Reumatologia

Qual o impacto no tabagismo passivo no risco de artrite reumatoide na idade adulta?

Tempo de leitura: 3 min.

O tabagismo ativo é o fator de risco ambiental mais bem estabelecido para o desenvolvimento de artrite reumatoide (AR). Alguns estudos sugerem a participação do tabagismo passivo nesse risco; no entanto essa hipótese é bem menos estudada que o tabagismo ativo.

Yoshida et al. publicaram recentemente um estudo que avaliou o impacto do tabagismo passivo no risco de desenvolvimento de AR na idade adulta, levando em consideração essa exposição em diferentes momentos da vida dos sujeitos de estudo.

Leia também: Efeitos adversos associados ao uso de cigarro eletrônico por gestantes

Métodos

Trata-se de um estudo de coorte prospectiva, que incluiu dados coletados pelo Nurses’ Health Study (NHS)-II. Nesse registro, 116.429 enfermeiras com idade entre 25-42 anos foram incluídas em 1989. A partir dessa data, foram coletados dados de saúde das participantes a cada 2 anos, através de questionários, com taxas de follow-up >90%.

Dentre os critérios de exclusão, destacam-se a presença de AR ou doença difusa do tecido conjuntivo prevalente (iniciada antes de 1989) e a ausência de registro do status de tabagismo passivo durante a infância ou idade adulta.

Foram avaliados 3 pontos de interesse quanto ao tabagismo passivo: (1) tabagismo passivo materno (exposição intrauterina); (2) tabagismo passivo durante a infância; e (3) tabagismo passivo durante a idade adulta (categorizado de acordo com anos de exposição em 3 grupos adicionais – 0, 1-19 anos e ≥20 anos). Todos esses dados foram coletados de um questionário aplicado em 1999, quando as participantes tinham 35-52 anos.

Caso a entrevistada apresentasse um novo diagnóstico de AR autorrelatado, ela era convidada a responder um questionário de triagem para doenças difusas do tecido conjuntivo. A partir desse questionário, o prontuário da paciente era revisado por 2 médicos para classificá-la de acordo com os critérios ACR 1987 e/ou ACR-EULAR 2010 para AR.

Os autores criaram diversos modelos de regressão para controle das participantes que se tornaram tabagistas ao longo da vida, visando obter apenas o efeito direto do tabagismo passivo. Para mais detalhes, veja o artigo na íntegra.

Resultados

Foram incluídos 90.923 participantes no estudo. A idade média no baseline foi de 34,5 (SD 4,7) anos. Características clínicas foram semelhantes entre pacientes que tiveram exposição passiva ao cigarro na infância ou não. No entanto, os autores identificaram um maior risco de tabagismo futuro nesses casos, o que está em concordância com a literatura.

Para a exposição intrauterina, os autores encontraram um aumento no risco de todas as formas de AR na idade adulta, com RR de 1,25 (IC95% 1,03-1,52). Esse impacto foi um pouco maior nos pacientes soropositivos (RR 1,34, IC95% 1,06-1,70). No entanto, essa associação deixou de ser estatisticamente significativa após ajuste para tabagismo ativo na idade adulta.

Saiba mais: Covid-19: Jovens que usam cigarros eletrônicos têm até sete vezes mais risco de contrair a doença

Já para a exposição durante a infância, o tabagismo passivo se associou com o aumento no risco apenas para AR soropositiva, com RR de 1,41 (IC95% 1,03-2,98). Na análise convencional incluindo tabagismo ativo posterior, não houve diferença para a exposição na infância (RR 1,30, IC95% 0,99-1,70); no entanto, na abordagem controlada para efeito direto, o RR foi de 1,75 (IC95% 1,03-2,98), sugerindo uma potencial influência direta do tabagismo durante a infância. Uma segunda análise estratificando os pacientes quanto ao tabagismo ativo na idade adulta não encontrou associação entre tabagismo passivo na infância e desenvolvimento de AR em pacientes que nunca fumaram ativamente na vida.

Por fim, os pesquisadores não encontraram aumento do risco de AR em participantes com tabagismo passivo, mesmo que ≥20 anos.

Comentários

Esse estudo envolveu um grande número de participantes, com longo seguimento, e encontrou uma possível associação entre tabagismo passivo na infância e desenvolvimento futuro de AR. Isso pode ser uma informação adicional importante para reforçar a necessidade de interrupção de tabagismo ativo em todos os pacientes que possuem essa comorbidade, visando uma melhora na condição de saúde não só própria, mas potencialmente de seus familiares.

Autor(a):

Referências bibliográficas:

  • Yoshida K, Wang J, Malspeis S, et al. Passive Smoking Throughout the Life Course and the Risk of Incident Rheumatoid Arthritis in Adulthood Among Women. Arthritis Rheumatol. 2021. doi: 10.1002/ART.41939.
Compartilhar
Publicado por
Gustavo Balbi

Posts recentes

Confira: Profilaxia de TVP atualizado

O Whitebook teve 97 conteúdos atualizados, entre eles Profilaxia de TVP. Saiba os detalhes da…

6 horas atrás

Interpretação da Troponina. Como avaliar o exame? [vídeo]

No episódio de hoje, confira o bate-papo entre especialistas sobre a indicação da troponina. Quando…

6 horas atrás

Medicina Baseada em Evidências: como avaliar um guideline?

Os guidelines são importantes instrumentos na prática médica e em outras profissões relacionadas aos cuidados…

8 horas atrás

Covid-19: OPAS/OMS alerta sobre o uso racional de testes de diagnóstico

A OPAS/OMS emitiu um alerta epidemiológico sobre o uso e priorização dos testes diagnósticos (antígeno…

8 horas atrás

Atopia: o que é e como os probióticos auxiliam no tratamento

A atopia é marcada pela presença de anticorpos imunoglobulina E específicos para alérgenos séricos ou…

10 horas atrás

Covid-19: o que esperar para o futuro?

Depois de dois anos de pandemia de Covid-19, ainda existem muitas incertezas sobre o que…

11 horas atrás