Página Principal > Colunistas > Qual é o papel do psicólogo na visita social em UTI?
Choosing Wisely

Qual é o papel do psicólogo na visita social em UTI?

Tempo de leitura: 5 minutos.

Muito se questiona sobre as reais funções do psicólogo na visita social em UTI. Outros membros da equipe de saúde tendem a imaginar que a função real do psicólogo é fazer orientações à família sobre os modos de comportamento desejáveis na UTI, de maneira que não haja situações desagradáveis durante a “invasão” da família à unidade.

Para boa parte dos profissionais de uma UTI, o momento mais tenso e menos desejado é a visita dos familiares. Trata-se de um momento no qual estranhos adentram aquele espaço, com alto nível de ansiedade, sede de informações, manifestações emocionais explícitas, atentos a todos os detalhes sobre o ambiente hospitalar.

Psicólogo na visita social da UTI

Dependendo da equipe, da formação e experiência dos profissionais que compõem o plantão, é difícil receber bem todos os questionamentos e inseguranças da família, e, por vezes, ali mesmo se estabelecem situações de atrito na relação. Mas então, de que forma organizar a dinâmica e realizar um acolhimento inicial básico, para que as famílias estejam menos ansiosas, mais orientadas sobre o funcionamento do ambiente e aptas a receber com mais atenção as informações sobre os pacientes?

Leia mais: Entenda o papel da equipe interprofissional e a psicologia hospitalar

O acolhimento anterior à visitação social na UTI tem três objetivos principais: orientação, psicoeducação e identificação de prioridades.

  • Orientação: Apesar de não se tratar de função específica da psicologia, acaba ficando a cargo do psicólogo realizar as orientações básicas sobre comportamentos exigidos e regras da unidade. Informações sobre a higienização das mãos, paramentação individual nas precauções (por contato, aerossóis ou gotículas), proibição da dispersão dentro da UTI, proibição do uso de celular a beira leito e demais regras institucionais que podem variar, são as primeiras orientações a serem repassadas, por serem aquelas julgadas como mais importantes, na visão da equipe. Isso porque utilização do celular, contato do visitante com múltiplos leitos sem higiene adequada, entrada sem uso de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), podem aumentar o índice de contaminação cuzada, riscos ao paciente imunossuprimido e à família, assim como expor o paciente a situações de constrangimento. A própria locomoção do visitante, do leito até o balcão assistencial, tira a privacidade da equipe, interfere na dinâmica de trabalho e torna-se um incômodo, por quebrar as rotinas assistenciais.
  • Psicoeducação: A família, no geral, chega à unidade perdida. Por ser um ambiente não rotineiro à sociedade geral, a UTI pode impressionar e assustar visitantes leigos, tanto pela imposição ambiental de restrição (portas travadas, monitorização extensa, máquinas de suporte), quanto pela própria gravidade que sugere o paciente crítico. Dentre as principais informações esperadas pelos familiares no acolhimento, estão as “possibilidades” durante a permanência na visita. Existe receio de se aproximar do paciente, de tocá-lo, de falar ele, de interagir, de esbarrar em algum aparelho, de algum alarme soar, de algum fio se soltar, ou qualquer outra coisa que possa prejudicar o paciente. Fantasias como estas acabam por criar uma barreira que impossibilita o contato genuíno, e o exercício da vinculação familiar ao paciente. Em decorrência disso, o afastamento físico estabelecido pelos horários rígidos de visitação tomam uma proporção ainda maior, prejudicando o paciente. Frente a isso, deve-se orientar a família na realização do contato físico, respeitando as particularidades de cada paciente, estimular a fala, a interação, mesmo em doentes sedados ou comatosos.
  • Identificação de prioridades: é durante o acolhimento pré-visita o primeiro contato do psicólogo com os familiares. Quando ainda não existe conhecimento prévio da família, nem formação de vínculo, o acolhimento é o momento que se pode perceber sobre comportamentos gerais dos visitantes. Durante o momento de orientações, é necessário observar mais atentamente as manifestações dos ouvintes. Existem pessoas que ouvirão atentamente, outras estarão conversando com o colega ao lado, outras estarão dispersas, emocionadas, abatidas, chorosas, ansiosas, angustiadas. Algumas ficam estáticas, outras se movimentam de modo contínuo e automático. Algumas pessoas podem estar impacientes, outras inseguras para adentrar. Todo tipo de manifestação é válida e muito nos diz sobre a condição da família. É no acolhimento pré-visita que passamos a identificar, o que nos espera em alguns minutos.

Considerando os familiares que já são conhecidos pela equipe, também é nesse momento que conseguimos estabelecer contato visual, sentir, perceber. E, do mesmo modo, eles também nos percebem, aprendem a identificar nossa comunicação não-verbal. Há situações de vinculação tão bem estabelecida, que pelo nosso olhar e expressão facial, os familiares entendem que as coisas pioraram, ou melhoraram em relação ao seu ente querido.

Do mesmo modo que acabamos por abrir um sorriso quando o paciente teve uma evolução surpreendentemente boa, também nos pegamos tensos e preocupados quando estabelecemos contato visual com uma família específica. Ali mesmo já inicia nossa preparação do terreno, para uma questão difícil que será repassada pelo médico. Ali, naquele momento, sem dizer uma só palavra, dizemos muito sobre tudo, como porta-vozes silenciosos da notícia que não se quer ouvir.

Mas, e a neutralidade, o controle das expressões que aprendemos na faculdade, onde foi parar? Na verdade, a neutralidade ideal deve existir apenas no campo da compreensão, do escutar verdadeiramente sem intervenção julgadora, da capacidade de ouvir as quatro ou cinco versões de uma mesma história, por pontos de vista divergentes sem se permitir manipular, tendendo à avaliação técnica, racional e intervenção refletida. Entretanto, ainda assim é importante aprender a perceber as próprias emoções provocadas durante um contato interpessoal, pois elas muito podem nos dizer sobre a situação manifesta.

Atuação do psicólogo na UTI

O que estamos a argumentar é sobre a importância em desenvolver-se tecnicamente, a ponto de se permitir sentir, manifestar, porém sem ser tendencioso ou agir irrefletidamente pela emoção. O psicólogo na atuação hospitalar acaba sendo a imagem e representação do humano, da capacidade genuína de empatia e compreensão de sentimentos.

De tal forma, como esperar que um comportamento demasiadamente neutro e inexpressivo possa auxiliar no estabelecimento de vínculo? Por que acreditar que uma postura rígida e ausente de emoção possa ser mais coerente do que a espontaneidade e veracidade das relações humanas? Não se sugere aqui colocar as expressões emocionais do terapeuta acima das emoções da família e do próprio paciente, mas sim compreender que existe espaço para a empatia genuína e para os sentimentos, inclusive advindos da equipe.

É essencial demarcar nosso espaço de atuação frente aos atendidos, visto que a própria profissão “psicologia” pode ser confundida com a imagem daquele que tudo aceita, que tudo entende. Cabe estabelecer os limites da relação entre terapeuta e cliente, porém sem colocar o profissional em um pedestal de inatingibilidade que o afaste da compreensão do outro. É delimitar com uma linha tênue, o “distanciamento ótimo” necessário para a avaliação técnica, porém sem fugir da qualidade humana de expressão.

Não há pecado algum em se permitir transparecer a alegria frente à melhora de um paciente, ou o descontentamento frente à perda, desde que, no contato estabelecido, fique claro e demarcado o aspecto profissional da relação, e que tais manifestações não comprometam a qualidade da intervenção técnica.

Acolhimento

De tal modo, o foco de um acolhimento rápido anterior à visita social em UTI não deve ser visto apenas como um hábito automático, que pode ser realizado por qualquer profissional da saúde por se tratar de informações gerais e regras da unidade. Cabe ao psicólogo da unidade, ser criativo e dinâmico na execução desta função, utilizando aquilo que é de saber específico da psicologia para ir além.

Importante ressaltar que todo e qualquer contato com o paciente, ou com as famílias, deve ser olhado por um viés diferenciado, enquanto possibilidade única de expressão do humano, de manifestação de um fenômeno, de possibilidade ímpar de conseguir informações, ainda que silenciosas, que poderão nortear o processo de acompanhamento psicológico ao longo da internação.

É médico e também quer ser colunista do Portal da PEBMED? Inscreva-se aqui!

Autor:

Mariana Batista Leite Leles

Psicóloga Hospitalar ⦁ Residência em Urgência e Trauma ⦁ Especialização em Psico-oncologia ⦁ Membro da diretoria da AMIB, Departamento de Psicologia aplicada à Terapia Intensiva.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.



Esse site utiliza cookies. Para saber mais sobre como usamos cookies, consulte nossa política.