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Qual o tempo ideal para realizar uma cirurgia eletiva após infecção por Sars-Cov-2?

Tempo de leitura: 3 min.

À medida que aumenta o número de pessoas contaminadas pelo Sars-Cov-2 no mundo, será cada vez mais comum pacientes com história prévia de Covid-19 necessitarem de cirurgia. Mesmo países de primeiro mundo, com seus programas de vacinação acelerados, possuirão dezenas de milhares de sobreviventes da infecção pelo Sars-Cov-2. Alguns estudos já tentaram responder esta pergunta, porém suas amostras eram limitadas. 

Um estudo internacional, multicêntrico, de coorte, prospectivo, envolvendo mais de 140 mil pacientes submetidos a qualquer tipo de cirurgia e seguidos por mais de 7 semanas foi realizado em outubro de 2020 em 116 países e 1.674 hospitais. O tempo entre a data do diagnóstico de Sars-Cov-2 e o dia da cirurgia foi dividido em 4 categorias: 0 a 2 semanas; 3 a 4 semanas; 5 a 6 semanas; > 7 semanas.

O resultado primário avaliado foi a mortalidade pós-operatória em 30 dias, e o resultado secundário foi a incidência de complicações pulmonares em 30 dias (pneumonia, SARA e suporte ventilatório não esperado no pós-operatório). Foram coletadas diversas informações de cada paciente, como idade, sexo, estado físico ASA, risco cardiológico, presença de comorbidades respiratórias e complexidade/urgência cirúrgica.

Leia também: As implicações da integração do genoma de SARS-CoV-2 no DNA humano

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Resultados

De 140.231 pacientes, 2.2% tiveram o diagnóstico de Sars-Cov2 no pré-operatório. A relação entre o tempo do diagnóstico até a data da cirurgia foi de:

  • 0-2 semanas para 36.4% dos pacientes;
  • 3-4 semanas para 14.7% dos pacientes;
  • 5-6 semanas para 10.4% dos pacientes; e 
  • > 7 semanas para 38.4% dos pacientes.

Quando estratificada pelo tempo entre o diagnóstico e a data da cirurgia, a taxa de mortalidade em 30 dias foi de:

  • 0-2 semanas: 9,1%;
  • 3-4 semanas: 6,9%;
  • 5-6 semanas: 5,5%;
  • > 7 semanas: 2,0%;
  • Não houve diferença estatística significativa entre pacientes > 7 semanas de infecção (2,0%) e paciente sem infecção pré-operatória por Sars-Cov-2: 1,4%.

Do total de pacientes acompanhados, 2,8% desenvolveram complicação pulmonar no pós-operatório nos primeiros 30 dias, incluindo:

  • 1,7% para pneumonia;
  • 0,8% para SARA.

Pacientes submetidos a cirurgia de 0-6 semanas após o diagnóstico de Sars-Cov-2 tiveram risco maior de complicações pulmonares no pós-operatório comparados aos pacientes sem infecção prévia. Entretanto, pacientes que tiveram sua cirurgia postergada por mais de 7 semanas após a infecção pelo Sars-Cov-2 tiveram taxas de complicações pulmonares similares àqueles sem infecção prévia.

Conclusão

Em resumo, o estudo observou que pacientes operados dentro das primeiras 6 semanas de diagnóstico pré-operatório de Sars-Cov-2 tinham maior risco de mortalidade e complicações pulmonares nos primeiros 30 dias de pós-operatório, enquanto aqueles com mais de 7 semanas de diagnóstico eram comparados aos pacientes sem infecção prévia pela Covid-19. Já os pacientes que permaneceram sintomáticos após 7 semanas de diagnóstico e foram submetidos a procedimento cirúrgico também tiveram uma taxa de mortalidade elevada. Esses pacientes poderiam se beneficiar de um maior atraso na marcação de suas cirurgias. Além disso, para procedimentos cirúrgicos de urgência, pacientes e cirurgiões devem decidir em conjunto o risco vs benefício de postergar a cirurgia.

Este estudo possui um aspecto bastante relevante à nossa realidade, visto que o Brasil caminha a passos lentos na vacinação de sua população contra a Covid-19, permanecendo a infecção pré-operatória por Sars-Cov-2 um desafio para cirurgiões e anestesistas.

Autor(a):

Referências bibliográficas:

  • COVIDSurg Collaborative; GlobalSurg Collaborative. Timing of surgery following SARS-CoV-2 infection: an international prospective cohort study. Anaesthesia. 2021 Jun;76(6):748-758. doi: 10.1111/anae.15458
  • Yadava OP. Post-COVID elective surgery-‘to be or not to be’ [published online ahead of print, 2021 Apr 19]. Indian J Thorac Cardiovasc Surg. 2021;37(3):1-2. doi:10.1007/s12055-021-01199-w
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Publicado por
Bruno Vilaça

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