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Qual a melhor conduta cirúrgica na torção de ovário?

Tempo de leitura: 2 min.

A função ovariana no menacme é indiscutível, órgão responsável por produzir os hormônios estradiol e progesterona, que levam ao desenvolvimento dos caracteres secundários femininos, permitem a gestação, tem ação favorável no metabolismo ósseo e redução de osteoporose, além de atuarem na redução de risco cardiovascular nas mulheres. A torção anexial é responsável por aproximadamente 2,7% das emergências na ginecologia e seu tratamento é eminentemente cirúrgico para distorção, caso o diagnóstico não seja feito precocemente pode ocorrer necrose e perda do ovário e ou da tuba, além de peritonite e tromboflebite.

A suspeita da patologia deve ocorrer em mulheres com dor pélvica aguda, que pode ser acompanhada de náusea, febre e às vezes a paciente já refere antecedente de cisto ovariano, o que pode predispor à torção. Temos inicialmente um prejuízo do fluxo venoso e linfático, com edema e aumento do volume tecidual, mais tardiamente ocorre obstrução do fluxo arterial e necrose.

Os sintomas são inespecíficos e o primeiro exame solicitado em geral é a ultrassonografia transvaginal, porém a presença de fluxo sanguíneo no doppler não exclui completamente a patologia uma vez que a torção pode ser parcial ou intermitente.  O diagnóstico pré-operatório da torção no setor de emergência nem sempre é acurado (44-66% dos casos), a tomografia e principalmente a ressonância magnética também podem ajudar. E na suspeita de torção com exames inconclusivos, procede-se preferencialmente a laparoscopia para fechar diagnóstico e poder realizar o tratamento.

Leia também: Microbioma intestinal na síndrome dos ovários policísticos

Características do estudo

Estudo de coorte retrospectiva publicado este mês e realizado no Boston Medical Center ED buscou quais os fatores mais associados à realização de ooforectomia em pacientes entre 13 e 48 anos submetidas à cirurgia por suspeita de torção de ovário. Dos 54 casos avaliados, 42 (78%) confirmaram a suspeita de torção no intraoperatório e nenhuma das 12 pacientes sem torção foi submetida à ooforectomia. Das 42 pacientes com diagnóstico confirmado, apenas  17 (40%) foram tratadas de forma conservadora com distorção do anexo e cistectomia, enquanto as outras 25 (60%) foram submetidas à ooforectomia. Os fatores com maior risco de ooforectomia nestas pacientes no intraoperatório  encontrados pelos pesquisadores foram: idade mais avançada (média 32 anos para ooforectomia, enquanto 27 anos para ooforoplastia), maior paridade, volume ovariano maior no exame de imagem, via cirúrgica laparotômica e especialidade do cirurgião sendo onco-ginecologista.

Saiba mais: Vacinas e câncer de mama e ovário: o que precisamos saber

Outro dado interessante é que o anátomo-patológico em todos os casos de ooforectomia do estudo resultou em benignidade, sendo teratoma o diagnóstico mais prevalente e apenas 20% das peças apresentavam necrose. Este fato sugere que apenas a característica macroscópica da avaliação ovariana pelo cirurgião no intraoperatório é falha para determinar presença de necrose, assim como outros estudos já mostraram que ovários com característica escurecida durante a cirurgia recuperaram função após distorção.

Mensagem prática

A função ovariana não deve ser menosprezada e a análise do aspecto anexial no intraoperatório por torção não é fidedigna para avaliar necrose. Sempre que possível e na ausência de suspeita de malignidade, deve-se optar por ooforoplastia, pois a preservação deste órgão contribui para uma melhor saúde da mulher em idade reprodutiva.

Referências bibliográficas:

  • Michelis, L.D., et al. (2020) Factors Associated with Oophorectomy in Patients with Suspected Ovarian Torsion. Journal of Gynecologic Surgery. doi: 10.1089/gyn.2020.0087.
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Publicado por
Juliana Alves Pereira Matiuck Diniz

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