratoriais, representando cerca de 70% das inadequações dos resultados dos exames. As concentrações séricas de testosterona são fundamentais para o diagnóstico e acompanhamento de distúrbios neuroendócrinos (em homens e mulheres), bem como na monitorização da terapia de reposição hormonal.

Uma falta de padronização para a sua coleta, pode levar a diagnósticos e tratamentos incorretos e desnecessários, podendo trazer consequências danosas aos pacientes. Indivíduos saudáveis, por exemplo, podem ser classificados erroneamente com hipogonadismo, quando consideramos o valor de corte de testosterona total < 300 ng/mL, em duas medições em momentos distintos.

Leia também: Testosterona aumentada após a menopausa: o que devemos saber?

Portanto, nota-se a importância da padronização, por parte dos Laboratórios Clínicos, da coleta desse exame, sendo sugerida que a amostra seja coletada no período da manhã, com jejum de pelo menos 8 horas. Dessa forma, conseguimos mitigar a influência das variáveis pré-analíticas, tornando o resultado da testosterona total mais fidedigno e condizente com o quadro clínico do paciente. 

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Referência bibliográfica:

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Publicado por
Pedro Serrão Morales
Tags: testosterona

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