Reumatologia

Qual o melhor tratamento para a artrite reumatoide? Estudo de vida real compara DMARDs biológicos e sintéticos alvo específicos

Tempo de leitura: 2 min.

Nas últimas décadas observamos uma grande revolução no tratamento da artrite reumatoide (AR), com o desenvolvimento e comercialização de diversas novas moléculas biológicas (bDMARDs) e sintéticas alvo específicas (tsDMARDs). Apesar da eficácia demonstrada nos ensaios clínicos, a generalização para os cenários de “vida real” nem sempre é possível de maneira linear, devido aos desenhos com critérios de inclusão restritivos, inúmeros critérios de exclusão e tempo de seguimento limitado. Além disso, do ponto de vista logístico, estudos head-to-head entre todas as opções disponíveis (no Brasil são 11 no total) são inviáveis.

Dessa forma, os estudos de registro e análises de vida real ganham importância nesse contexto. Lauper et al. recentemente publicaram um estudo que comparou a efetividade de 4 diferentes bDMARDs e tsDMARDs utilizando dados de uma colaboração internacional de 19 registros (colaboração ‘JAK-pot’).

Ouça também: Artrite Reumatoide: diagnóstico e tratamento [podcast]

Métodos

Trata-se de um estudo de coorte observacional que incluiu pacientes de 19 registros internacionais do uso de bDMARDs e tsDMARDs. Quatro diferentes grupos de medicações foram analisados: anti-TNF, abatacepte, inibidores da IL-6 e inibidores da JAK.

O desfecho primário de efetividade analisado foi a taxa de descontinuação de cada tratamento. Já os desfechos secundários de efetividade foram os motivos da descontinuação e a probabilidade de se atingir baixa atividade de doença ou remissão (utilizando o CDAI) com 12 meses.

Resultados da análise de tratamentos para artrite reumatoide

Foram incluídos 31.846 cursos de tratamento (17.522 de anti-TNF, 2.775 de abatacepte, 3.863 de anti-IL-6 e 7.686 de iJAK [59% de tofacitinibe e 41% de baricitinibe]). A idade média dos 17 registros que forneceram informações individualizadas foi de 56,8 anos, com duração média de doença de 10,2 anos. A maioria dos pacientes era soropositivo (80%), do sexo feminino (78%) e com atividade moderada no início do tratamento.

Os pacientes com anti-TNF eram mais jovens, com menor duração de doença, menos experimentados para bDMARDs/tsDMARDs e com menor frequência de monoterapia. Os iJAK e anti-IL-6 foram mais frequentemente utilizados em monoterapia e os pacientes com iJAK foram mais prescritos após múltiplas falhas de tratamento.

Com relação às taxas de retenção, não foi observada uma diferença significativa entre as drogas, após ajuste para fatores confundidores e na análise de sensibilidade. Além disso, a resposta do CDAI avaliada em 1 ano também foi semelhante para os diferentes tratamentos avaliados, com exceção do abatacepte, que apresentou uma resposta ligeiramente menor que os demais (sem significância estatística).

Já com relação aos motivos de descontinuação, os autores identificaram que, quando comparados com os anti-TNF, os pacientes em uso de iJAK (aHR 0,75; IC95% 0,67-0,83) e anti-IL6 (aHR 0,76; IC95% 0,67-0,85) apresentaram uma menor taxa de suspensão por inefetividade e uma maior taxa de descontinuação por eventos adversos (aHR 1,16; IC95% 1,0-1,33).

Comentários

Esse estudo nos traz algumas informações interessantes. Através da avaliação de dados de vida real, pudemos perceber que as taxas de manutenção dos tratamentos são semelhantes entre os anti-TNF, abatacepte, anti-IL-6 e iJAK, com base nos dados de diversos registros mundiais de biológicos. Além disso, os iJAK e anti-IL-6 foram associados a uma menor descontinuação por inefetividade, mas com uma maior descontinuação por eventos adversos.

Saiba mais: Tratamento na artrite reumatoide: ainda existe lugar para a terapia tríplice?

Esses dados precisam ser interpretados com cautela, já que se trata de um estudo observacional, sem alocação randômica, o que pode agregar risco de vieses. Ao mesmo tempo, os autores não tiveram acesso aos motivos de descontinuação por eventos adversos, o que limita as conclusões. Esse dado é importante, uma vez que existe uma necessidade de avaliação de estudos de vida real que nos ajudem a entender o real papel deletério dos iJAK em desfechos cardiovasculares e neoplásicos, questão levantada mais recentemente após a publicação do estudo ORAL Survaillance.

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Publicado por
Gustavo Balbi

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